
SER COMO O RIO QUE FLUI
PAULO COELHO

Este livro foi digitalizado e corrigido por Marta Cristina Arajo e destina-se ao uso exclusivo por parte de pessoas portadoras de deficincia visual.




Prefcio
Quando eu tinha quinze anos, disse  minha me:
-        Descobri a minha vocao. Quero ser escritor.
-        Meu filho - respondeu ela, com um ar triste -, o teu pai 
engenheiro.  um homem lgico, razovel, com uma viso precisa do mundo. Sabes o que  ser escritor?
-        Algum que escreve livros.
-        O teu tio Haroldo, que  mdico, tambm escreve livros, e
i publicou alguns. Tira o curso de engenharia, e ters tempo
para escrever nos teus tempos livres.
No, me. Eu quero ser apenas escritor. No um engenheiro que escreve livros.
Mas j conheceste algum escritor? Alguma vez viste um
escritor?
Nunca, S em fotografias.
Ento, como  que queres ser escritor, sem saberes ao certo
o que isso ?
Para poder responder  minha me, resolvi fazer uma pesquisa. 
A) Um escritor usa sempre culos e anda despenteado. Passa um tempo com raiva de tudo, e a outra metade deprimido.
Vive enfiado em bares, a discutir com outros escritores de culos e despenteados. Fala de forma erudita. Tem sempre ideias fantsticas para o seu prximo 
romance, e detesta aquele que acabou de publicar.
Um escritor tem o dever e a obrigao de nunca ser compreendido pela sua gerao - ou nunca chegar a ser considerado um gnio, pois est convencido 
de que nasceu numa poca
em que impera a mediocridade. Um escritor faz sempre vrias
revises e alteraes a cada frase que escreve. O vocabulrio de
um homem comum  composto de 3000 palavras; um verdadeiro escritor nunca as utiliza, visto que existem outras 189 000 no
dicionrio, e ele no  um homem comum.
S os outros escritores compreendem o que um escritor
quer dizer. Mesmo assim, secretamente, ele detesta os outros
escritores - visto estarem a disputar as mesmas vagas deixadas
pela histria da literatura ao longo dos sculos. Desta forma, o
escritor e os seus pares disputam o trofu do livro mais complicado: ser considerado melhor aquele que conseguiu ser o mais
difcil.
Um escritor percebe de temas cujos nomes so assustadores: semitica, epistemologia, neoconcretismo. Quando quer
chocar algum, diz coisas como Einstein  burro ou Tolstoi 
o palhao da burguesia. Todos ficam escandalizados, mas comeam a repetir junto de outros que a teoria da relatividade est
errada, e que Tolstoi defendia os aristocratas russos.
E)        Para seduzir uma mulher, um escritor diz Sou escritor, e
escreve um poema num guardanapo: funciona sempre.
F)        Devido  sua vasta cultura, um escritor consegue sempre
emprego como crtico literrio.  nessa altura que ele mostra a
sua generosidade, ao escrever sobre os livros dos seus amigos.
Movimento artstico brasileiro. Significa, resumidamente, a negao da ordem concreta, a favor de algo novo.
Metade da crtica  composta de citaes de autores estrangeiros; a outra metade so as tais anlises de frases, empregando
sempre termos como o corte epistemolgico ou a viso integrada num eixo correspondente. Quem l a crtica, comenta:
Que pessoa culta. E no compra o livro, porque no sabe como
continuar a leitura, quando o corte epistemolgico aparecer.
G) Um escritor, quando  questionado sobre o que est a ler
naquele momento, cita sempre um livro de que ningum ouviu
falar.
H) S existe um livro que desperta a admirao unnime do
escritor e dos seus pares: Ulisses, de James Joyce. O escritor
nunca fala mal deste livro, mas, quando algum lhe pergunta do
que se trata, ele no consegue explicar bem, deixando no ar a
dvida se realmente o leu.  um absurdo que Ulisses no seja
reeditado, j que todos os escritores o citam como uma obra-
prima; talvez seja estupidez dos editores, que deixam passar a
oportunidade de ganhar muito dinheiro com um livro que toda
a gente leu e de que todos gostaram.
Munido de todas estas informaes, fui ter com a minha me
I expliquei-lhe exactamente o que era ser escritor. Ela ficou algo
incendida.
 mais fcil ser engenheiro - disse ela. - Alm do mais, tu
no usas culos.
Nas eu j estava despenteado, com um mao de Gauloises no
bolso e una pea de teatro debaixo do brao (Limites da Resistncia que, para minha alegria, um crtico definiu como: o espectculo mais maluco que j 
vi), ia estudando Hegel, e estava decidido a ler Ulisses desse por onde desse. At ao dia em que um
cantor de rock me apareceu, me pediu que eu fizesse as letras das suas msicas, retirando-me da busca da imortalidade e colocando-me novamente no 
caminho das pessoas comuns.
Que ia percorrer muitos lugares, e trocar mais de pases
que de sapatos, como dizia Bertold nrecht. Nas pginas que
 
se seguem, encontram-se relatos de alguns momentos que vivi,
histrias que me contaram, reflexes que fiz enquanto percorria
determinada etapa do rio da minha vida.
Estes textos, publicados em diversos peridicos do mundo,
foram compilados a pedido dos leitores.
O Autor


UM DIA NO MOINHO
A minha vida, no momento presente,  uma sinfonia composta
de trs movimentos distintos: muitas pessoas, algumas pessoas e quase ningum. Cada um deles dura aproximadamente
quatro meses por ano, misturando-se com frequncia durante o
mesmo ms, mas sem se confundirem.
Muitas pessoas so os momentos em que estou em contacto com o pblico, os editores, os jornalistas. Algumas pessoas
ocorre quando vou para o Brasil, encontro os meus amigos de
fiupre, caminho pela praia de Copacabana, vou a um ou outro
evento social, mas geralmente fico em casa.
No entanto, a minha inteno hoje  divagar um pouco sobre
o movimento quase ningum. Neste momento, a noite j caiu
neste povoado de duzentas pessoas nos Pirenus, cujo nome prefiri manter em segredo, e onde comprei h pouco tempo um antigo
moinho transformado em casa. Acordo todas as manhs com o
cantar do galo, tomo o meu caf e saio para caminhar por entre
as vacas, OS cordeiros, as plantaes de milho e de feno. Contennplo as montanhas, e - ao contrrio do movimento muitas ocasies tento nunca pensar 
em quem sou. No tenho perguntas  nem respostas, vivo por inteiro no momento presente,....
apercebo-me de que o ano tem quatro estaes (sim, pode parecer
bvio, mas s vezes esquecemo-nos disso), e eu transformo-me
como a paisagem ao redor. Neste momento, no me interessa muito o que acontece no Iraque ou no Afeganisto: como para qualquer outra pessoa que vive 
no interior, as notcias mais importantes so as que esto ligadas  meteorologia. Todos os que habitam na pequena cidade sabem se vai chover, estar frio, 
vento, j que isso afecta directamente as suas vidas, os seus planos, as suas colheitas. Vejo um
agricultor a cuidar do seu campo, desejamo-nos bom-dia, discutimos as previses do tempo, e continuamos a fazer o que estvamos a fazer - ele no seu 
arado, eu na minha longa caminhada.
Volto, vejo a caixa do correio, ali est o jornal da regio: h
um baile no vilarejo vizinho, uma conferncia num bar de Tarbes
- a cidade grande, com os seus 40 000 habitantes -, os bombeiros foram chamados porque uma lixeira foi queimada durante a
noite. O tema que mobiliza a regio  um grupo acusado de
cortar os pltanos de uma estrada rural, porque causaram a morte
de um motociclista; esta notcia rende uma pgina inteira e vrios
dias de reportagens a respeito do comando secreto que est a
querer vingar a morte do rapaz, destruindo as rvores.
Deito-me ao lado do regato que corre no meu moinho. Olho
o cu sem nuvens neste Vero aterrador, com 5000 mortos apenas em Frana. Levanto-me e vou praticar kyudo, a meditao
com arco e flecha, que toma mais uma hora do meu dia. J 
hora de almoar: fao uma refeio ligeira e de repente noto
que numa das dependncias da antiga construo est um objecto
estranho, com ecr e teclado, ligado - maravilha das maravilhas
- com uma linha de altssima velocidade, tambm chamada ADSL.
Sei que, no momento em que premir um boto daquela mquina, o mundo vir ao meu encontro.
Resisto o quanto posso, mas o momento chega, o meu dedo
toca no cone ligar, e a estou eu de novo ligado com o mundo, com os artigos dos jornais brasileiros, com os livros, com as
entrevistas que precisam de ser dadas, com as notcias do Iraque,
do Afeganisto, com os pedidos, com o aviso de que o bilhete de
avio chega amanh, com as decises a adiar, com as decises a
tomar.
Trabalho durante vrias horas, porque foi o que escolhi, por-
que  essa a minha lenda pessoal, porque um guerreiro da luz
sabe que tem deveres e responsabilidades. Mas no movimento
quase ningum tudo o que est no ecr do computador  muito
distante, da mesma maneira que o moinho parece um sonho
quando estou nos movimentos muitas pessoas ou algumas
pessoas.
O Sol comea a esconder-se, desligo o boto, o mundo volta a
ser apenas o campo, o perfume das ervas, o mugido das vacas,
a voz do pastor que traz de volta as suas ovelhas para o estbulo
ao lado do moinho.
Pergunto-me como posso eu passear em dois mundos to diferentes num s dia: no tenho resposta, mas sei que isso me d
muito prazer, e estou contente enquanto escrevo estas linhas.

O homem que seguia
os seus sonhos
Nasci no Centro de Sade So Jos, no Rio de Janeiro. Como
foi um parto bastante complicado, a minha me consagrou-me
ao santo, pedindo que me ajudasse a viver. Jos passou a ser
uma referncia para a minha vida, e desde 1987, o ano seguinte
 minha peregrinao a Santiago de Compostela, que dou uma
festa em sua homenagem, no dia 19 de Maro. Convido amigos,
pessoas trabalhadoras e honestas, e, antes do jantar, rezamos
por todos aqueles que procuram manter a dignidade no que fazem. Oramos tambm pelos que se encontram desempregados,
sem nenhuma perspectiva para o futuro.
Na pequena introduo que fao antes da prece, costumo
lembrar que das cinco vezes que a palavra sonho aparece no
Novo Testamento, quatro referem-se a Jos, o carpinteiro. Em
todos estes casos, ele est sempre a ser convencido por um anjo
a fazer exactamente o contrrio do que estava a planear.
O anjo pede-lhe que no abandone a sua mulher, embora ela
esteja grvida. Ele podia dizer coisas do tipo o que  que os
vizinhos vo pensar. Mas volta para casa, e acredita na palavra
revelada.
O anjo envia-o para o Egipto. E a sua resposta podia ter sido:
Mas eu j estou aqui estabelecido como carpinteiro, tenho a
minha clientela, no posso abandonar tudo agora. Contudo,
ele arruma as suas coisas, e parte em direco ao desconhecido.
O anjo pede-lhe que regresse do Egipto. E Jos podia ter pensado outra vez: Logo agora que eu consegui estabilizar a minha
vida novamente, e que tenho uma famlia para sustentar?
Ao contrrio do que dita o senso comum, Jos segue os seus
sonhos. Sabe que tem um destino a cumprir, que  o destino de
quase todos os homens neste planeta: proteger e sustentar a sua
famlia. Como milhes de joss annimos, ele procura dar conta
da tarefa, mesmo tendo de fazer coisas que esto para alm da
sua compreenso.
Mais tarde, tanto a mulher como um dos filhos se transformam nas grandes referncias do Cristianismo. O terceiro pilar
da famlia, o operrio,  lembrado apenas nos prespios de Natal, ou por aqueles que tm uma devoo especial por ele, como
 o meu caso, e como  o caso de Leonardo Boff, para quem
escrevi o prefcio do seu livro sobre o carpinteiro.
Reproduzo parte de um texto do escritor Carlos Heitor Cony
(espero que seja mesmo dele, visto que o descobrir na Internet!):
Volta e meia estranham que, declarando-me eu agnstico, no
aceitando a ideia de um Deus filosfico, moral ou religioso, seja
devoto de alguns santos do nosso calendrio tradicional. Deus
 um conceito ou uma entidade distante de mais para os meus
recursos e at mesmo para as minhas necessidades. J os santos,
porque foram terrenos, com os mesmos alicerces de barro com
que fui feito, merecem mais do que a minha admirao. Merecem mesmo a minha devoo.
So Jos  um deles. Os Evangelhos no registam uma nica
palavra sua, somente gestos, e uma referncia explcita: virjustus.
Um homem justo. Como se tratava de um carpinteiro, e no de
um juiz, deduz-se que Jos era acima de tudo bom. Bom como
carpinteiro, bom como esposo, bom como pai de um rapaz que
dividiria a histria do mundo.
 
Belas palavras de Cony. E eu, muitas vezes, leio aberraes
do tipo: Jesus foi para a ndia aprender com os mestres do
Himalaia. Para mim, todos os homens podem transformar em
sagrada a tarefa que lhes  dada pela vida, e Jesus aprendeu
enquanto Jos, o homem justo, o ensinava a fazer mesas, cadeiras, camas.
No meu imaginrio, gosto de pensar que a mesa onde Cristo
consagrou o po e o vinho teria sido feita por Jos - porque ali
estava a mo de um carpinteiro annimo que ganhava a vida
com o suor do seu trabalho e que, precisamente por causa disso,
permitia que os milagres se manifestassem.


O mal quer que o bem
seja feito
Conta o poeta persa Rumi que Mo'avia, o primeiro califa da
linhagem de Ommiad, estava um dia a dormir no seu palcio,
quando foi despertado por um homem estranho.
Quem s tu? - perguntou.
Sou Lcifer - foi a resposta.
E o que  que desejas aqui?
J est na hora da tua prece, e tu continuas a dormir.
Mo'avia ficou impressionado. Como  que o prncipe das
trevas, aquele que deseja sempre a alma dos homens de pouca
f, estava a tentar ajud-lo a cumprir um dever religioso?
Mas Lcifer explicou:
-        Lembra-te de que eu fui criado como um anjo de luz. Apesar de tudo o que aconteceu na minha existncia, no me posso
esquecer da minha origem. Um homem pode viajar para Roma
ou Jerusalm, mas transporta sempre no seu corao os valores
de sua ptria: o mesmo acontece comigo. Ainda amo o Criador,
que me alimentou quando era jovem, e me ensinou a fazer o
bem. Quando me revoltei contra Ele, no foi porque no o amasse
muito pelo contrrio, eu amava-o tanto que tive cimes quando criou Ado. Nesse momento, eu quis desafiar o Senhor, e
isso arruinou-me; mesmo assim, ainda me lembro das bnos
que me foram dadas um dia, e talvez agindo bem eu possa voltar
ao Paraso.
Mo'avia respondeu:
No posso acreditar no que me dizes. Tu foste responsvel
pela destruio de muita gente  face da terra.
Pois acredita - insistiu Lcifer. - S Deus pode construir e
destruir, porque  Todo-Poderoso. Foi Ele, ao criar o homem,
que colocou nos atributos da vida o desejo, a vingana, a compaixo e o medo. Portanto, quando olhares para o mal  tua volta,
no me culpes, porque eu sou apenas o espelho daquilo que
acontece de mau.
Sabendo que alguma coisa estava errada, Mo'avia comeou a
rezar desesperadamente para que Deus o iluminasse. Passou
a noite inteira a conversar e a discutir com Lcifer, e apesar dos
argumentos brilhantes que ouvia, no se deixava convencer.
Quando o dia j estava a despontar, Lcifer finalmente cedeu, explicando:
-        Est bem, tens razo. Quando cheguei esta tarde para te
acordar de modo a no perderes a hora da prece, a minha inteno no era aproximar-te da Luz Divina.
Eu sabia que, se deixasses de cumprir a tua obrigao, sentirias uma profunda tristeza, e durante os prximos dias irias
rezar com o dobro da f, pedindo perdo por teres esquecido
o ritual correcto. Aos olhos de Deus, cada uma destas rezas
feita com amor e arrependimento valeria o equivalente a duzentas oraes feitas de forma automtica e ordinria. Acabarias mais purificado e inspirado, 
Deus amar-te-ia mais, e eu
estaria mais longe da tua alma.
Lcifer desapareceu, e um anjo de luz entrou logo em seguida:
-        Nunca te esqueas da lio de hoje - disse para Mo'avia. -
s vezes o mal disfara-se de emissrio do bem, mas a sua inteno oculta  provocar mais destruio.
Naquele dia, e nos dias seguintes, Mo'avia orou com arrependimento, compaixo e f. As suas preces foram ouvidas mil
vezes por Deus.
 
Preparado para o
combate, mas com dvidas
Estou vestido com uma estranha farda verde, cheia de fechos,
feita de tecido grosso. As minhas mos tm luvas, de modo a
evitar ferimentos. Transporto comigo uma espcie de lana quase da minha altura: a sua extremidade de metal possui um tridente
e do outro lado uma ponta afiada.
E diante dos meus olhos aquilo que ser atacado no prximo
minuto: o meu jardim.
Com o objecto na minha mo, comeo a arrancar a erva daninha que se misturou com a relva. Fao isso durante um bom
bocado, sabendo que a planta retirada do solo ir morrer antes
de se passarem dois dias.
De repente, pergunto-me: estou a agir correctamente?
Aquilo a que chamo erva daninha  na verdade uma tentativa
de sobrevivncia de determinada espcie, que demorou milhes
de anos para ser criada e desenvolvida pela natureza. A flor foi
fertilizada  custa de inmeros insectos, transformou-se em semente, o vento espalhou-a por todos os campos em redor, e
.issim - porque no est plantada apenas num stio, mas em muitos - as suas hipteses de chegar at  prxima Primavera so
muito maiores. Se estivesse concentrada apenas num stio, estaria sujeita aos animais herbvoros, a uma inundao, a um incndio ou a uma seca.

Mas todo este esforo de sobrevivncia esbarra agora com a
ponta de uma lana, que a arranca sem qualquer piedade da
terra.
Porque  que fao isto?
Algum criou o jardim. No sei quem foi, porque quando
comprei a casa ele j estava ali, em harmonia com as montanhas
e com as rvores ao seu redor. Mas o criador deve ter pensado
longamente no que fazer, deve ter plantado com muito cuidado
e planeamento (existe uma fileira de arbustos que esconde a casa
onde guardamos a lenha), e tratado dele ao longo de vrios Invernos e Primaveras. Quando me entregou o velho moinho -
onde passo alguns meses por ano -, o relvado estava impecvel.
Agora cabe a mim dar continuidade ao seu trabalho, embora a
questo filosfica permanea: devo respeitar o trabalho do criador,
do jardineiro, ou devo aceitar o instinto de sobrevivncia com que
a natureza dotou esta planta, hoje chamada erva daninha?
Continuo a arrancar as plantas indesejveis e a coloc-las
numa pilha que em breve ser queimada. Talvez eu esteja a reflectir de mais sobre temas que nada tm a ver com reflexes,
mas com aces. Contudo, cada gesto do ser humano  sagrado
e cheio de consequncias, e isso fora-me a pensar mais sobre o
que estou a fazer.
Por um lado, estas plantas tm o direito de se espalhar em
qualquer direco. Por outro, se eu no as destruir agora, elas
acabaro por sufocar a relva. No Novo Testamento, Jesus fala
em arrancar o joio, de modo a no se misturar com o trigo.
Mas - com ou sem o apoio da Bblia - estou diante de um
problema concreto que a humanidade est sempre a enfrentar:
at que ponto  possvel interferir na natureza? Esta interferncia  sempre negativa, ou pode, s vezes, ser positiva?
Deixo de lado a arma - tambm conhecida como enxada.
Cada golpe significa o final de uma vida, a no-existncia de
uma flor que iria desabrochar na Primavera, a arrogncia do ser
humano que quer moldar a paisagem ao seu redor. Preciso de
reflectir mais, porque estou neste momento a exercer o poder
da vida e da morte. A relva parece dizer: Protege-me, ela vai
destruir-me. A erva tambm fala comigo: Eu viajei de to longe para chegar ao teu jardim - porque  que me queres matar?
No final, o que vem em meu socorro  um texto indiano, a
Khagavad Gita. Lembro-me da resposta de Krishna ao guerreiro
Arjuna, quando este se mostra desalentado antes de uma batalha
decisiva, atira as suas armas para o cho, e diz que no  justo
participar num combate em que acabar por matar o seu irmo.
Krishna responde mais ou menos o seguinte: Achas que podes
matar algum? A tua mo  a Minha mo, e tudo o que tu ests
a fazer j estava escrito que seria feito. Ningum mata, e ningum morre.
Animado por esta sbita lembrana, empunho de novo a lana ataco as ervas que no foram convidadas a crescer no meu
 jardim, e fico com a nica lio desta manh: quando algo indesejvel crescer na minha alma, peo a Deus que me d a mesma coragem para arranc-lo 
sem nenhuma piedade.


O caminho do tiro
com o arco
A importncia de repetir a mesma coisa: Uma aco  um pensamento que se manifesta.
Um pequeno gesto denuncia-nos, de modo que temos de aperfeioar tudo, pensar nos pormenores, aprender a tcnica de tal
maneira que ela se torne intuitiva. Intuio nada tem a ver com
rotina, mas com um estado de esprito que est alm da tcnica.
Assim, depois de muito praticar, j no pensamos em todos
os movimentos necessrios: eles passam a fazer parte da nossa
prpria existncia. Mas para isso  preciso treinar, repetir.
E como se no bastasse,  preciso repetir e treinar.
Observe um bom ferreiro a trabalhar o ao. Para um olhar
destreinado, ele est a repetir as mesmas marteladas.
Mas quem conhece a importncia do treino, sabe que cada
vez que ele levanta o martelo e o faz descer, a intensidade do
golpe  diferente. A mo repete o mesmo gesto, mas  medida
que se aproxima do ferro, ela sabe se deve toc-lo com mais
dureza ou com mais suavidade.
Veja um moinho. Para quem olha para as suas ps apenas
uma vez, ele parece girar com a mesma velocidade, repetindo
sempre o mesmo movimento.
Mas aquele que conhece os moinhos sabe que eles esto condicionados pelo vento, e mudam de direco sempre que isso 
necessrio.
A mo do ferreiro foi educada depois de ele ter repetido milhares de vezes o gesto de martelar. As ps do moinho so capazes
de se mover com velocidade depois de o vento ter soprado muito, o que fez com que as suas engrenagens ficassem polidas.
O arqueiro permite que muitas flechas passem longe do seu
objectivo, porque sabe que s ir aprender a importncia do
arco, da postura, da corda e do alvo depois de repetir os mesmos gestos milhares de vezes, sem medo de errar. At chegar o
momento em que j no  preciso pensar no que se est a fazer.
A partir da, o arqueiro passa a ser o seu arco, a sua flecha e o
seu alvo.
Como observar o voo da flecha: A flecha  a inteno que se
projecta no espao.
Uma vez disparada, j no h nada que o arqueiro possa fazer, a no ser acompanhar o seu percurso em direco ao alvo. A
partir desse momento, a tenso necessria para o tiro j no tem
razo para existir.
Portanto, o arqueiro mantm os olhos fixos no voo da flecha,
mas o seu corao repousa, e ele sorri.
Nesse momento, se treinou o bastante, se conseguiu desenvolver o seu instinto, se manteve a elegncia e a concentrao durante todo o processo do 
disparo, ele sentir a presena do Universo e ver que sua aco foi justa e merecida.
A tcnica faz com que as duas mos estejam prontas, a respirao seja precisa e os olhos possam fixar o alvo. O instinto faz
com que o momento do disparo seja perfeito.
Quem passar por perto e vir o arqueiro de braos abertos, os olhos a acompanhar a flecha, vai achar que est parado.
Mas os aliados sabem que a mente de quem fez o disparo mudou de dimenso, est agora em contacto com todo o Universo:
ela continua a trabalhar, apreendendo tudo o que aquele disparo
trouxe de positivo, corrigindo os eventuais erros, aceitando as
suas qualidades, esperando para ver como o alvo reage ao ser
atingido.
Quando o arqueiro estica a corda, pode ver o mundo inteiro
dentro do seu arco. Quando acompanha o voo da flecha, este
mundo aproxima-se dele, acaricia-o, e faz com que tenha a sensao perfeita do dever cumprido.
Um guerreiro da luz, depois de cumprir o seu dever e de
transformar a sua inteno num gesto, no precisa de temer mais
nada: ele fez o que devia. No se deixou paralisar pelo medo -
mesmo que a flecha no atinja o alvo, ele ter outra oportunidade, porque no foi cobarde.
 

A histria do lpis
Um menino olhava para a av a escrever uma carta. A certa
altura, perguntou:
-        Ests a escrever uma histria que aconteceu connosco?
I', por acaso,  uma histria sobre mim?
A av parou de escrever a carta, sorriu e comentou com o
neto:
-        Estou a escrever sobre ti,  verdade. No entanto, mais importamte do que as palavras,  o lpis que estou a usar. Gostava que
fosses como ele, quando cresceres.
O menino olhou para o lpis, intrigado, e no viu nada de
especial.
Mas ele  igual a todos os lpis que vi na minha vida!
Tudo depende do modo como tu olhas para as coisas. H
nele cinco qualidades que, se as conseguires manter, faro de ti
uma pessoa sempre em paz com o mundo.
A primeira qualidade: tu podes fazer grandes coisas, mas
nunca te deves esquecer de que existe uma Mo que guia os teus
passos. A esta mo ns chamamos Deus, e Ele deve sempre conduzir em direco  Sua vontade.
A segunda qualidade: de vez em quando,  preciso parar de rever e usar o afia-lpis. Isso faz com que o lpis sofra um
bocado, mas deixa-o mais afiado. Portanto, aprende a suportar
algumas dores, porque elas faro de ti uma pessoa melhor.
A terceira qualidade: o lpis permite sempre que usemos
uma borracha para apagar aquilo que est errado. Percebe que
corrigir uma coisa que fizemos no  necessariamente mau, mas
importante para nos manter no caminho da justia.
A quarta qualidade: o que realmente importa no lpis no 
a madeira ou a sua forma exterior, mas o grafite que est dentro.
Portanto, presta sempre ateno quilo que acontece dentro de
ti.
Finalmente, a quinta qualidade do lpis: ele deixa sempre
uma marca. Da mesma maneira, compreende que tudo o que tu
fizeres na vida vai deixar traos, por isso tenta ser consciente de
todas as tuas aces.
 
Manual para subir
montanhas
A,
Escolha a montanha que deseja subir: no se deixe levar
pelos comentrios dos outros, como aquela  mais bonita, ou
esta  mais fcil. Visto que ir gastar muita energia e muito
entusiasmo para atingir o seu objectivo, voc  o nico responsvel deve ter a certeza do que est a fazer.
B) Saiba como chegar diante dela: muitas vezes, a montanha
 vista de longe - bela, interessante, cheia de desafios. Mas quando tentamos aproximar-nos, o que  que acontece? Existem estradas que a circundam, 
florestas entre voc e o seu objectivo; o
que aparece claro no mapa  difcil na vida real. Portanto, tente
todos os caminhos, todos os trilhos, at que um dia estar em
frente ao topo que pretende atingir.
C) Aprenda com quem j caminhou por ali: por mais que voc
se julgue nico, j algum teve o mesmo sonho anteriormente,
tendo deixado marcas que podem facilitar a caminhada; lugares
onde pr a corda, atalhos, galhos partidos para facilitar a marcha.
A caminhada  sua, a responsabilidade tambm, mas no se esquea de que a experincia alheia ajuda muito.
 Os perigos, vistos de perto, so controlveis: quando comear a subir a montanha dos seus sonhos, preste ateno ao
redor. H despenhadeiros, claro. H fendas quase imperceptveis. H pedras to polidas pelas tempestades que se tornam
escorregadias como o gelo. Mas se souber onde est a pr cada
p, ir perceber as armadilhas, e saber contorn-las.
E)        A paisagem muda, portanto aproveite: claro que  preciso
ter um objectivo em mente - chegar ao topo. Mas  medida que
se vai subindo, mais coisas podem ser vistas, e no custa nada
parar de vez em quando e desfrutar um pouco da paisagem ao
redor. A cada metro conquistado, consegue ver mais longe; aproveite ento para descobrir coisas que ainda no tinha percebido.
F)        Respeite o seu corpo: s consegue subir uma montanha
quem d ao corpo a ateno que merece. Voc tem todo o tempo que a vida lhe d, portanto caminhe sem exigir o que no
pode ser dado. Se andar depressa de mais, ir ficar cansado e
desistir a meio. Se andar muito devagar, a noite pode cair e ficar perdido. Aproveite a paisagem, desfrute da gua fresca das
nascentes e das frutas que a natureza generosamente lhe oferece,
mas continue a andar.
G)        Respeite a sua alma: no esteja sempre a repetir eu vou
conseguir. A sua alma j sabe disso, o que ela precisa  de usar
a longa caminhada para poder crescer, estender-se no horizonte, atingir o cu. Uma obsesso no ajuda em nada na busca do
seu objectivo, e acaba por tirar o prazer da escalada. Mas ateno: to-pouco repita  mais difcil do que eu pensava, porque
isso f-lo- perder a fora interior.
H) Prepare-se para caminhar um quilmetro a mais: o percurso at ao topo da montanha  sempre mais longo do que o
que se pensa. No se engane, h-de chegar o momento em que o
que parecia perto ainda est muito longe. Mas como voc se
disps a ir mais alm, isso no chega a ser um problema.
I) Alegre-se quando chegar ao cume: chore, bata palmas, grite
aos quatro ventos que conseguiu, deixe que o vento l em cima
(porque l em cima est sempre vento) purifique a sua mente,
refresque os seus ps suados e cansados, abra os seus olhos, limpe a poeira do seu corao. Que bom, o que antes era apenas
um sonho, uma viso distante, agora  parte da sua vida, voc
conseguiu.
J) Faa uma promessa: aproveite ter descoberto uma fora
que nem sequer conhecia, e diga a si prprio que a partir de
agora ir us-la para o resto dos seus dias. De preferncia, prometa tambm descobrir outra montanha, e partir para uma nova
aventura.
L) Conte a sua histria: sim, conte a sua histria. Mostre o
seu exemplo. Diga a todos que  possvel, e ver que outras
pessoas vo sentir coragem para enfrentar as suas prprias montanhas.
 
Da importncia do
diploma
O meu antigo moinho, na pequena aldeia dos Pirenus, tem
uma fileira de rvores que o separa da quinta ao lado. Certo dia,
o meu vizinho veio ter comigo - devia ter aproximadamente
setenta anos. Volta e meia, eu via-o a trabalhar com a mulher na
lavoura, e pensava para comigo que j estava na altura de descansarem.
O vizinho, embora muito simptico, diz-me que as folhas secas das minhas rvores caam no seu telhado, e que eu tinha de
as cortar.
Fiquei muito chocado: como  que uma pessoa que passou a
vida inteira em contacto com a natureza quer que eu destrua
algo que demorou tanto a crescer, simplesmente porque, em dez
anos, isso lhe pode causar um problema nas telhas?
Convido-o para um caf. Digo que me responsabilizo, que se
algum dia estas folhas secas (que sero varridas pelo vento e
pelo Vero) provocarem algum dano, eu me encarrego de mandar construir um tecto novo. O meu vizinho diz que isso no lhe
interessa: ele quer que eu corte as rvores. Isso irrita-me um
bocado; digo-lhe que prefiro comprar a quinta dele.
- A minha terra no est  venda - responde.

Mas com esse dinheiro podia comprar uma excelente casa na
cidade e viver l o resto dos seus dias com a sua mulher, sem ter
de se confrontar com Invernos rigorosos e colheitas perdidas.
A quinta no est  venda. Nasci, cresci aqui, e estou muito
velho para me mudar.
Ele sugere que venha um perito da cidade, que avalie o caso,
e que decida - assim nenhum de ns precisa de se irritar com o
outro. Afinal de contas, somos vizinhos.
Quando sai, a minha primeira reaco  culp-lo de insensibilidade e desrespeito com a Me Terra. Depois, fico intrigado:
porque  que no aceitou vender a terra? E antes que o dia acabe, compreendo que a sua vida tem apenas uma histria, a qual
o meu vizinho no quer mudar. Ir para a cidade significa tambm mergulhar num mundo desconhecido, com outros valores,
que talvez se julgue muito velho para aprender.
Isto acontece apenas com o meu vizinho? No. Acho que
acontece com toda a gente; s vezes, estamos to apegados 
nossa maneira de viver que recusamos uma grande oportunidade, porque no sabemos como a utilizar. No caso dele, a sua
quinta e a sua aldeia so os nicos lugares que conhece, e no
vale a pena arriscar. No caso das pessoas que vivem na cidade,
elas acreditam que  preciso ter um diploma da faculdade, casar,
ter filhos, fazer com que o seu filho tambm tenha um diploma,
e da por diante. Ningum se pergunta: Ser que posso fazer
algo diferente?
Lembro-me que o meu barbeiro trabalhava de dia e de noite para
que a sua filha pudesse terminar o curso de Sociologia. Ela construiu acabar a faculdade e, depois de bater a muitas portas,
conseguiu encontrar um emprego como secretria numa firma
de cimento. Mesmo assim, o meu barbeiro dizia, orgulhoso:
A minha filha tem um diploma.
A maioria dos meus amigos, e dos filhos dos meus amigos,
tm um diploma. Isso no significa que tenham conseguido trabalhar no que queriam - muito pelo contrrio, entraram e saram de uma universidade porque 
algum, numa poca
em que as faculdades eram importantes, dizia que para se subir
na vida era preciso ter um diploma. Desta forma, o mundo deixou de ter excelentes jardineiros, padeiros, antiqurios, escultores, escritores. Talvez seja 
altura de rever isso: mdicos, engenheiros, cientistas, advogados precisam de fazer um curso
superior. Mas ser que toda a gente precisa? Deixo que os versos de Robert Frost dem a resposta:
Diante de mim havia duas estradas
Eu escolhi a estrada menos percorrida
E isso fez toda a diferena.
Para concluir a histria do meu vizinho: o perito veio e,
para minha surpresa, mostrou uma lei francesa que obriga todas as
rvores a estarem no mnimo a trs metros da propriedade alheia.
As minhas estavam a dois metros, e por isso terei de as cortar.
 
Num bar de Tquio
Um jornalista japons faz a pergunta de sempre:
-        E quais so os seus escritores favoritos?
Eu dou a resposta de sempre:
-        Jorge Amado, Jorge Luis Borges, William Blake e Henry
Miiler.
A tradutora olha para mim espantada:
-        Henry Miiler?
Mas apercebe-se imediatamente de que o seu papel no 
fazer perguntas, e continua o seu trabalho. No final da entrevista, quero saber porque ficou to surpreendida com a resposta.
Digo que talvez Henry Miiler no seja um escritor politicamente
Correcto, foi algum que me abriu um mundo gigantesco  cujos livros tm uma energia vital que raramente podemos encontrar na literatura 
contempornea.
No estou a criticar Henry Miiler; eu tambm sou f dele -
responde ela. - Sabia que foi casado com uma japonesa?
Sim, claro; no tenho vergonha de ser fantico por algum, e
por isso tentar saber tudo da sua vida. Fui a uma feira de livros
apenas para conhecer Jorge Amado, viajei 48 horas de autocarro para me encontrar com Borges (o que acabou por no acontecer por minha culpa; quando 
o vi, fiquei paralisado e no disse
nada), toquei  campainha da porta de John Lennon em Nova Iorque
(o porteiro pediu-me que deixasse uma carta a explicar o porqu
da visita, disse que eventualmente Lennon telefonaria, o que nunca
aconteceu). Tinha planos para ir a Big Sur ver Henry Miller, mas
ele morreu antes que eu conseguisse dinheiro para a viagem.
-        A japonesa chama-se Hoki - respondo orgulhoso. - Sei tambm que em Tquio existe um museu dedicado s aguarelas de
Miller.
-        Quer encontr-la hoje  noite?
Mas que pergunta! Claro que quero estar perto de algum
que conviveu com um dos meus dolos. Imagino que deve receber visitas do mundo inteiro, pedidos de entrevistas, afinal, ficaram quase dez anos juntos. 
No ser muito complicado pedir
que gaste o seu tempo com um simples f? Mas se a tradutora
diz que isso  possvel, o melhor  confiar - os japoneses cumprem sempre a palavra dada.
Aguardo com ansiedade o resto do dia, entramos num txi, e
tudo comea a parecer estranho. Paramos numa rua onde o sol
nunca deve bater, pois passa um viaduto por cima. A tradutora
aponta para um bar de segunda categoria no segundo andar de
um prdio a cair aos bocados.
Subimos as escadas, entramos no bar completamente vazio, e
ali est Hoki Miller.
Para esconder a minha surpresa, tento exagerar o meu entusiasmo pelo seu ex-marido. Ela leva-me a uma sala dos fundos,
onde criou um pequeno museu - algumas fotos, duas ou trs
aguarelas assinadas, um livro com uma dedicatria, e nada mais.
Conta-me que o conheceu quando fazia o mestrado em Los Angeles e, para se sustentar, tocava piano num restaurante, onde
cantava msicas francesas (em japons). Miller foi l jantar, adorou as canes (tinha passado grande parte da sua vida em Paris), saram algumas vezes, 
ele pediu-a em casamento.
Vejo que no bar onde estou h um piano - como se estivesse
de volta ao passado, ao dia em que os dois se encontraram. Ela
conta-me coisas deliciosas a respeito da vida deles em comum,
dos problemas decorrentes da diferena de idades entre os dois
(Miller tinha mais de cinquenta anos, Hoki no tinha ainda completado vinte), do tempo que passaram juntos. Explica que os
herdeiros dos outros casamentos ficaram com tudo, inclusive
com os direitos autorais dos livros - mas isso no tem importncia, o que ela viveu est muito alm da compensao financeira.
Peo que toque a mesma msica que chamou a ateno de
Miller, h muitos anos atrs. Ela f-lo com lgrimas nos olhos, e
canta Folhas Mortas (Feuilles Mortes).
Eu e a tradutora tambm ficamos comovidos. O bar, o piano,
.a voz da japonesa a ecoar nas paredes vazias, sem se importar
com a glria das ex-mulheres, com os rios de dinheiro que os
livros de Miller devem gerar, com a fama mundial de que podia
estar a desfrutar agora.
No valia a pena lutar pela herana: o amor foi o suficiente,
diz no final, percebendo o que sentamos. Sim, pela completa ausncia de amargura ou de rancor, eu compreendo que o amor  suficiente.
 
Da importncia
do olhar
No incio, Theo Wierema era apenas uma pessoa persistente.
Durante cinco anos seguidos enviara religiosamente um convite
para o meu escritrio em Barcelona, convidando-me para uma
palestra em Haia, na Holanda.
Durante cinco anos, o meu escritrio respondera invariavelmente que a agenda estava preenchida. Na verdade, nem sempre a agenda est preenchida; 
contudo, um escritor no  necessariamente algum que consiga falar bem em pblico. Alm disso,
tudo o que preciso de dizer est nos livros e nas crnicas que
escrevo - por isso tento sempre, evitar as conferncias.
Theo descobriu que eu ia gravar um programa para um canal
de televiso na Holanda. Quando desci para as filmagens, ele
estava  minha espera no trio do hotel. Apresentou-se e pediu
para me acompanhar, dizendo:
- No sou uma pessoa incapaz de ouvir no. Apenas acredito que estou a tentar o meu objectivo da forma errada.
H que lutar pelos sonhos, mas h que saber tambm que
quando certos caminhos se mostram impossveis, o melhor 
guardar as energias para percorrer outras estradas. Podia simplesmente dizer no (j disse e j ouvi vrias vezes esta palavra),
mas resolvi tentar algo mais diplomtico: colocar condies impossveis de cumprir.
Disse que daria a conferncia de graa, mas o ingresso no
podia ultrapassar dois euros, e a sala teria de ter no mximo
duzentas pessoas.
Theo concordou.
-        Vai gastar mais do que vai ganhar - alertei. - Pelas minhas
contas, s o bilhete de avio e o hotel custam o triplo do que vai
receber se conseguir encher a sala. Alm disso, existem custos
com divulgao, aluguer do espao...
Theo interrompeu-me, dizendo que nada disso tinha importncia: estava a fazer isso por causa do que via na sua profisso.
-        Organizo eventos porque preciso de continuar a acreditar
que o ser humano est em busca de um mundo melhor. Preciso
dar a minha contribuio para que isso seja possvel.
Qual  a sua profisso?
-        Vendo igrejas.
E continuou, para meu espanto:
-        Sou encarregado pelo Vaticano de seleccionar compradores, j que h mais igrejas que fiis na Holanda. E como j tivemos pssimas experincias 
no passado, ao ver os lugares sagrados a transformarem-se em discotecas, prdios em condomnio
fechado, butiques e at mesmo sex-shops, o sistema de venda foi
alterado. O projecto tem de ser aprovado pela comunidade, e ocomprador tem de dizer o que vai fazer do imvel: geralmente,
acitamos apenas as propostas que incluem um centro cultural,
uma instituio de caridade ou um museu.
T o que tem isso a ver com a sua conferncia, e as outras que
est a tentar organizar? As pessoas j no se esto a encontrar.
1 segundo, no se encontram, no conseguem crescer.
Olhando-me fixamente, concluiu:
Encontros. O meu erro consigo foi justamente esse. Em vez
de ter andado a enviar e-mails, eu devia desde logo ter mostrado
 
que sou feito de carne e osso. Uma vez, como no conseguia
obter resposta de um determinado poltico, fui bater  porta
dele, e ele disse-me: Se quiser alguma coisa, precisa de mostrar
os seus olhos primeiro. Desde ento, tenho feito isso, e s tenho obtido bons resultados. Podemos ter todos os meios de comunicao do mundo, mas 
nada, absolutamente nada, substitui
o olhar do ser humano.
 claro que acabei por aceitar a proposta.

Gengis Khan e
o seu falco

P.S. Quando fui a Haia para a conferncia, como sei que a
minha mulher, que  artista plstica, sempre quis criar um centro cultural, pedi para ver algumas das igrejas que estavam 
venda. Perguntei o preo de uma que normalmente abrigava quinhentos paroquianos aos domingos: custava 1 euro (UM euro!),
embora os gastos de manuteno pudessem atingir patamares
proibitivos.

Em uma recente visita ao Cazaquisto, na sia Central, tive a
oportunidade de acompanhar caadores que usam o falco como
.uma. No quero entrar aqui em pormenores e discutir a palavra caada; quero apenas dizer que, neste caso,  a natureza a
cumprir o seu ciclo.
Eu estava sem intrprete, e o que poderia ser um problema,
acabou por ser uma bno. Impedido de conversar com eles,
prestava mais ateno ao que faziam: vi a nossa pequena comitiva parar, o homem com o falco no brao a distanciar-se um bocado e a retirar a pequena 
viseira de prata da cabea da ave.
No sei porque decidiu parar ali, e no tinha como perguntar.
A ave levantou voo, descreveu alguns crculos no ar e, depois num golpe certeiro, desceu em direco  ravina, e no se
Viu mais. Aproximmo-nos e vimos uma raposa presa nas
Suas garras. A mesma cena aconteceu mais uma vez, durante
aquela manh.
De volta  aldeia, encontrei-me com as pessoas que me esperavam  e perguntei como  que conseguiam domesticar um falco
De novo vi fazer tudo aquilo que vi - inclusive ficar docilmente no
Ombro do seu dono (e no meu tambm; colocaram-me umas braadeiras no  ombro, e pude ver de perto as suas garras afiadas).
Pergunta intil. Ningum sabe explicar: dizem que esta arte
passa de gerao em gerao, o pai ensina ao filho, e assim por
diante. Mas ficar para sempre gravado nas minhas retinas as
montanhas nevadas ao fundo, a silhueta do cavalo e do cavaleiro, o falco a sair do seu brao, e o golpe certeiro.
Fica tambm uma lenda que uma das pessoas me contou,
enquanto almovamos:
Certa manh, o guerreiro mongol Gengis Khan e a sua corte
saram para caar. Enquanto os seus companheiros levaram flechas e arcos, Gengis Khan levava o seu falco favorito no brao
- que era melhor e mais preciso do que qualquer flecha, porque
podia subir aos cus e ver tudo aquilo que o ser humano no
consegue ver.
Contudo, apesar de todo o entusiasmo do grupo, no conseguiram encontrar nada. Decepcionado, Gengis BChan voltou para
o seu acampamento - mas para no descarregar a sua frustrao
nos seus companheiros, separou-se da comitiva e resolveu partir
sozinho.
Tinham permanecido na floresta mais tempo que o esperado, e Khan estava morto de cansao e de sede. Por causa do
calor do Vero, os riachos estavam secos, no conseguia encontrar nada para beber, at que - milagre! - viu um fio de gua a
descer de um rochedo  sua frente.
Nesse momento, tirou o falco do brao, pegou no pequeno
clice de prata que andava sempre consigo, demorou algum tempo para o encher, e quando estava prestes a lev-lo aos lbios, o
falco levantou voo e arrancou o copo das suas mos, atirando-
-o para longe.
Gengis Khan ficou furioso, mas era o seu animal favorito,
talvez tambm estivesse com sede. Apanhou o clice, limpou-
-lhe a poeira e voltou a ench-lo. Com o copo pela metade, o
falco ataca-o novamente, entornando o lquido.
Gengis Khan adorava o seu animal, mas sabia que no se
podia deixar desrespeitar em nenhuma circunstncia, j que algum podia estar a ver a cena de longe, e mais tarde ir contar
aos seus guerreiros que o grande conquistador era incapaz de
domar uma simples ave.
Dessa vez, tirou a espada da cintura, pegou no clice, voltou
a ench-lo - com um olho na fonte e outro no falco. Assim que
viu ter gua suficiente, e quando estava pronto para a beber, o
falco levantou novamente voo e veio na sua direco. Khan,
num golpe certeiro, atravessou-lhe o peito.
Mas o fio de gua havia secado. Decidido a beber de qualquer maneira, subiu o rochedo em busca da fonte. Para sua
surpresa, havia realmente uma poa de gua e, no meio dela,
morta, uma das serpentes mais venenosas da regio. Se tivesse
bebido a gua, j no estaria no mundo dos vivos.
Khan voltou ao acampamento com o falco morto nos braos. Mandou fazer uma reproduo em ouro da ave, e gravou
numa das asas:
Mesmo quando um amigo faz algo de que tu no gostas, ele
continua a ser teu amigo.
Na outra asa mandou escrever:
Qualquer aco motivada pela fria  uma aco condenada
ao fracasso.
 
 


A caixa de Pandora
Olhando para o
jardim alheio
Dai ao tolo mil inteligncias, e ele no querer seno a tua,
diz o provrbio rabe. Comeamos a plantar o jardim da nossa
vida e - quando olhamos para o lado - reparamos que o vizinho
est ali, a espreitar. Ele  incapaz de fazer alguma coisa, mas
gosta de dar palpites sobre como semeamos as nossas aces,
plantamos os nossos pensamentos, regamos as nossas conquistas.
Se prestarmos ateno ao que ele est a dizer, acabaremos a
trabalhar para ele, e o jardim da nossa vida ser ideia do vizinho. Acabaremos por esquecer a terra cultivada com tanto suor,
fertilizada por tantas bnos. Esqueceremos que cada centmetro de terra tem os seus mistrios, que s a mo paciente do
jardineiro  capaz de decifrar. J no prestaremos ateno ao
sol,  chuva e s estaes - para ficarmos apenas concentrados
naquela cabea que nos espreita por cima da cerca.
O tolo que adora dar palpites sobre o nosso jardim nunca
cuida das suas plantas.

Na mesma manh, trs sinais vindos de continentes diferentes:
um e-mail do jornalista Lauro Jardim, a pedir-me para confirmar alguns dados sobre uma nota a meu respeito, e a mencionar
a situao na Rocinha, Rio de Janeiro. Um telefonema da minha
mulher, que acaba de desembarcar em Frana: viajara com um
casal de amigos franceses para lhes mostrar o nosso pas, e os
dois acabaram assustados, decepcionados. Finalmente, o jornalista que me vem entrevistar para um canal de televiso russo:
 verdade que no seu pas morreram mais de meio milho de
pessoas assassinadas, entre 1980 e 2000?
Claro que no  verdade, respondo.
Mas : ele mostra-me dados de um instituto brasileiro (na
verdade, o IBGE).
Eu fico calado. A violncia do meu pas atravessa os oceanos,
as montanhas, e chega at este lugar na sia Central. O que
dizer?
Dizer no basta, pois as palavras que no se transformam 
trazem a peste, como dizia William Blake. Tenho tentado fazer a minha parte: criei o meu instituto, juntamente com
pessoas hericas, Isabella e Yolanda Maltarolli, tentamos

dar educao, carinho, amor a trezentas e sessenta crianas da
favela Pavo-Pavozinho. Sei que neste momento existem milhares de brasileiros a fazer muito mais, a trabalhar em silncio,
sem ajuda oficial, sem apoio privado, apenas para no se deixarem dominar pelo pior dos inimigos: a desesperana.
Num dado momento, achei que se cada um fizesse a sua parte,
as coisas mudariam. Mas, nesta noite, enquanto contemplo as
montanhas geladas na fronteira com a China, tenho dvidas.
Talvez, mesmo com cada um a fazer a sua parte, ainda seja verdade o ditado que aprendi quando era criana: Contra a fora
no h argumentos.
Olho novamente para as montanhas, iluminadas pela Lua.
Ser que contra a fora no h mesmo argumentos? Como todos os brasileiros, tentei, lutei, esforcei-me para acreditar que a
situao do meu pas um dia iria melhorar, mas a cada ano que
passa as coisas parecem mais complicadas, independentemente
do governante, do partido, dos planos econmicos, ou da ausncia dos mesmos.
Violncia, eu j vi nos quatro cantos do mundo. Lembro-me
de uma vez, no Lbano, logo a seguir  guerra devastadora, em
que eu estava a passear pelas runas de Beirute com uma amiga,
Sula Saad. Ela comentava comigo que a sua cidade j tinha sido
destruda sete vezes. Perguntei, em tom de brincadeira, porque
 que no desistiam de reconstru-la e se mudavam para outro
lugar. Porque  a nossa cidade, respondeu. Porque o homem
que no honra a terra onde esto enterrados os seus ancestrais,
ficar amaldioado para sempre.
O ser humano que no honra a sua terra, no se honra a si
prprio. Num dos clssicos mitos gregos da criao, um dos
deuses, furioso por Prometeu roubar o fogo e com isso dar independncia ao homem, envia Pandora para se casar com o seu
irmo, Epimeteu. Pandora traz consigo uma caixa, a qual estava
proibida de abrir. Contudo, tal como Eva no mito cristo, a sua
curiosidade  mais forte: levanta a tampa para ver o que  que
ela contm e, nesse momento, todos os males do mundo saem l
de dentro, espalhando-se pela Terra.
Apenas uma coisa fica l dentro: a Esperana.
Ento, apesar de tudo indicar o contrrio, apesar de toda a
minha tristeza, da minha sensao de impotncia, apesar de estar neste momento quase convencido de que nada ir melhorar,
eu no posso perder a nica coisa que me mantm vivo: a esperana - uma palavra sempre to ironizada pelos pseudo-intelectuais, que a consideram um 
sinnimo de enganar algum. Uma
palavra to manipulada pelos governos, que prometem sabendo
que no vo cumprir, e dilaceram ainda mais o corao das pessoas. Uma palavra que muitas vezes est connosco de manh, 
ferida no decorrer do dia, morre ao anoitecer, mas ressuscita
com a aurora.
Sim, existe o provrbio: Contra a fora no h argumentos.
Mas existe tambm o provrbio: Enquanto h vida, h esperana. E eu fico com ele, enquanto olho para as montanhas
nevadas na fronteira com a China.

 




Como o todo pode estar
numa parte
A msica que vinha
da capela

Reunio na casa de um pintor paulista que vive em Nova Iorque.
Conversamos sobre anjos e sobre alquimia. A dada altura, tento
explicar aos outros convidados a ideia alqumica de que cada
um de ns contm dentro de si o Universo inteiro - e  responsvel por ele.
Luto com as palavras, mas no consigo uma boa imagem; o
pintor, que est a ouvir em silncio, pede a todos que olhem
para a janela do seu estdio.
O que  que esto a ver?
Uma rua do Village - responde algum.
O pintor cola um papel no vidro, de forma que a rua j no
possa ser vista, e com um canivete faz um pequeno quadrado no
papel.
E se algum olhar por aqui, o que  que ver?
A mesma rua - diz um dos outros convidados.
O pintor faz vrios quadrados no papel.
-        Assim como cada buraquinho neste papel contm a mesma
rua, cada um de ns contm o mesmo Universo - diz ele.
E todos os presentes batem palmas pela bela imagem encontrada.
No dia do meu aniversrio, o Universo deu-me um presente
que gostaria de compartilhar com os meus leitores.
No meio de uma floresta perto da pequena cidade de Azereix,
no Sudoeste de Frana, existe uma pequena colina coberta de
rvores. Com a temperatura a rondar os 40 graus centgrados,
num Vero com quase 5000 mortos nos hospitais devido ao calor, ao olhar para os campos de milho j completamente destrudos pela seca, no temos 
muita vontade de caminhar. Mesmo assim, digo para a minha mulher:
-        Uma vez, depois de te deixar no aeroporto, resolvi passear
nessta floresta. Achei o caminho muito bonito - no queres conhecer?
Christina v uma mancha branca no meio das rvores, e pergunta o que :
-        Uma pequena ermida.
Digo que o caminho passa por l, mas na nica vez que ali
estive, ela estava fechada. Habituados como estamos ao campo
e  montanha, sabemos que Deus est em toda a parte, no 
necessrio entrar numa construo feita pelo homem para poder  encontr-Lo. Muitas vezes, durante as nossas longas caminhadas, costumamos rezar em 
silncio, a ouvir a voz da natureza, e a perceber que o mundo invisvel se manifesta sempre no
mundo visvel. Depois de meia hora de subida, a ermida aparece
no meio do bosque, e surgem as perguntas de sempre: quem 
que a construiu? Porqu? A que santo ou santa  dedicada?
E  medida que nos aproximamos, ouvimos uma msica e
uma voz que parece encher de alegria o ar ao nosso redor. Da
outra vez que estive aqui no existiam estes altifalantes, penso,
achando estranho o facto de algum pr msica para atrair visitantes num trilho raramente percorrido.
Mas ao contrrio do que aconteceu na minha caminhada anterior, a porta est aberta. Entramos, e parece que estamos noutro mundo: a capela iluminada 
pela luz da manh, uma imagem
da Imaculada Conceio no altar, trs fileiras de bancos e, num
canto, numa espcie de xtase, uma jovem de aproximadamente
vinte anos, a tocar viola e a cantar com os olhos fixos na imagem diante dela.
Eu acendo as trs velas que costumo acender quando entro
pela primeira vez numa igreja (para mim, para os meus amigos e
leitores, e para o meu trabalho). De seguida, olho para trs: a
rapariga reparou na nossa presena, sorriu e continuou a tocar
A sensao do Paraso parece, ento, descer dos cus. Como
se percebesse o que se passa no meu corao, ela combina a
msica com o silncio, fazendo de vez em quando uma prece.
E eu tenho conscincia de que estou a viver um momento
inesquecvel da minha vida - conscincia essa que muitas vezes
s conseguimos ter depois de o momento mgico j ter passado.
Estou ali por inteiro, sem passado, sem futuro, apenas a viver
aquela manh, aquela msica, aquela doura, aquela prece inesperada. Entro numa espcie de adorao, de xtase, de felicidade por estar vivo. Depois de 
muitas lgrimas e do que me parece uma eternidade, a rapariga faz uma pausa, eu e a minha mulher
levantamo-nos, agradecemos-lhe, e digo que gostaria de lhe enviar um presente por ter enchido de paz a minha alma,ela diz que vai todas as manhs 
quele lugar, e essa  a sua maneira de
rezar. Eu insisto com a histria do presente, ela hesita mas acaba
por me dar a morada de um convento.
No dia seguinte envio-lhe um dos meus livros, e pouco tempo depois recebo a sua resposta, onde comenta que saiu dali
naquele dia com a alma inundada de alegria, porque o casal que
havia entrado participara da adorao e do milagre da vida.
Na simplicidade daquela pequena capela, na voz da rapariga,
e com a luz da manh que tudo inundava, uma vez mais percebi que a
grandeza  de Deus se mostra sempre atravs das coisas simples.
Se algum dos meus leitores passar um dia pela pequena cidade
de  Azcreix e vir uma ermida no meio da floresta, v at l. Se for
de manh,, uma jovem, sozinha, estar a louvar a Criao com a
sua msica.
(  seu nome  Claudia Cavegir e a morada  Communaut
llilh  I '.une de UAurore, 63850 - Ossun, Frana. Com toda a
certeza, ela ficaria muito contente se recebesse um carto-postal.
 
 




diabi
A piscina do
>o
O morto que vestia
Pijama 
Estou a olhar para uma bela piscina natural perto do vilarejo
de Babinda, na Austrlia. Um jovem ndio aproxima-se.
-        Cuidado para no escorregar - diz ele.
O pequeno lago est cercado de rochas, mas so aparentemente seguras e  possvel caminhar por entre elas.
-        Este lugar chama-se Piscina do Diabo - continua o rapaz. -
H muitos anos atrs, Oolona, uma bela ndia casada com um
guerreiro de Babinda, apaixonou-se por outro homem. Fugiram
para estas montanhas, mas o marido conseguiu encontr-los.
O amante escapou, enquanto Oolona foi assassinada aqui, nestas guas.
Desde ento, Oolona confunde todos os homens que se aproximam com o seu amor perdido, e mata-os nos seus braos de
gua.
Mais tarde, pergunto ao dono do pequeno hotel sobre a Piscina do Diabo.
-        Pode ser superstio - comenta ele. - Mas, o facto  que-
onze turistas morreram ali nestes dez anos, e eram todos homens.
num portal de notcias da Internet: No dia 10 de Junho
de 2004, foi encontrado na cidade de Tquio um morto com
um pijama vestido.
At a tudo bem; penso que a maioria das pessoas que morrem vestidas de pijama, ou:
A) morreram a dormir, o que  uma bno;
estavam com os seus familiares, ou numa cama de hospital
a morte no chegou de repente, todos tiveram tempo de se
acostumar com a indesejada das gentes, como lhe chamava o
o brasileiro Manuel Bandeira.
A notcia continua: Quando ele faleceu, estava no seu quarto. Portanto, eliminada a hiptese do hospital, ficamos apenas
Com apossibilidade de que ele tenha morrido a dormir, sem
sequer se dar conta de que no iria ver a luz do dia
Resta uma possibilidade: assalto seguido de morte.
Quem conhece Tquio, sabe que a gigantesca cidade  um
dos lugares mais seguros do mundo. Lembro-me de uma vez
sair para comer com os meus editores antes de seguir viagem
para o interior do Japo - todas as nossas malas estavam  vista,
na parte de trs do carro. Eu disse imediatamente que era muito perigoso, com certeza algum iria passar, ver aquilo e desaparecer com as nossas roupas, 
documentos, etc. O meu editor sorriu e disse que no me preocupasse - no conhecia nenhum caso
semelhante em todos os seus anos de vida (efectivamente, nada
aconteceu com as nossas malas, embora eu tenha ficado tenso
durante todo o jantar).
Mas voltemos ao nosso morto de pijama: no havia qualquer
sinal de luta, violncia, ou algo parecido. Um oficial da Polcia
Metropolitana, em entrevista ao jornal, afirmava que quase de
certeza ele morrera de um sbito ataque cardaco. Portanto, descartamos tambm a hiptese de homicdio.
O cadver fora descoberto por empregados de uma empresa
de construo, no segundo andar de um prdio, numa zona
habitacional que estava prestes a ser demolida. Tudo nos leva a
pensar que o nosso morto de pijama, na impossibilidade de encontrar um stio para viver - num dos lugares mais densamente
povoados e mais caros do mundo -, decidira simplesmente instalar-se onde no precisava de pagar aluguer.
E ento chega a parte trgica da histria: o nosso morto era
apenas um esqueleto vestido com um pijama. Ao seu lado, havia
um jornal aberto, com a data de 20 de Fevereiro de 1984. Numa
mesa prxima, a folhinha marcava o mesmo dia.
Ou seja: estava ali h vinte anos.
E ningum dera pela sua falta.
O homem foi identificado como um ex-funcionrio da companhia que construra aquela zona habitacional, para onde se mudara no incio dos anos 80, logo 
depois de se divorciar. Tinha
pouco mais de cinquenta anos no dia em que estava a ler o jornal e, de repente, deixou este mundo.
A sua ex-mulher nunca o procurou. Foram at  empresa
onde ele trabalhava e descobriram que tinha aberto falncia logo
aps a obra ter terminado, visto no terem vendido nenhum
apartamento, e por isso no estranharam o facto de o homem
no aparecer para as suas actividades dirias. Procuraram os
amigos, que atriburam o seu desaparecimento ao facto de ter
pedido algum dinheiro emprestado, no sabendo como pagar a
dvida.
A notcia acaba dizendo que os restos mortais foram entregues  ex-mulher. Eu acabei de ler o artigo e fiquei a pensar
nessa ltima frase: A ex-mulher ainda estava viva e, mesmo
assim, durante vinte anos, nunca tinha procurado o marido.
O que  que deve ter passado pela sua cabea? Que ele j no a
amava mais, que tinha decidido afast-la para sempre da sua
vida. Que havia encontrado outra mulher, e desaparecido sem
deixar vestgios. Que a vida  assim mesmo, uma vez terminados os trmites do divrcio, no faz sentido nenhum continuar
uma relao que j foi legalmente terminada. Imagino o que
deve ter sentido ao saber o destino do homem com quem compartilhara grande parte da sua vida.
Em seguida, pensei no morto de pijama, na sua solido completa, abissal, a ponto de ningum neste mundo se ter apercebido, por vinte longos anos, que 
ele simplesmente desaparecera
sem deixar rasto. E concluo que pior do que sentir fome, do que
sentir sede, do que estar desempregado, a sofrer por amor, desesperado devido a uma derrota - pior que tudo isto  sentir que
ningum, absolutamente ningum neste mundo, se interessa por
ns.
Faamos, neste momento, uma prece silenciosa por este honem, e agradeamos-lhe por nos fazer reflectir sobre a importncia dos nossos amigos.

A brasa solitria
-        Boa noite - disse o pastor, levantando-se para sair.
-        Boa noite e muito obrigado - respondeu Juan. - A brasa
longe do fogo, por mais brilhante que seja, acabar por se extinguir rapidamente.
O homem longe dos seus semelhantes, por mais inteligente
que seja, no conseguir conservar o seu calor e a sua chama.
Voltarei  igreja no prximo domingo.
Juan ia sempre aos servios dominicais da sua congregao. Mas
comeou a achar que o pastor dizia sempre as mesmas coisas, e
parou de frequentar a igreja.
Dois meses depois, numa noite fria de Inverno, o pastor foi
visit-lo.
Deve ter vindo para me tentar convencer a voltar, pensou
Juan para si prprio. Imaginou que no podia dizer a verdadeira
razo: os sermes repetitivos. Precisava de encontrar uma desculpa e, enquanto pensava, colocou duas cadeiras diante da lareira
e comeou a falar sobre o tempo.
O pastor no disse nada. Juan, depois de, inutilmente, tentar
puxar conversa durante algum tempo, calou-se tambm. Os dois
ficaram em silncio, a contemplar o fogo durante quase meia
hora.
Foi ento que o pastor se levantou e, com a ajuda de um
galho que ainda no se tinha queimado, afastou uma brasa,
posicionando-a longe do fogo.
A brasa, como no tinha calor suficiente para continuar a
queimar, comeou a apagar-se. Juan, muito rapidamente, atirou-a de volta para o centro da lareira.
        
Manuel  um homem
importante e necessrio
Manuel precisa de estar ocupado. Caso contrrio, acha que a
sua vida no tem sentido, est a perder o seu tempo, a sociedade
no precisa dele, ningum o ama, ningum o quer.
Portanto, assim que acorda, tem uma srie de tarefas: ver o
noticirio na televiso (pode ter acontecido alguma coisa durante a noite), ler o jornal (pode ter acontecido alguma coisa
durante o dia de ontem), pedir  mulher que no deixe que as
crianas se atrasem para a escola, pegar no carro, apanhar um
txi, um autocarro, o metro, mas sempre concentrado, a olhar
para o vazio, a olhar para o relgio, se possvel a fazer alguns
telefonemas do seu telemvel - para que todos vejam que  um
homem importante, til ao mundo.
Manuel chega ao trabalho, debrua-se sobre a papelada que
o espera. Se for um funcionrio, faz o possvel para que o chefe
veja que chegou a horas. Se for patro, pe todos a trabalhar
imediatamente; caso no existam tarefas importantes, Manuel
ir desenvolv-las, cri-las, implementar um novo plano, estabelecer novas linhas de aco.
Manuel vai almoar - mas nunca sozinho. Se for patro, senta-se com os amigos, discute novas estratgias, fala mal dos concorrentes, tem sempre uma 
carta escondida na manga, queixa-se
(com um certo orgulho) da sobrecarga de trabalho. Se Manuel
for funcionrio, tambm se senta com os amigos, queixa-se do
chefe, diz que est a fazer muitas horas extraordinrias, afirma
com desespero (e com muito orgulho) que vrias coisas na empresa dependem dele.
Manuel - patro ou empregado - trabalha a tarde inteira.
De vez em quando, olha para o relgio, est a chegar a hora
de voltar para casa, mas falta resolver um pormenor aqui,
assinar um documento ali.  um homem honesto, quer fazer
jus ao seu salrio, s expectativas dos outros, aos sonhos dos
seus pais, que tanto se esforaram para lhe dar a educao
necessria.
Finalmente, volta para casa. Toma banho, veste uma roupa
mais confortvel, vai jantar com a famlia. Pergunta pelos trabalhos de casa dos filhos, pelas actividades da mulher. De vez em
quando, fala do seu trabalho, apenas para servir de exemplo -
porque no costuma trazer preocupaes para casa. O jantar
acaba, os filhos - que no esto minimamente interessados em
exemplos, trabalhos de casa e coisas do gnero - saem logo da
mesa e vo para a frente do computador. Manuel, por sua vez,
tambm se vai sentar diante daquele velho aparelho da sua infncia, chamado televiso. V novamente os noticirios (pode ter acontecido alguma coisa 
durante a tarde).
Vai deitar-se sempre com um livro tcnico ao lado, na mesinha-
de cabeceira - sendo patro ou empregado, sabe que a concorrncia  grande e quem no se actualiza, corre o risco de perder
>> emprego e de ter que enfrentar a pior das maldies: ficar
desocupado.
Conversa um bocado com a sua mulher - afinal,  um homem gentil, trabalhador, amoroso, que cuida da sua famlia e pronto para a defender em qualquer 
circunstncia. O sono
chega depressa, Manuel dorme, sabe que no dia a seguir estar
muito ocupado, e  preciso recuperar as energias.
        
Naquela noite, Manuel tem um sonho. Um anjo pergunta-
-lhe: Porque  que tu fazes isto? Ele responde que  um homem responsvel.
O anjo continua: Tu serias capaz de, pelo menos durante
quinze minutos do teu dia, parar um bocado, olhar para o mundo, olhar para ti prprio e, simplesmente, no fazeres nada?
Manuel diz que adoraria, mas no tem tempo para isso. Ests a
enganar-me, diz o anjo. Toda a gente tem tempo para isso, o
que falta  coragem para faz-lo. Trabalhar  uma bno quando isso nos ajuda a pensar no que estamos a fazer. Mas torna-se
uma maldio quando a sua nica utilidade  evitar que pensemos no sentido da nossa vida.
Manuel acorda a meio da noite com suores frios. Coragem?
Como  que um homem que se sacrifica pelos seus no tem
coragem para parar quinze minutos?
 melhor voltar a dormir, no passa tudo de um sonho, estas
perguntas no o levam a nada, e amanh vai estar muito, muito
ocupado.
 
Manuel
 um homem livre
Manuel trabalha h trinta anos sem parar, educa os seus filhos, d o bom exemplo, dedica todo o seu tempo ao trabalho, e
nunca se perguntou: Ser que tem sentido o que estou a fazer?
A sua nica preocupao  achar que, quanto mais ocupado estiver, mais importante ser aos olhos da sociedade.
Os seus filhos crescem e saem de casa;  promovido no trabalho; no dia em que recebe um relgio ou uma caneta como recompensa por todos esses anos 
de dedicao, os amigos vertem algumas lgrimas; e eis que chega o momento to esperado: est
livre para fazer o que quiser!
Nos primeiros meses, visita uma vez por outra o escritrio
omde trabalhou, conversa com os antigos amigos, e d-se ao luxo
.de fazer algo que sempre sonhou: acordar mais tarde. Passeia
pela praia ou pela cidade, tem a sua casa de campo, comprada
com muito suor, descobre a jardinagem, e vai aos poucos penetrando no mistrio das plantas e das flores. Manuel tem tempo,
todo o tempo do mundo. Viaja, gastando parte do dinheiro que conseguiu juntar. Visita museus, aprende em duas horas o que pinmtores e escultores de 
diferentes pocas levaram sculos para descrever, mas pelo menos fica com a sensao de que est a
aumentar a sua cultura. Tira centenas, milhares de fotografias, e
        envia para os amigos - afinal, eles precisam de saber como ele 
feliz!
Passam-se vrios meses. Manuel aprende que o jardim no
segue exactamente as mesmas regras do homem - o que plantou
vai demorar a crescer, e no adianta tentar ver se a roseira j
tem botes. Num momento de sincera reflexo, descobre que
tudo o que viu nas suas viagens foi uma paisagem do lado de
fora do autocarro turstico, numentos que agora esto guardados em fotos 6x9, mas, na verdade, no conseguiu sentir nenhuma emoo especial - estava 
mais preocupado em contar aos
amigos do que em viver a experincia mgica de estar num pas
estrangeiro.
Continua a ver todos os noticirios da televiso, l mais jornais (porque tem mais tempo), julga-se uma pessoa extremamente bem informada, capaz de 
discutir coisas que antes no
tinha tempo para estudar.
Procura algum para partilhar as suas opinies - mas esto
todos imersos no rio da vida, a trabalhar, a fazer alguma coisa, a
invejar Manuel pela sua liberdade e, ao mesmo tempo, contentes por serem teis  sociedade e estarem ocupados com alguma coisa importante.
Manuel procura conforto nos filhos. Eles tratam-no sempre com
muito carinho - foi um excelente pai, um exemplo de honestidade
e dedicao -, mas tambm eles tm outras preocupaes, embora
considerem um dever estar presentes no almoo de domingo.
Manuel  um homem livre, com uma situao financeira estvel, bem informado, um passado impecvel, mas e agora?
O que fazer desta liberdade to arduamente conquistada? Todos
o cumprimentam, o elogiam, mas ningum tem tempo para ele.
Pouco a pouco, Manuel comea a sentir-se triste, intil - apesar
dos muitos anos que serviu o mundo e a sua famlia.
Uma noite, um anjo aparece no seu sonho: O que  que tu
fizeste da tua vida? Tentaste viv-la de acordo com os teus sonhos? >
Manuel acorda com suores frios. Que sonhos? Os seus sonhos eram estes: ter um diploma, casar, ter filhos, educ-los,
reformar-se, viajar. Porque  que o anjo est a perguntar coisas
sem sentido?
Um novo e longo dia comea. Os jornais. O noticirio na TV.
O jardim. O almoo. Dormir um bocado. Fazer o que lhe apetece - e, nesse momento, descobre que no lhe apetece fazer nada.
Manuel  um homem livre e triste, a um passo da depresso,
porque esteve ocupado de mais para pensar no sentido da sua
vida, enquanto os anos corriam debaixo da ponte. Lembra-se
dos versos de um poeta: Passou pela vida/no viveu.
Mas como  tarde de mais para aceitar isso, o melhor  mudar de assunto. A liberdade, to dificilmente conseguida, no
passa de um exlio disfarado.
Manuel vai ao
Paraso
Finalmente, Manuel reforma-se. Desfruta da liberdade de no
ter horas para acordar, e de poder usar o seu tempo para fazer o
que quiser. Mas rapidamente cai em depresso: sente-se intil,
afastado da sociedade que ajudou a construir, abandonado pelos filhos que cresceram, incapaz de entender o sentido da vida
- j que nunca se preocupou em responder  famosa pergunta:
O que  que estou a fazer aqui?
Bem, o nosso querido, honesto, dedicado Manuel acaba por
morrer um dia - o que vai acontecer com todos os Manuis,
Paulos, Marias, Mnicas desta vida. E, por isso, eu deixo aqui a
palavra de Henry Drummond, no seu brilhante livro O Dom
Supremo, para descrever o que se passa da por diante:
Todos ns, em algum momento, j fizemos a mesma pergunta
que todas as geraes fizeram:
Qual  a coisa mais importante da nossa existncia?
Queremos empregar os nossos dias da melhor maneira, pois
mais ningum pode viver por ns. Ento, precisamos de saber:
para onde devemos dirigir os nossos esforos, qual o supremo
objectivo a ser alcanado?
Estamos acostumados a ouvir que o tesouro mais importante
do mundo espiritual  a F. Nesta simples palavra se apoiam
muitos sculos de religio.
Consideramos a F a coisa mais importante do mundo? Pois
bem, estamos completamente errados.
Na sua epstola aos Corntios, captulo XIII, (So) Paulo conduz-nos aos primeiros tempos do Cristianismo. E termina, dizendo: "Permanecem a F, a 
Esperana, e o Amor, estes trs.
Porm, o mais importante  o Amor."
No se trata de uma opinio superficial de (So) Paulo, autor
destas frases. Afinal de contas, ele estava a falar de F um momento antes, na mesma carta. Ele dizia:
"Ainda que eu tenha tamanha F, a ponto de mover montanhas, se no tiver Amor, nada serei."
Paulo no fugiu do assunto; pelo contrrio, comparou a F
com o Amor. E concluiu:
"(...) o maior destes  o Amor."
Mateus d-nos uma descrio clssica do Juzo Final: o Filho
Um homem senta-se num trono e separa, como um pastor, os
cabritos das ovelhas.
Nesse momento, a grande pergunta do ser humano no ser:
como que eu vivi?"
Ser, isso sim: "Como  que eu amei?"
() teste final de todas as buscas da Salvao ser o Amor. No
tendo levado em conta o que fizemos, no que acreditamos, o que
.conseguimos.
Nada disso nos ser cobrado. O que nos ser cobrado  a
maneira de amar o prximo. Os erros que cometemos
nem sequer sero lembrados. Seremos julgados pelo bem que
Acabmos de fazer. Pois manter o Amor trancado dentro de ns
Ao esprito de Deus,  a prova de que nunca O conhecemos e que Ele nos amou em vo, de que o Seu Filho morreu em vo.
 Nesse caso, o nosso Manuel  salvo no momento da sua morte,
porque apesar de nunca ter dado um sentido  sua vida, foi capaz de amar, de prover a sua famlia e de ter dignidade naquilo
que fazia. Contudo, mesmo que o final seja feliz, o resto dos
seus dias na Terra foram muito complicados.
Repetindo uma frase que ouvi de Shimon Peres, no Frum
Mundial de Davos: Tanto o optimista como o pessimista acabam por morrer. Mas os dois aproveitaram a vida de maneiras
completamente diferentes.


Uma conferncia
em Melbourne
Vai ser a minha participao mais importante no Festival de
Escritores. So dez da manh, a plateia est cheia. Serei entrevistado por um escritor local, John Felton.
Piso o palco com a apreenso de sempre. Felton apresenta-
-ne e comea a fazer-me perguntas. Antes que eu possa concluir
um raciocnio, ele interrompe-me e faz-me uma nova pergunta.
Quando respondo, comenta algo como: Essa resposta no foi
bem clara. Cinco minutos depois, nota-se um mal-estar na
plateia - todos esto a perceber que h algo de errado. Lembro-
-ne de Confcio, e fao a nica coisa possvel:
-        Voc gosta do que eu escrevo? - pergunto.
Isso no vem ao caso - responde. - Sou eu a entrevist-lo, e
no o contrrio.
Vem ao caso, sim. Voc no me deixa concluir uma ideia.
(lonfcio disse: Sempre que possvel, seja claro. Vamos seguir
este conselho e deixar as coisas claras: gosta do que eu escrevo?

No, no gosto. S li dois livros, e detestei.
OK, ento podemos continuar.
Os campos tinham ficado definidos. A plateia descontrai, a
conversa enche-se de electricidade, a entrevista transforma-se
num verdadeiro debate, e todos - inclusive Felton - ficam satisfeitos com o resultado.
 
O pianista no centro
comercial
Vou a andar, distrado, por um centro comercial, acompanhado
de uma amiga violinista. rsula, nascida na Hungria,  actualmente uma figura de destaque em duas filarmnicas internacionais. De repente, ela pega no 
meu brao:
-        Oua!
Ouo. Escuto vozes de adultos, gritos de crianas, rudos de
televises ligadas em lojas de electrodomsticos, saltos de sapatos a bater contra o cho de ladrilhos, e aquela famosa msica,
omnipresente em todos os centros comerciais do mundo.
-        Ento, no  maravilhoso?
Respondo que no escutei nada de maravilhoso ou fora do
normal.
-        O piano! - diz ela, olhando-me decepcionada. - O pianista
 maravilhoso!
Deve ser uma gravao.
No diga disparates.
Ouvindo com mais ateno,  bvio que a msica  ao vivo.
Est a tocar uma sonata de Chopin naquele momento e, agora
que me consigo concentrar, as notas parecem ocultar por completo o barulho que nos cerca. Andamos pelos corredores cheios de
gente, de lojas, de ofertas, de coisas que, segundo anunciam,
toda a gente tem - menos eu ou voc. Chegamos  praa da
restaurao: pessoas a comer, a conversar, a discutir, a ler jornais, e uma dessas atraces que todos os centros comerciais
procuram dar aos seus clientes.
Neste caso, um piano e um pianista.
Toca mais duas sonatas de Chopin, e logo a seguir Schubert,
Mozart. Deve ter cerca de trinta anos; uma placa colocada ao
lado do pequeno palco explica que  um famoso msico da
Cergia, uma das ex-repblicas soviticas. Deve ter procurado
trabalho, as portas fecharam-se, desesperou-se, resignou-se, e
agora est ali.
Mas no tenho a certeza se est mesmo ali: os seus olhos fitam o
segundo mgico onde estas msicas foram compostas, as suas mos
partilham com todos o amor, a alma, o entusiasmo, o melhor de si
prprio, os seus anos de estudo, de concentrao, de disciplina.
A nica coisa que parece no ter percebido  que ningum,
absolutamente ningum, foi ali para o ouvir, mas foram para
comprar, comer, distrair-se, ver montras, encontrar amigos. Um casal pra ao nosso lado, a conversar em voz alta, e de imediato prossegue a marcha. O 
pianista no viu isto - ainda est a conversar com os anjos de Mozart. To-pouco viu que existe uma
plateia de duas pessoas, uma das quais, uma talentosa violinista,
que est com lgrimas nos olhos.
Lemnbro-me de uma capela onde entrei uma vez por acaso e
vi uma rapariga a tocar para Deus; mas estava numa capela,
aquilo fazia sentido. Neste caso, ningum est a ouvir, possivelmente nem sequer Deus.
Mentira. Deus est a ouvir. Deus est na alma e nas mos
deste homem, porque ele est a dar o melhor de si prprio,
independentemente de qualquer reconhecimento, ou do dinheiro que  recebeu. Toca como se estivesse no Scala de Milo ou na
Olympia de Paris, toca porque esse  o seu destino, a sua alegria, a
alegria de viver.
Sou tomado por uma sensao de profunda reverncia. Respeito por um homem que naquele momento est a relembrar-
-me de uma lio importantssima: tu tens uma lenda pessoal
para cumprir, e ponto final. No importa se os outros apoiam,
criticam, ignoram, toleram - tu ests a fazer isso porque  o teu
destino nesta terra, s a fonte de qualquer alegria.
O pianista acaba outra pea de Mozart, e pela primeira vez
nota a nossa presena. Cumprimenta-nos com um educado e
discreto aceno de cabea, fazemos o mesmo. Mas de imediato
regressa ao seu paraso, e  melhor deix-lo ali, sem ser tocado
por nada neste mundo, nem sequer pelos nossos tmidos aplausos. Est a servir de exemplo para todos ns. Quando acharmos
que ningum presta ateno ao que fazemos, pensemos neste
pianista: ele estava a conversar com Deus atravs do seu trabalho, e o resto no tinha a menor importncia.
 
Rumo  feira do livro
de Chicago
.Cai estava a ir de Nova Iorque para Chicago, rumo  feira do
livro da American Booksellers Association. De repente, um rapaz fica de p no corredor do avio:
-        Preciso de doze voluntrios - disse. - Cada um vai agarrar
numa rosa, quando aterrarmos.
Vrias pessoas levantaram a mo. Eu tambm levantei, mas
no fui escolhido.
Mesmo assim, resolvi acompanhar o grupo. Descemos, o
rapaz apontou para uma rapariga no trio do aeroporto de
(VHare. Um a um, os passageiros foram-lhe entregando as rosas. No final, o rapaz pediu-a em casamento  frente de todos -
e ela aceitou.
Um comissrio de bordo comentou comigo:
-        Desde que aqui trabalho, foi a coisa mais romntica que
aconteceu neste aeroporto.
 

Dos bastes e das regras 
No Outono de 2003, estava a passear a meio da noite pelo
centro de Estocolmo, quando vi uma senhora a caminhar com
bastes de esqui. A minha primeira reaco foi atribuir aquilo a
alguma leso que tivesse sofrido, mas notei que ela andava depressa, com movimentos ritmados, como se estivesse em plena
neve - s que tudo o que havia  nossa volta era o asfalto das
ruas. A concluso bvia foi: Esta senhora  doida, como  que
pode fingir que est a esquiar numa cidade?
De volta ao hotel, comentei o facto com o meu editor. Ele
disse-me que doido era eu: o que eu tinha visto era um tipo de
exerccio conhecido como caminhada nrdica (nordic walking).
Segundo ele, alm dos movimentos das pernas, os braos, os
ombros e os msculos das costas so utilizados, permitindo um
exerccio muito mais completo.
A minha inteno ao caminhar (que, juntamente com o tiro
com arco e flecha,  o meu passatempo favorito)  poder reflectir,
pensar, olhar para as maravilhas ao meu redor, conversar com a
minha mulher enquanto passeamos. Achei interessante o comentrio do meu editor, mas no dei mais ateno ao facto.
Um dia, estava numa loja de desporto para comprar material
para as flechas, quando reparei em novos bastes usados por
montanhistas - leves, em alumnio, que podem ser abertos ou
fechados, e com o sistema telescpico de um trip fotogrfico.
Lembrei-me da tal caminhada nrdica: porque no experimentar? Comprei dois pares, um para mim e outro para a minha
mulher. Regulmos os bastes para uma altura confortvel, e no
dia seguinte resolvemos utiliz-los.
Foi uma descoberta fantstica! Subimos e descemos uma
montanha, sentindo, na verdade, que todo o corpo se movimentava, o equilbrio era melhor, o cansao era menor. Andmos o
dobro da distncia que costumamos percorrer numa hora. Lembrei-me de que uma vez tentara explorar um riacho seco, mas
como as dificuldades com as pedras do seu leito foram to grandes, desisti da ideia. Achei que com os bastes seria muito mais
fcil; e tinha razo.
A minha mulher entrou na Internet, e descobriu que assim se
queimava mais 46 por cento de calorias do que numa caminhada normal. Ficou entusiasmadssima, e a caminhada nrdica
passou a fazer parte do nosso quotidiano.
Uma tarde, para me distrair, resolvi tambm entrar na Internet
e ver o que tinham sobre o assunto. Apanhei um susto: eram
pginas e mais pginas, federaes, grupos, discusses, modelos, e... regras.
No sei o que me empurrou para abrir uma pgina sobre as
regras. Enquanto lia, ia ficando horrorizado: eu andava a fazer
tudo mal! Os meus bastes deviam estar regulados numa altura
maior, tinham de obedecer a um determinado ritmo, a um determinado ngulo de apoio, o movimento do ombro era complicado, existia uma maneira 
diferente de usar o cotovelo, tudo seguia preceitos rgidos, tcnicos, exactos.
Imprimi as pginas todas. No dia seguinte - e nos que se
seguiram - tentei fazer exactamente aquilo que os especialistas
mandavam. A caminhada comeou a perder o interesse, eu j
nem via as maravilhas  minha volta, pouco conversava com a
minha mulher, no conseguia pensar em nada alm das regras.
Ao fim de uma semana, fiz-me uma pergunta: porque  que estou a aprender tudo isto?
O meu objectivo no  fazer ginstica. No creio que as pessoas que, no incio, faziam a sua caminhada nrdica tivessem
pensado em alguma coisa alm do prazer de andar, aumentar o
equilbrio e movimentar o corpo inteiro. Intuitivamente sabamos qual era a altura ideal do basto, como tambm intuitivamente podamos deduzir que quanto 
mais perto eles estivessem
do corpo, melhor e mais fcil seria o movimento. Mas agora,
por causa das regras, eu tinha deixado de me concentrar nas
coisas de que gosto, e estava mais preocupado em perder calorias,
trabalhar os msculos, usar uma determinada parte da coluna.
Decidi esquecer tudo o que tinha aprendido. Hoje em dia
caminhamos com os nossos dois bastes, desfrutando do mundo em redor, sentindo a alegria de puxar pelo corpo, de o ver
ser movido, equilibrado. E se eu quiser fazer ginstica em vez de
uma meditao em movimento, procurarei um ginsio. Neste
momento, estou satisfeito com a minha caminhada nrdica
descontrada, instintiva, mesmo que no esteja a perder 46 por
cento de calorias a mais.
No sei porque  que o ser humano tem esta mania de impor
regras a tudo.
 

U pao que caiu com o
lado errado
nossa tendncia  para acreditar na famosa lei de Murphy:
indo o que fazemos tende sempre a dar errado. Jean Claude
(larrire conta uma histria interessante a este respeito:
Um homem tomava despreocupadamente o seu pequeno-
.alnoo. De repente, o po onde acabara de pr manteiga caiu
ao cho.
Qual no foi a sua surpresa quando, ao olhar para baixo, viu
que a parte onde tinha posto a manteiga estava virada para cima!
O homem achou que tinha presenciado um milagre; animado, foi
conversar com os seus amigos sobre o que tinha acontecido, e todos ficaram surpreendidos, porque o po, quando cai no cho, fica
sempre com a parte da manteiga virada para baixo, a sujar tudo.
Talvez sejas um santo - disse um. - E ests a receber um
milagre de Deus.
A histria correu logo pela pequena aldeia, e todos se puseram a discutir  animadamente o que acontecera: como  que,
contrariando tudo o que se dizia, o po daquele homem tinha
cado no cho daquela maneira? Como ningum conseguia encontrar uma resposta  adequada, foram procurar um Mestre que
vivia nas redondezas, e contaram-lhe a histria.
 
De livros e bibliotecas
O Mestre pediu-lhes uma noite para rezar, reflectir, pedir
inspirao divina. No dia seguinte, foram todos ter com ele,
ansiosos por uma resposta.
- A soluo  muito simples - disse o Mestre. - Na verdade,
o po caiu no cho exactamente como devia cair; a manteiga 
que tinha sido posta do lado errado.

Na verdade, no tenho muitos livros: h alguns anos, fiz certas
escolhas na vida, guiado pela ideia de procurar ter o mximo de
qualidade, com o mnimo de coisas. No quer dizer que tenha
optado por uma vida monstica; muito pelo contrrio, quando
no somos obrigados a possuir uma infinidade de objectos, temos uma liberdade imensa. Alguns dos meus amigos (e amigas)
reclamam que, por causa do excesso de roupas, perdem horas
das suas vidas a tentar escolher o que vestir. Como resumi o
meu guarda-roupa a um preto bsico, no preciso de enfrentar este problema.
Mas no estou aqui para falar de moda, e sim de livros. Para
voltar ao essencial, decidi manter apenas quatrocentos livros
na minha biblioteca - alguns por razes sentimentais, outros
porque estou sempre a rel-los. Tal deciso foi tomada por
vrios motivos, e um deles  a tristeza de ver como bibliotecas
preenchidas cuidadosamente ao longo da vida, so depois vendidas a peso, sem qualquer respeito. Outra razo: porque manter todos estes volumes em 
casa? Para mostrar aos amigos que
sou culto? Para enfeitar a parede? Os livros que comprei sero
infinitamente mais teis numa biblioteca pblica que em minha casa.
Antigamente, poderia dizer: preciso deles porque vou
consult-los. Mas hoje em dia, quando tenho necessidade de
uma informao, ligo o computador, digito uma palavra-chave,
e diante de mim aparece tudo o que preciso. Ali est a Internet,
a maior biblioteca do planeta.
 claro que continuo a comprar livros - no existe meio
electrnico que os consiga substituir. Mas assim que acabo um,
deixo que ele viaje, dou-o a algum, ou entrego-o a uma biblioteca pblica. A minha inteno no  salvar florestas ou ser generoso: apenas creio que um 
livro tem um percurso prprio, e
no pode ser condenado a ficar imvel numa estante.
Sendo escritor, e vivendo de direitos autorais, posso estar a
advogar contra mim prprio - afinal, quanto mais livros comprarem, mais dinheiro ganho. Contudo, seria injusto para o leitor,
principalmente em pases onde no faz parte da maioria dos
programas governamentais de compras para bibliotecas o critrio bsico de uma escolha sria: o prazer da leitura aliado  qualidade do texto.
Deixemos pois os nossos livros viajarem, serem tocados por
outras mos e desfrutados por olhos alheios. No momento em que
escrevo esta crnica, lembro-me vagamente de um poema de Jorge
Luis Borges que fala dos livros que nunca voltaro a ser abertos.
Onde estou agora? Numa pequena cidade dos Pirenus, na
Frana, sentado num caf, a aproveitar o ar condicionado j que
a temperatura l fora est insuportvel. Por acaso, tenho a coleco completa de Borges em minha casa, a alguns quilmetros
do local onde escrevo -  um escritor que estou constantemente
a reler. Mas porque no fazer o teste?
Atravesso a rua. Caminho cinco minutos at outro caf, equipado com computadores (um tipo de estabelecimento conhecido pelo simptico e contraditrio 
nome de cyber-caf). Cumprimento o dono, peo uma gua mineral muito gelada, abro uma
pgina de um motor de busca e digito algumas palavras de um
nico verso que me lembro, juntamente com o nome do autor.
Menos de dois minutos depois estou com a poesia completa diante de mim:
H uma linha de Verlaine de que nunca mais me lembrarei.
H um espelho que j me viu pela ltima vez.
H uma porta fechada at ao final dos tempos.
Entre os livros da minha biblioteca
H algum que j no tornarei a abrir.
Na verdade, muitos dos livros que doei eu tenho a impresso
de que nunca os voltaria a abrir - porque  sempre publicado
algo novo, interessante, e eu adoro ler. Acho ptimo que as pessoas tenham bibliotecas; geralmente o primeiro contacto das
crianas com livros d-se atravs da curiosidade por aqueles
volumes encadernados, com figuras e letras. Mas tambm acho
ptimo quando, numa tarde de autgrafos, encontro leitores
com exemplares muito usados, que foram emprestados dezenas
de vezes: isso significa que aquele livro viajou como a mente do
seu autor viajava, enquanto o escrevia.
 
 Praga, 1981
Para uma mulher que
 todas as mulheres
Uma vez, no Inverno de 1981, caminhava eu com a minha
mulher pelas ruas de Praga, quando vimos um rapaz a desenhar
os prdios  sua volta.
Embora eu tenha verdadeiro horror de andar com muita coisa atrs enquanto viajo (e ainda havia muito caminho pela frente), gostei de um dos desenhos e 
resolvi compr-lo.
Quando estendi o dinheiro, reparei que o rapaz estava sem
luvas - apesar do frio de 5 graus negativos.
Porque  que no usa luvas?, perguntei.
Para poder segurar no lpis. E comeou a contar-me que
adorava Praga no Inverno, era a melhor estao para desenhar a
cidade. Ficou to contente com a compra, que resolveu fazer
um retrato da minha mulher, sem cobrar nada.
Enquanto eu esperava que o desenho ficasse pronto, apercebi-me de que algo muito estranho acontecera: tnhamos conversado quase cinco minutos, sem 
que um soubesse falar a lngua do
outro. Entendemo-nos apenas por gestos, risos, expresses faciais, e vontade de compartilhar alguma coisa.
A simples vontade de dividir algo fez com que consegussemos
entrar no mundo da linguagem sem palavras, onde tudo  sempre
claro, e no existe sequer o risco de se ser mal interpretado.


Uma semana depois de terminada a feira do livro de Frankfurt
de 2003, recebo um telefonema do meu editor da Noruega: os
organizadores do concerto a ser realizado para homenagear o
prmio Nobel da Paz, a iraniana Shirin Ebadi, solicitam que eu
escreva um texto para o evento.
 uma honra que eu no devo recusar, j que Shirin Ebadi 
um mito: uma mulher de 1,50m de altura, mas com estatura
suficiente para fazer com que a sua voz em defesa dos direitos
do homem seja ouvida nos quatro cantos do mundo. Ao mesmo
tempo,  uma responsabilidade que me deixa um bocado apreensivo - o evento vai ser transmitido em cento e dez pases, e eu
tenho apenas dois minutos para falar sobre algum que dedicou
a vida inteira ao prximo. Caminho pelas florestas, ao lado do
moinho onde vivo quando estou na Europa, penso vrias vezes
em telefonar a dizer que estou sem inspirao. Contudo, o mais interessante na vida so os desafios que enfrentamos, e acabo
por aceitar o convite.
Viajo para Oslo a 9 de Dezembro, e no dia seguinte - um
lindo dia de sol - estou na plateia da cerimnia de entrega do
prmio. As amplas janelas da Cmara Municipal permitem ver o
porto onde mais ou menos na mesma altura do ano, h vinte e
um anos, eu estava sentado com a minha mulher, a olhar para o
mar gelado, a comer camares que tinham acabado de chegar
nos navios pesqueiros. Penso no longo percurso que me levou
daquele porto at aquela sala, mas as lembranas do passado so
interrompidas pelo soar de trombetas, a entrada da rainha e da
famlia real. O comit organizador entrega o prmio, Shirin Ebadi
faz um veemente discurso denunciando o uso do terror como
justificao para a criao de um estado policial no mundo.
A noite, no concerto de homenagem ao premiado, Catherine
Zetha-Jones anuncia o meu texto. Nesse momento, primo um
boto do meu telemvel, o telefone soa no velho moinho (tudo
j previamente combinado), e a minha mulher passa a estar ali
comigo, a ouvir a voz de Michael Douglas enquanto ele l as
minhas palavras.
Segue o texto que escrevi - e que penso aplicar-se a todos
aqueles que lutam por um mundo melhor:
Disse o poeta Rumi: "A vida  como se um rei enviasse algum a um pas para realizar determinada tarefa. Essa pessoa
vai e faz uma centena de coisas - mas se no tiver feito aquilo
que lhe foi pedido,  como se no tivesse feito absolutamente
nada."
Para a mulher que percebeu a sua tarefa.
Para a mulher
que olhou para a estrada diante dos seus olhos, e percebeu
que a sua caminhada ia ser muito difcil.
Para a mulher
que no procurou minimizar estas dificuldades: pelo contrrio, denunciou-as e fez com que fossem visveis.
Para a mulher
que deixou menos solitrios os que esto ss, que alimentou
os que tinham fome e sede de justia, que fez o opressor sentir-
-se to mal como o oprimido.
Para a mulher
que mantm sempre as suas portas abertas, as suas mos a
trabalhar, os seus ps em movimento.
Para a mulher que personifica os versos de outro poeta persa,
Hafez, quando diz: "Nem mesmo sete mil anos de alegria podem justificar sete dias de represso."
Para a mulher que est aqui esta noite:
que ela seja cada um de ns,
que o seu exemplo se multiplique
que ela tenha ainda muitos dias difceis pela frente, de modo
que possa completar o seu trabalho. Assim, para as prximas
geraes, o significado de injustia ser encontrado apenas nas
definies dos dicionrios, e nunca na vida dos seres humanos.
Que a sua caminhada seja lenta,
Porque o seu ritmo  o ritmo da mudana
E a mudana, a verdadeira mudana, demora sempre muito
tempo para acontecer.
        
  O meu funeral
Algum chega
de Marrocos
Algum chega de Marrocos e conta-me uma curiosa histria
sobre como certas tribos do deserto vem o pecado original.
Eva passeava pelo Jardim do den, quando a serpente se aproximou.
Come esta ma, disse a serpente.
Eva, muito bem instruda por Deus, recusou.
Come esta ma, insistiu a serpente, porque vais precisar
de ficar mais bela para o teu homem.
No preciso, respondeu Eva. Porque ele no tem outra
mulher alm de mim.
A serpente sorriu: Claro que tem.
E como Eva no acreditava, levou-a at ao alto de uma colina,
onde existia um poo.
Ela est dentro desta caverna; Ado escondeu-a ali.
Eva debruou-se e viu, reflectida na gua do poo, uma linda
mulher. Nesse momento, comeu a ma que a serpente lhe estava a oferecer.
Segundo esta mesma tribo de Marrocos, volta ao Paraso todo
aquele que se reconhece no reflexo do poo, e j no se teme a si
prprio.
Um jornalista do Mail on Sunday aparece no hotel em Londres
com uma simples pergunta: se eu morresse hoje, como seria o
meu funeral?
Na verdade, a ideia da morte acompanha-me todos os dias
desde 1986, quando fiz o Caminho de Santiago. At quele
momento, a ideia de que tudo podia acabar um dia era assustadora - mas numa das etapas da peregrinao, fiz um exerccio
que consistia em experimentar a sensao de ser enterrado vivo.
<) exerccio foi to intenso que me fez perder por completo o
medo, e passar a encarar a morte como uma grande companheira
de jornada, que est sempre sentada ao meu lado, a dizer: Eu
vou tocar-te, e tu no sabes quando - portanto, no deixes de
viver da maneira mais intensa possvel.
Por causa disso, eu nunca deixo para amanh o que posso
viver hoje - e isso inclui as alegrias, as obrigaes para com o
meu trabalho, os pedidos de perdo quando sinto que feri algum, a contemplao do momento presente como se fosse o
ltimo. Consigo lembrar-me das muitas vezes que senti o perfume da morte: no longnquo dia de 1974, no Aterro do Flamengo
(Rio de Janeiro), quando o txi onde estava foi bloqueado por
um autocarro, e um grupo de paramilitares saltou com armas na
mo, colocando-me um capuz na cabea e, embora garantissem
que nada me ia acontecer, eu tive a certeza de que seria mais um
dos desaparecidos do regime militar.
Ou quando, em Agosto de 1989, me perdi numa escalada
dos Pirenus: olhei para os picos sem neve e sem vegetao,
achei que no teria foras para voltar, e conclui que s no Vero
seguinte  que iriam encontrar o meu corpo. Finalmente, depois
de vagar por muitas horas, consegui achar um trilho que me
levou at uma aldeia perdida.
O jornalista do Mail on Sunday insiste: mas como seria o
meu funeral? Bem, conforme o testamento feito, no haver
funeral: decidi ser cremado, e a minha mulher espalhar as minhas cinzas num lugar chamado O Cebreiro, em Espanha -
onde encontrei a minha espada. Os meus manuscritos inditos
no podero ser publicados (fico assustado com o nmero de
obras pstumas ou bas de textos que herdeiros de artistas,
sem quaisquer escrpulos, decidem publicar para ganhar algum
dinheiro; se eles no fizeram isso enquanto estavam vivos, porque no respeitar essa intimidade?). A espada que encontrei no
Caminho de Santiago ser atirada ao mar, voltando ao lugar de
onde veio. E o meu dinheiro, juntamente com os direitos autorais que continuaro a ser recebidos durante os prximos cinquenta anos, sero inteiramente 
destinados  fundao que criei.
E o seu epitfio?, insiste o jornalista. Ora, se serei cremado, no terei aquela famosa pedra com uma inscrio, j que as
cinzas sero levadas pelo vento. Mas se tivesse de escolher uma
frase, pediria que fosse gravado: Ele morreu enquanto estava
vivo. Pode parecer um contra-senso, mas conheo muitas pessoas que j deixaram de viver, embora continuem a trabalhar, a
comer e a realizar as suas actividades sociais de sempre. Fazem
tudo de maneira automtica, sem compreender o momento
mgico que cada dia traz em si, sem parar para pensar no milagre da vida, sem entender que o prximo minuto pode ser o seu
ltimo momento  face deste planeta.
O jornalista despede-se, sento-me ao computador e resolvo
escrever esta crnica. Sei que ningum gosta de pensar neste
tema, mas tenho um dever para com os meus leitores; fazer com
que reflictam sobre as coisas importantes da existncia. E a morte
 talvez a mais importante de todas: caminhamos na sua direco, nunca sabemos quando nos ir tocar e, portanto, temos o
dever de olhar  nossa volta, agradecer por cada minuto, mas
agradecer tambm porque ela nos faz reflectir sobre a importncia de cada atitude que tomamos ou deixamos de tomar.
E, a partir da, deixar de fazer aquilo que nos mantm como
mortos vivos, e apostar tudo, arriscar tudo, pelas coisas que
sempre sonhmos realizar.
J que, querendo ou no, o anjo da morte est  nossa espera.

  
Restaurando a teia
Afinal, estes so
os meus amigos
Em Nova Iorque, vou tomar ch ao fim da tarde com uma
artista bastante invulgar. Ela trabalha num banco em Wall Street,
mas um dia teve um sonho: tinha de ir a doze lugares do mundo
e, em cada um deles, fazer um trabalho de pintura e escultura da
prpria natureza.
Por enquanto, j conseguiu realizar quatro destes trabalhos.
Ela mostra-me as fotos de um deles: um ndio esculpido numa
caverna, na Califrnia. Enquanto aguarda os sinais atravs dos
sonhos, continua a trabalhar no banco - assim consegue dinheiro
para viajar e realizar a sua tarefa.
Pergunto porque  que faz isso.
- Para manter o mundo em equilbrio - responde. - Pode
parecer parvoce, mas existe alguma coisa tnue que nos une .1
todos, e que podemos melhorar ou piorar  medida que vamos
agindo. Podemos salvar ou destruir muita coisa com um simples
gesto que s vezes parece absolutamente intil.
Pode at ser que os meus sonhos sejam parvoce, mas
no quero correr o risco de no os seguir: para mim, as relaes entre os homens so iguais a uma enorme e frgil teia de aranha.
Com o meu trabalho, estou a tentar remendar alguma parte
dessa teia.


CiSte rei  poderoso porque tem um pacto com o demnio -
dizia uma beata na rua. Um rapaz ficou intrigado.
Tempos depois, enquanto viajava para outra cidade, o rapaz
ouviu um homem ao seu lado a comentar:
Todas as terras pertencem ao mesmo dono. Isto  coisa do
demnio!
No final de uma tarde de Vero, uma bela mulher passou ao
lado do rapaz.
Esta rapariga est ao servio de Satans! - gritou um pregador indignado.
Foi ento que o rapaz resolveu procurar o demnio.
Comenta-se que o senhor faz as pessoas poderosas, ricas e
disse o rapaz, assim que o encontrou.
No  bem assim - respondeu o demnio. - Tu s ouviste a
verso daqueles que esto a querer promover-me.


Como sobrevivemos?
Recebo pelo correio trs litros de produtos que substituem o
leite; uma companhia norueguesa quer saber se estou interessado em investir na produo deste novo tipo de alimento, j que,
conforme o parecer do especialista David Rietz, TODO [as
maisculas so dele] o tipo de leite de vaca tem 59 hormonas
activas, muita gordura, colesterol, dioxinas, bactrias e vrus. >
Penso no clcio que, desde criana, a minha me me dizia
que era bom para os ossos, mas o especialista adiantou-se a mim:
Clcio? Como  que as vacas conseguem obter clcio suficiente
para a sua volumosa estrutura ssea? Das plantas! Claro, o novo
produto  feito  base de plantas, e o leite  condenado com
base num sem-nmero de estudos feitos nos mais diversos institutos espalhados pelo mundo.
E as protenas? David Rietz  implacvel: Eu sei que chamam ao leite carne lquida [nunca ouvi esta expresso, mas ele
deve saber do que  que est a falar], por causa da elevada dose
de protenas ali contidas. Mas so as protenas que fazem com
que o clcio no possa ser absorvido pelo organismo. Pases que
tm uma dieta rica em protenas tambm tm um alto ndice de
osteoporose [ausncia de clcio nos ossos].
Nessa mesma tarde, recebo da minha mulher um texto encontrado na Internet:
As pessoas que hoje tm entre quarenta e sessenta anos andavam em carros que no tinham cinto de segurana, apoio para
a cabea ou airbag. As crianas iam soltas no banco de trs, a
fazer a maior algazarra e a divertir-se aos pulos.
Os beros eram pintados com tintas coloridas, "duvidosas",
j que podiam conter chumbo ou outro elemento perigoso.
Eu, por exemplo, fao parte de uma gerao que fazia os
fanosos carrinhos de rolamentos (no sei como explicar isto 
gerao de hoje - digamos que eram bolas de metal presas entre
dois aros de ferro) e descia as ladeiras de Botafogo, usando os
sapatos como traves, caindo, aleijando-se, mas orgulhosa da
aventura a alta velocidade.
E o texto continua:
No havia telemvel, os nossos pais no tinham como saber
Onde estvamos, como  que era possvel? As crianas nunca
tinham razo, estavam sempre de castigo, e nem por isso tinham
problemas psicolgicos de rejeio ou de falta de amor. Na escola existiam os bons e os maus alunos: os primeiros passavam
para a prxima etapa, os segundos eram reprovados. No se
procurava um psicoterapeuta para analisar o caso - exigia-se
apenas que se repetisse de ano.
E, mesmo assim, sobrevivemos com alguns joelhos arranhados poucos traumas. No apenas sobrevivemos, como nos
lembramos, com saudade, do tempo em que o leite no era um
produto, a criana tinha de resolver os seus problemas sem aju da,andar  luta quando era necessrio e passar grande parte do
tempo sem os jogos electrnicos, a inventar brincadeiras com os
amigos.
Mas voltemos ao tema inicial da crnica: resolvi experimentar o novo  e milagroso produto que substituiu o leite assassino.
No consegui passar do primeiro gole.
Pedi que a minha mulher e a minha empregada experimentassem, sem explicar o que aquilo era: as duas disseram que nunca
tinham provado algo to mau na vida.
Fico preocupado com as crianas de amanh, com os seus
jogos electrnicos, com os telemveis, com a ajuda recebida dos
psicoterapeutas a cada derrota, e - sobretudo - com o facto de
serem obrigadas a beber esta poo mgica que as manter
sem colesterol, osteoporose, 59 hormonas activas, toxinas.
Vivero com muita sade, muito equilbrio e, quando crescerem, descobriro o leite (nessa altura, possivelmente, uma bebida fora-da-lei). Quem sabe se um 
cientista de 2050 se encarregar de resgatar algo que  consumido desde o incio dos tempos?
Ou o leite ser obtido apenas atravs de traficantes de droga?

 
Marcado para morrer
Eu , possivelmente, devia morrer s 22h30 do dia 22 de Agosto de 2004, a 48 horas da data do meu aniversrio. Para que o cenrio da quase-morte 
pudesse ser montado, uma srie de factores entraram em aco:
A) O actor Will Smith, nas entrevistas para promover o seu
novo filme, falava sempre do meu livro O Alquimista.
O filme era baseado num livro que eu havia lido h alguns
amos, e de que tinha gostado muito: Eu, Robot2, de Isaac Asimov.
iria v-lo, em homenagem a Smith e Asimov.
(!) O filme esteve em cartaz numa pequena cidade do Sudoeste de Frana, logo na primeira semana de Agosto. Mas uma
srie de coisas sem a mnima importncia fizeram com que eu
adiasse a minha ida ao cinema - at este domingo.
jantei cedo, dividi meia garrafa de vinho com a minha mulher i, convidei a minha empregada para ir connosco (ela mostrou se renitente, mas acabou por 
aceitar), chegmos a tempo,
. omprmos pipocas, vimos o filme, gostmos.
Fui buscar o carro para a viagem de dez minutos at ao meu
antigo moinho transformado em casa. Pus um CD de msica
brasileira, e decidi ir bastante devagar, para que, nesses dez minutos, pudssemos ouvir pelo menos trs canes.
Na estrada de dois sentidos, que passa pelo meio de pequenas cidades adormecidas, vejo - a surgir do nada - um par de
faris no espelho retrovisor. Diante de ns, um cruzamento, devidamente sinalizado por postes.
Tento carregar no travo, porque sei que o carro no vai conseguir o seu intento, os postes cortam por completo qualquer possibilidade de ultrapassagem. 
Isto tudo demora uma fraco de
segundos - lembro-me de ter pensado: Este tipo est doido!,
mas no tive tempo de fazer qualquer comentrio. O motorista
do carro (a imagem que ficou gravada na minha memria  um
Mercedes, mas no tenho a certeza) v os postes, acelera, d uma
guinada e, quando tenta corrigir a direco, fica atravessado na
estrada.
A partir da, tudo parece acontecer em cmara lenta: o carro
capota de lado uma, duas, trs vezes. De seguida, o carro  atirado para a berma, e continua a capotar - desta vez com grandes
saltos, com o pra-choques da frente e de trs a bater no cho.
Os meus faris iluminam tudo e eu no posso travar de repente
- vou acompanhando o carro que d cambalhotas ao meu lado,
parece uma cena do filme que acabo de ver - s que, meu Deus,
h pouco era fico, e agora  vida real!
O carro volta para a estrada e, finalmente, pra, tombado do
lado esquerdo. Eu consigo ver a camisa do motorista. Estaciono
ao seu lado, e apenas uma coisa passa pela minha cabea: tenho
de sair para o ajudar. Nesse momento, sinto as unhas da minha
mulher a cravarem-se fundo no meu brao: ela pede pelo amor
de Deus que eu continue, que estacione mais  frente, o carro
acidentado pode explodir, incendiar-se.
Ando mais cem metros, e estaciono. O rdio continua a tocar
aquela msica brasileira, como se nada tivesse acontecido. Parece
tudo to surreal, to distante. A minha mulher e a Isabel, a minha empregada, saem a correr em direco ao local. Outro carro, vindo da direco contrria, 
trava. Uma mulher sai do carro,
nervosa: os faris dela tambm tinham iluminado a cena dantesca.
Pergunta-me se tenho telemvel, sim tenho. Ento chame a ambulncia!
Qual  o nmero de emergncia? Ela olha para mim: toda a
gente sabe! Trs vezes 51! O telemvel est desligado: antes do
filme, lembram-nos sempre de que temos de fazer isso. Introduzo o cdigo de acesso, ligamos para o nmero de emergncia -
Sei exactamente onde tudo aconteceu: entre o vilarejo
de Laloubere e o vilarejo de Horgues.
A minha mulher e a empregada voltam e dizem que o rapaz
tem escoriaes, mas no parece nada de grave. Depois de tudo
o que vi, depois de capotar seis vezes, nada de grave! Saiu do
Carro meio zonzo, outros carros pararam, os bombeiros chegam
Em cinco minutos, est tudo bem.
Est tudo bem. Por uma fraco mnima de segundos, ele ter-se-ia encostado  a mim, atirando-me  vala, tudo estaria muito
mal para ambos. Pssimo.
Quando chego a casa, olho para as estrelas. s vezes, certas
coisas esto no nosso caminho, mas como no chegou a nossa
hora, elas passam apenas de raspo, sem nos tocar - embora
sejam suficientemente claras para que possamos v-las. Agradeo a Deus a conscincia de perceber que, como diz um amigo
meu, aconteceu tudo o que tinha de acontecer, e no aconteceu
mal.

 O momento da aurora
Um dia qualquer
de Janeiro de 2,00*5
Durante o Frum Econmico de Davos, o prmio Nobel da
Paz, Shimon Peres, contou a seguinte histria:
Um rabino reuniu os seus alunos e perguntou:
Como  que sabemos qual  o preciso momento em que a
noite acaba e o dia comea?
Quando,  distncia, somos capazes de distinguir uma ovelha de um co - disse um rapaz.
Na verdade - disse outro aluno -, sabemos que j  dia
quando conseguimos distinguir,  distncia, uma oliveira de uma
figueira.

No  uma boa definio.
Qual  a resposta, ento? - perguntaram os alunos.
E o rabino respondeu:
-        Quando um estrangeiro se aproxima, o confundimos con
um nosso irmo e os conflitos desaparecem - este  o momennto
em que a noite acaba e o dia comea.
        
Hoje est a chover muito e a temperatura ronda os 3 graus
centgrados. Resolvi andar - acho que se no ando todos os dias,
no consigo trabalhar bem -, mas o vento tambm est forte,
por isso voltei para o carro dez minutos depois. Fui buscar o
jornal  caixa de correio, nada de importante - excepto as coisas
que os jornalistas decidiram que devemos saber, acompanhar,
minar posio a respeito.
Vou para o computador ler os e-mails.
Nada de novo, algumas decises sem importncia, assuntos
que resolvo em pouco tempo.
Tento praticar um bocado de arco e flecha, mas o vento continua,  impossvel. J escrevi o meu livro bianual, que desta vez
 chama O Zahir, e ainda faltam algumas semanas para a sua
publicao. J escrevi as crnicas que publico na Internet. J fiz
o boletim da minha pgina na Web. Fiz um check-up ao estmago, que felizmente no detectou nenhuma anomalia (assustadora. muito com a tal histria do 
tubo que entra pela boca,
mas no  nada de terrvel). Fui ao dentista. Os bilhetes da prxima viagem  de avio, que estavam a demorar, chegaram por correio expresso. Tenho 
coisas que preciso de fazer amanh, e coisas que acabei de fazer ontem, mas hoje...
Hoje no tenho absolutamente nada em que concentrar a
minha ateno.
Fico assustado: no devia estar a fazer alguma coisa? Bem, se
quiser inventar trabalho, no preciso de muito esforo - temos
sempre projectos a ser desenvolvidos, lmpadas que precisam
de ser trocadas, folhas secas que tm de ser varridas, livros para
arrumar, arquivos do computador para organizar, etc. Mas que
tal enfrentar o vazio total?
Visto um gorro, roupa trmica, um casaco impermevel, e
saio para o jardim - desta maneira conseguirei resistir ao frio
pelas prximas quatro ou cinco horas. Sento-me na relva
molhada e comeo a listar mentalmente o que passa pela minha cabea:
A) Sou um intil. Toda a gente neste momento est ocupada,
a trabalhar arduamente.
Resposta: tambm trabalho arduamente, s vezes doze horas
por dia. Hoje, por acaso, no tenho nada para fazer.
B)        No tenho amigos. Estou aqui sozinho, um dos mais famosos escritores do mundo, e o telefone no toca.
Resposta:  claro que tenho amigos. Mas eles sabem respeitar a minha necessidade de isolamento quando estou no velho
moinho em St. Martin, na Frana.
C)        Preciso de sair para comprar cola.
Sim, acabo de me lembrar que ontem estava a faltar cola, que
tal pegar no carro e ir at  cidade mais prxima? E detenho-me
neste pensamento. Porque  que  to difcil ficar como estou
agora, sem fazer nada?
Uma srie de pensamentos cruzam a minha cabea: amigos
que se preocupam com coisas que ainda no aconteceram, conhecidos que sabem preencher cada minuto das suas vidas com tarefas que me parecem 
absurdas, conversas sem sentido, telefonemas longos para no dizer nada de importante. Chefes que
inventam trabalho para justificar os seus cargos, funcionrios
que ficam com medo porque no lhes foi dado nada de importante para fazer naquele dia e isso pode significar que j no so
teis, mes que se torturam porque os filhos saram, estudantes
que se torturam por causa dos estudos, das provas, dos exames.
Travo uma longa e difcil luta comigo prprio para no me
levantar e ir at  papelaria comprar a cola que est a faltar.
A angstia  imensa, mas estou decidido a ficar aqui, sem fazer
nada, pelo menos por algumas horas. Pouco a pouco, a ansiedade vai cedendo lugar  contemplao, e eu comeo a ouvir a
minha alma. Ela estava doida para conversar comigo, mas eu
passo a vida ocupado.
O vento continua a soprar muito forte, sei que est frio, que
chove, e que talvez amanh eu precise de comprar cola. No
estou a fazer nada, e estou a fazer a coisa mais importante na
vida de um homem: estou a ouvir o que eu precisava de ouvir de
mim prprio.

Um homem deitado
no cho
No o dia 1 de Julho de 1997, s 13h05, estava um homem de
aproximadamente cinquenta anos deitado no calado de Copacabana. Passei por ele, lancei-lhe um olhar rpido e continuei
o meu caminho em direco a uma barraca onde costumo beber
gua de coco.
Como carioca, j me cruzei, centenas (milhares?) de vezes
com homens, mulheres ou crianas deitados no cho. Como algum que costuma viajar, j vi a mesma cena em praticamente
todos os pases onde estive - da rica Sucia  miservel Romnia.
Vi pessoas deitadas no cho em todas as estaes do ano: no
Inverno cortante de Madrid, Nova Iorque ou Paris, onde ficam
perto do ar quente que sai das estaes de metro. No sol
escaldante do Lbano, entre os edifcios destrudos pelos anos
de guerra. Pessoas deitadas no cho - bbedas, sem-abrigo, cansadas - no constituem novidade na vida de ningum.
Bebi a minha gua de coco. Precisava de voltar rapidamente,
pois tinha uma entrevista com Juan rias, do jornal espanhol El
Pas. No meu regresso, vi que o homem continuava ali, debaixo
do sol - e todos os que passavam agiam exactamente como eu:
olhavam, e seguiam em frente.
Acontece que - embora eu no soubesse disso - a minha alma
j estava cansada de ver esta mesma cena, tantas vezes. Quando
voltei a passar por aquele homem, algo mais forte do que eu me
fez ajoelhar, e tentar levant-lo.
Ele no reagia. Virei-lhe a cabea, e havia sangue perto das
tmporas. E agora? Seria um ferimento grave? Limpei-lhe a pele
com a minha T-shirt: no parecia nada de grave.
Nesse momento, o homem comeou a murmurar qualquer
coisa como: Pede-lhes para no me baterem. Bem, ele estava
vivo; agora s era preciso eu tir-lo do sol e chamar a polcia.
Travei o primeiro homem que passou, e pedi-lhe que me ajudasse a arrast-lo at  sombra entre o calado e a areia. Ele
estava de fato, pasta, embrulhos, mas ps tudo de parte e veio
ajudar-me - a sua alma tambm j devia estar cansada de ver
aquela cena.
Uma vez colocado o homem na sombra, fui andando em direco  minha casa - sabia que havia uma cabine da PM3, e
poderia pedir ajuda dali. Mas antes de l chegar, cruzei-me com
dois soldados.
-        Est um homem ferido, em frente ao nmero tal - disse.
- Pu-lo na areia. Seria bom mandar uma ambulncia para l.
Os polcias disseram que iam tomar providncias. Pronto, eu
tinha cumprido o meu dever. Escuteiro, sempre alerta. A boa
aco do dia! O problema agora estava noutras mos, elas que
se responsabilizassem. E o jornalista espanhol devia estar a chegar a minha casa dentro de alguns minutos.
No tinha dado dez passos, quando um estrangeiro me interrompeu. Falou num portugus atabalhoado:
-        Eu j tinha avisado a polcia sobre o homem na calada.
Eles disseram que, desde que no seja um ladro, no  um problema deles.
\. PM: Polcia Militar.
Eu no deixei que o homem acabasse de falar. Fui ter novamente com os guardas, convencido de que sabiam quem eu era,
que escrevia em jornais, aparecia na televiso. Voltei com a falsa
impresso de que o sucesso, em alguns momentos, ajuda a resolver muitas coisas.
-        O senhor  alguma autoridade? - perguntou um deles, notando que eu pedia ajuda de maneira mais incisiva.
No faziam ideia de quem eu era.
-        No. Mas ns vamos resolver este problema agora.
Eu estava mal vestido, T-shirt manchada com o sangue do
homem, bermudas cortadas de umas antigas calas de ganga,
suado. Eu era um homem comum, annimo, sem nenhuma autoridade alm do meu cansao de ver gente deitada no cho, durante dezenas de anos da 
minha vida, sem nunca ter feito absolutamente nada.
E isto mudou tudo. H alturas em que se est alm de qualquer bloqueio ou medo. H alturas em que os seus olhos ficam
diferentes, e as pessoas compreendem que est a falar a srio.
Os guardas foram comigo, e chamaram a ambulncia.
No regresso a casa, recordei as trs lies daquela caminhada:
A) Toda a gente pode parar uma aco quando ela ainda 
mero romantismo.
b) H sempre algum para dizer: Agora que comeaste, vai
at ao fim.
E finalmente:
c)        Toda a gente  uma autoridade, quando est absolutamente convencida do que faz.
 

O tijolo que faltava
Durante uma viagem, recebi um fax da minha secretria.
Ficou a faltar um tijolo de vidro nas obras da cozinha, dizia
ela. Envio o projecto original, e o que o pedreiro far para
compensar a falta.
De um lado, estava o desenho que a minha mulher fizera:
fileiras harmoniosas, com uma abertura para a ventilao. Do
outro lado, o projecto que resolvia a falta do tijolo: um verdadeiro quebra-cabeas, onde os quadrados de vidro se misturavam sem esttica nenhuma.
Comprem o tijolo que falta, escreveu a minha mulher. Assim foi feito, e o desenho original foi mantido.
Naquela tarde, fiquei a pensar durante algum tempo no que
tinha acontecido; quantas vezes, pela falta de um simples tijolo,
deturpamos completamente o projecto original da nossa vida.

 
Raj conta-me uma
histria
Uma viva de uma pobre aldeia em Bengala no tinha dinheiro
para pagar o autocarro ao filho, de modo que o rapaz, quando
foi matriculado num colgio, ia ter de atravessar, sozinho, uma
floresta. Para tranquiliz-lo, ela disse:
-        No tenhas medo da floresta, meu filho. Pede ao Deus dela,
Krishna, para te acompanhar. Ele ouvir a tua orao.
O rapaz fez o que a me dizia, Krishna apareceu-lhe, e passou a lev-lo todos os dias  escola.
Quando chegou o dia do aniversrio do professor, o menino
pediu algum dinheiro  me para lhe levar um presente.
-        No temos dinheiro, filho. Pede ao teu irmo Krishna para
arranjar um presente.
No dia seguinte, o menino contou a Krishna o seu problema.
Este deu-lhe um jarro cheio de leite.
Animado, o menino entregou o jarro ao professor. Mas, como
os outros presentes eram mais bonitos, o mestre no lhe prestou
a mnima ateno.
-        Leva este jarro para a cozinha - disse o professor a um
assistente.
O assistente fez o que lhe fora mandado. Ao tentar esvaziar o
jarro, porm, notou que ele voltava a encher-se sozinho. Imediatamente, foi comunicar o facto ao professor que, aturdido, perguntou ao menino:
-        Onde  que arranjaste este jarro, e qual  o truque que o
mantm cheio?
-        Quem mo deu foi Krishna, o Deus da floresta.
O mestre, os alunos, o ajudante, todos se riram.
-        No h deuses na floresta, isso  superstio! - disse o mestre. - Se ele existe, vamos l fora para v-lo!
O grupo inteiro saiu. O menino comeou a chamar por
Krishna, mas este no aparecia. Desesperado, fez uma ltima
tentativa:
-        Irmo Krishna, o meu mestre quer v-lo. Por favor, aparea!
Nesse momento, ouviu-se uma voz vinda da floresta, que
ecoou por todos os cantos:
-        Como  que ele deseja ver-me, meu filho? Ele nem sequer
acredita que eu existo!


O outro lado da
Torre de Babel
Passei a manh inteira a explicar que os meus interesses no
so exactamente os museus e as igrejas, mas os habitantes do
pas - e, dessa forma, seria muito melhor se fssemos at ao
mercado. Mesmo assim, eles insistem;  feriado, o mercado est
fechado.
Aonde vamos?
A uma igreja.
Eu sabia.
-        Hoje celebram um santo muito especial para ns e, com
toda a certeza, para si tambm. Vamos visitar o tmulo desse
santo. Mas no faa perguntas, e aceite que s vezes podemos
ter boas surpresas para os escritores.
Quanto tempo de viagem?
Vinte minutos.
Vinte minutos  a resposta padro: claro que eu sei que vai
demorar muito mais do que isso. Mas at hoje eles respeitaram
sempre tudo o que pedi, por isso  melhor ceder desta vez.
Estou em Yerevan, na Armnia, nessa manh de domingo.
Entro resignado no carro, vejo o monte Ararat coberto de neve
ao longe, contemplo a paisagem ao meu redor. Oxal eu pudesse estar a caminhar por ali, em vez de ficar trancado nesta lata
de metal. Os meus anfitries tentam ser simpticos, mas estou
distrado, a aceitar estoicamente o programa turstico especial.
Eles acabam por deixar a conversa morrer, e seguimos em silncio.
Cinquenta minutos depois (eu sabia!) chegamos a uma pequena cidade e dirigimo-nos para a igreja repleta de gente. Vejo
que esto todos de fato e gravata, uma ocasio bastante formal,
e sinto-me ridculo porque visto apenas uma T-shirt e calas de
ganga. Saio do carro, pessoas da Unio de Escritores esto 
minha espera, entregam-me uma flor, conduzem-me pelo meio
da multido que est a assistir  missa, descemos uma escada
por detrs do altar, e vejo-me diante de um tmulo. Entendo
que ali deve estar enterrado o santo, mas antes de colocar a flor,
quero saber exactamente quem estou a homenagear.
- O Santo Tradutor -  a resposta.
O Santo Tradutor! Nesse momento, os meus olhos enchem-
-se de lgrimas.
Hoje  o dia 9 de Outubro de 2004, a cidade chama-se Oshakan, e a Armnia, pelo que eu sei,  o nico lugar do mundo que
declara feriado nacional e celebra em grande estilo o dia
do Santo Tradutor, So Mesrob. Alm de criar o alfabeto armnio
(a lngua j existia, mas apenas sob a forma oral), dedicou a sua
vida a passar para a sua lngua materna os textos mais importantes da poca - que eram escritos em grego, persa ou cirlico. Ele
e os seus discpulos dedicaram-se  gigantesca tarefa de traduzir
a Bblia e os principais clssicos da literatura do seu tempo.
A partir desse momento, a cultura do pas ganhou a sua prpria
identidade, que se mantm at hoje.
O Santo Tradutor. Eu seguro a flor nas minhas mos, penso
em todas as pessoas que nunca conheci, e que talvez nunca terei a oportunidade de encontrar, mas que neste momento esto
com os meus livros entre mos, a tentar dar o melhor de si para
manter a fidelidade do que quis partilhar com os meus leitores.
Mas penso, sobretudo, no meu sogro, Christiano Monteiro
Oiticica, profisso: tradutor. Que hoje, na companhia dos anjos
e de So Mesrob, est a assistir a esta cena. Lembro-me dele
agarrado  sua velha mquina de escrever, queixando-se muitas
vezes de como o seu trabalho era mal pago (o que ainda hoje ,
infelizmente, verdade). Logo de seguida, explicava que o verdadeiro motivo de continuar naquela tarefa era o seu entusiasmo
em dividir um conhecimento que, se no fosse pelos tradutores,
nunca chegaria ao seu povo.
Fao uma prece silenciosa por ele, por todos aqueles que me
ajudaram nos meus livros, e pelos que me permitiram ler obras
s quais sem eles nunca teria tido acesso, ajudando-me desta
maneira - anonimamente - a formar a minha vida e o meu carcter. Quando saio da igreja, vejo crianas a desenhar o alfabeto,
doces em formas de letras, flores, e mais flores.
Quando o homem mostrou a sua arrogncia, Deus destruiu
a Torre de Babel e todos passaram a falar lnguas diferentes.
Mas na Sua infinita graa, criou tambm um tipo de gente que
iria reconstruir essas pontes, permitir o dilogo e a difuso do
pensamento humano. Este homem (ou mulher) que raramente
nos damos ao trabalho de saber o seu nome quando abrimos um
livro estrangeiro: o tradutor.
 
Antes de uma
conferncia
Uma escritora chinesa e eu preparvamo-nos para falar num
encontro de livreiros americanos. A chinesa, extremamente nervosa, comentava comigo:
-        Falar em pblico j  difcil, imagine ento ser obrigada a
explicar um livro nosso numa outra lngua!
Pedi-lhe que parasse, ou tambm eu iria ficar nervoso, pois o
seu problema era igual ao meu. De repente, virou-se para trs,
sorriu e disse-me baixinho:
-        Vai correr tudo bem, no se preocupe. No estamos ss:
olhe para o nome da livraria da mulher sentada atrs de mim.
No crach da mulher estava escrito: Livraria dos Anjos Reunidos. Tanto eu como ela conseguimos fazer uma excelente apresentao dos nossos 
trabalhos, porque os anjos nos deram o sinal de que estvamos  espera.

        Sobre a elegncia
As vezes, surpreendo-me com os ombros curvados; e sempre
que estou assim, tenho a certeza de que algo no est bem. Nesse momento, mesmo antes de procurar a razo do que me incomoda, tento mudar a minha 
postura - torn-la mais elegante.
Ao colocar-me de novo numa posio erecta, apercebo-me de
que este simples gesto me ajudou a ter mais confiana no que
estou a fazer.
Elegncia  geralmente confundida com superficialidade,
moda, falta de profundidade. Isso  um grave erro: o ser humano
precisa de ter elegncia nas suas aces e na sua postura, porque
esta palavra  sinnimo de bom gosto, amabilidade, equilbrio e
harmonia.
 preciso ter serenidade e elegncia para dar os passos mais
importantes na vida. Claro que no vamos ficar a delirar, preocupados o tempo todo com a maneira como mexemos as mos,
nos sentamos, sorrimos, olhamos ao redor; mas  bom saber
que o nosso corpo fala uma linguagem, e que a outra pessoa -
mesmo inconscientemente - est a perceber o que dizemos para
l das palavras.
A serenidade vem do corao. Embora muitas vezes torturado por pensamentos de insegurana, ele sabe que, atravs da
postura correcta, pode voltar a equilibrar-se. A elegncia fsica,
 qual me estou a referir neste artigo, vem do corpo, e no 
uma coisa superficial, mas sim a maneira que o homem encontrou para honrar a forma como coloca os seus dois ps sobre a
terra. Por isso, quando s vezes sentir que a postura o est a
incomodar, no pense que ela  falsa ou artificial: ela  verdadeira porque  difcil. Ela faz com que o caminho se sinta honrado pela dignidade do peregrino.
E, por favor, nada de a confudir com arrogncia ou snobismo.
A elegncia  a postura mais adequada para que o gesto seja perfeito, o passo seja firme, o seu prximo seja respeitado.
A elegncia  atingida quando o suprfluo  descartado, e o
ser humano descobre a simplicidade e a concentrao: quanto
mais simples e mais sbria a postura, mais bela ela ser.
A neve  bonita porque tem apenas uma cor, o mar  bonito
porque parece uma superfcie plana - mas tanto o mar como a
neve so profundos e conhecem as suas qualidades.
Caminhe com firmeza e alegria, sem medo de tropear. Todos
os movimentos esto a ser acompanhados pelos seus aliados,
que o ajudaro no que for necessrio. Mas no se esquea de
que o adversrio tambm est a observar, e conhece a diferena
entre a mo firme e a mo trmula: portanto, se estiver tenso,
respire fundo, acredite que est tranquilo - e como por milagre
que no sabemos explicar, a tranquilidade desde logo se instala.
No momento em que voc toma uma deciso e a pe em
marcha, procure rever mentalmente cada etapa que o levou a
preparar o seu passo. Mas faa isso sem tenso, porque  impossvel ter todas as regras na cabea; e com o esprito livre,  medida que rev cada etapa, 
vai dar-se conta dos momentos mais
difceis, e de como os superou. Isso ir reflectir-se no seu corpo,
portanto preste ateno!
Fazendo uma analogia com o tiro com arco: muitos arqueiros queixam-se de que, apesar de praticarem h vrios anos a
arte do tiro, ainda sentem o corao disparar de ansiedade, a
mo a tremer, a pontaria a falhar. A arte do tiro faz com que os
nossos erros sejam mais evidentes.
No dia em que estiver sem amor pela vida, o seu tiro ser
confuso, complicado. Ver que est sem fora suficiente para
esticar ao mximo a corda, que no consegue fazer o arco curvar-se como deve.
E, ao ver que o seu tiro  confuso nessa manh, vai tentar
descobrir o que provocou tamanha impreciso: isso far com
que enfrente um problema que o incomoda, mas que at ento
se encontrava oculto.
Voc descobriu este problema porque o seu corpo estava mais
envelhecido, menos elegante. Mude a postura, relaxe a testa,
estique a coluna, enfrente o mundo de peito erguido; ao pensar
no seu corpo, tambm est a pensar na sua alma, e uma coisa
ajudar a outra.
 
Nh Chica de Baependi
O que  um milagre?
Existem definies de todos os tipos: algo que vai contra as
leis da natureza, intercesses em momentos de crise profunda,
coisas cientificamente impossveis, etc.
Eu tenho a minha prpria definio: um milagre  aquilo que
enche o nosso corao de paz. s vezes manifesta-se sob a forma
de uma cura, de um desejo atendido, no interessa - o resultado
 que, quando o milagre acontece, sentimos uma profunda reverncia pela graa que Deus nos concedeu.
H vinte e tantos anos, quando eu vivia o meu perodo hippie, a minha irm convidou-me para ser padrinho da sua primeira
filha. Adorei o convite, fiquei contente por ela no me ter pedido
para cortar o cabelo (naquela poca, chegava at  cintura), nem
me ter exigido um presente caro para a afilhada (eu no teria
como o comprar).
A filha nasceu, o primeiro ano passou-se e o baptizado nunca
mais acontecia. Achei que a minha irm tinha mudado de ideias,
perguntei-lhe o que  que tinha acontecido, e ela respondeu:
 Tu continuas a ser o padrinho. S que eu fiz uma promessa a
Nh Chica, e quero baptiz-la em Baependi, porque ela concedeu-me uma graa.
No sabia onde era Baependi, e nunca tinha ouvido falar de
Nh Chica. O perodo bippie passou, eu tornei-me executivo de
uma editora discogrfica, a minha irm teve outra filha, e nada
de baptizado. Finalmente, em 1978, a deciso foi tomada, e as
duas famlias - a dela e a do seu ex-marido - foram a Baependi.
Ali descobri que a tal Nh Chica, que no tinha dinheiro nem
para o seu prprio sustento, tinha passado trinta anos a construir uma igreja e a ajudar os pobres.
Eu vinha de um perodo muito turbulento da minha vida, e j
no acreditava em Deus. Ou, melhor dizendo, j no achava que
procurar o mundo espiritual tivesse muita importncia: o que
contava eram as coisas deste mundo, e os resultados que pudesse conseguir. Tinha abandonado os meus sonhos loucos da juventude - entre os quais, ser 
escritor - e no tencionava voltar a ter
iluses. Estava ali, naquela igreja, apenas para cumprir um dever social. Enquanto esperava pela hora do baptizado, comecei
a passear pelos arredores, e acabei por entrar na humilde casa
de Nh Chica, ao lado da igreja. A casa tinha duas divises e um
pequeno altar, com algumas imagens de santos e uma jarra com
duas rosas vermelhas e uma branca.
Num impulso, contrrio a tudo o que eu pensava na altura,
fiz uma promessa: Se, algum dia, eu conseguir ser o escritor
que queria ser e j no quero, voltarei aqui quando tiver cinquenta anos, e trarei duas rosas vermelhas e uma branca.
Apenas para me lembrar do baptizado, comprei um retrato
de Nh Chica. No regresso ao Rio, o desastre: um autocarro
pra subitamente  minha frente, eu desvio o carro numa fraco de segundo, o meu cunhado tambm se consegue desviar, 
o carro que vem atrs bate, d-se uma exploso, vrios mortos.
Estacionamos beira da estrada, sem saber o que fazer, procuro um cigarro no bolso e encontro o retrato de Nh Chica,
Silencioso na sua mensagem de proteco.
Ali comeava a minha jornada de volta aos sonhos,  busca
espiritual,  literatura, e um dia vi-me de novo no Bom Combate,
aquele que se trava com o corao cheio de paz, porque  resultado de um milagre. Nunca me esqueci das trs rosas. Finalmente, os cinquenta anos - que 
naquela altura pareciam to distantes - acabaram por chegar.
E quase passam. Durante o Mundial, fui a Baependi pagar a
minha promessa. Algum me viu a chegar a Caxambu (onde
pernoitei), e um jornalista veio entrevistar-me. Quando contei o
que estava ali a fazer, ele pediu-me:
- Fale sobre Nh Chica. O corpo dela foi exumado esta semana, e o processo de beatificao est no Vaticano. As pessoas
precisam de dar o seu testemunho.
No - disse eu. -  uma histria muito ntima. S falaria se
recebesse um sinal.
I pensei para mim prprio: O que  que seria um sinal? S
se  alguem falasse em nome dela!
No dia seguinte, peguei no carro, nas flores e fui a Baependi.
Parei a alguma distncia da igreja, fazendo lembrar o executivo
Da Editora discogrfica que ali estivera muito tempo antes, e as
Muitas coisas que me tinham conduzido de volta. Quando ia a
Entrar na casa, uma jovem mulher saiu de uma loja de roupa:
Vi que o seu livro Maktub  dedicado a Nh Chica - disse
 garanto-lhe que ela ficou contente.
Ela no me pediu nada. Mas aquele era o sinal de que eu estava
Precisar Ouvir. Este  o depoimento pblico que eu precisava de fazer.
 
Reconstruindo a casa
A orao que eu esqueci
Um conhecido meu, devido  sua incapacidade de conciliar o
sonho com a realizao, acabou com srios problemas financeiros. E pior: envolveu outras pessoas, prejudicando gente que
no queria.
Sem conseguir pagar as dvidas que se acumulavam, chegou a
pensar em suicdio. Caminhava pela rua uma tarde, quando viu
uma casa em runas. Aquele prdio ali sou eu, pensou. Nesse
momento, sentiu um enorme desejo de reconstruir aquela casa.
Descobriu o dono, ofereceu-se para fazer obras - e foi atendido, embora o proprietrio no percebesse o que  que o meu
amigo ia ganhar com aquilo. Juntos, conseguiram comprar tijolos, madeira, cimento. O meu conhecido trabalhou com amor,
sem saber porqu ou para quem. Mas sentia que a sua vida pessoal ia melhorando  medida que as obras avanavam.
Ao fim de um ano, a casa estava pronta. E os seus problemas
pessoais resolvidos.
Ao andar pelas ruas de So Paulo, h trs semanas, recebi de
um amigo - Edinho - um panfleto chamado Instante Sagrado.
Impresso a quatro cores, num papel excelente, ele no identificava nenhuma igreja ou culto, apenas trazia uma orao no verso.
Qual no foi a minha surpresa ao ver que quem assinava esta
orao era - EU! Tinha sido publicada no incio da dcada de 80,
na contracapa de um livro de poesia. No pensei que resistisse ao
tempo, nem que pudesse voltar s minhas mos de forma to misteriosa; mas, quando a reli, no me envergonhei do que tinha escrito.
J que estava naquele panfleto, e j que acredito em sinais,
achei oportuno reproduzi-la aqui. Espero estimular cada leitor
a escrever a sua prpria prece, pedindo para si e para os outros
aquilo que julga mais importante. Desta maneira, colocamos uma
vibrao positiva no nosso corao, e ela h-de contagiar tudo o
que nos cerca.
Eis a orao:
Senhor, protegei as nossas dvidas, porque a Dvida  uma
maneira de rezar.  ela que nos faz crescer, porque nos obriga a
olhar sem medo para as muitas respostas de uma mesma pergunta. para que isso seja possvel,
Senhor, protegei as nossas decises, porque a Deciso  uma
maneira de rezar. Dai-nos coragem para, depois da dvida, sermos capazes de escolher entre um caminho e outro. Que o nosso
SIM seja sempre um SIM, e o nosso NO seja sempre um NO.
Que uma vez escolhido o caminho, nunca olhemos para trs,
nem deixemos que a nossa alma seja roda pelo remorso. E para
que isso seja possvel,
Senhor, protegei as nossas aces, porque a Aco  uma
maneira de rezar. Fazei com que o po nosso de cada dia seja
fruto do melhor que trazemos dentro de ns prprios. Que possamos, atravs do trabalho e da Aco, compartilhar um pouco do
amor que recebemos. E para que isso seja possvel,
Senhor protegei os nossos sonhos, porque o Sonho  uma
maneira de rezar. Fazei com que, independentemente da nossa
idade ou da nossa circunstncia, sejamos capazes de manter acesa no corao a chama sagrada da esperana e da perseverana.
E para que isso seja possvel,
Senhor, dai-nos sempre entusiasmo, porque o Entusiasmo 
uma maneira de rezar.  ele que nos liga ao Cu e  Terra, aos
homens e s crianas, e nos diz que o desejo  importante, e
merece o nosso esforo.  ele que nos afirma que tudo  possvel, desde que estejamos totalmente comprometidos com o que
fazemos. E para que isso seja possvel,
Senhor, protegei-nos, porque a Vida  a nica maneira que
temos para manifestar o Teu milagre. Que a terra continue a
transformar a semente em trigo, que ns continuemos a transmutar o trigo em po. E isso s  possvel se tivermos Amor -
portanto, nunca nos deixe na solido. Dai-nos sempre a Vossa
companhia, e a companhia de homens e de mulheres que tm
dvidas, agem, sonham, entusiasmam-se, e vivem como se cada
dia fosse totalmente dedicado  Tua glria.
Amm.
 
Copacabana,
Rio de Janeiro
Eu e a minha mulher encontrmo-la na esquina da Rua Constantemente, em Copacabana. Tinha aproximadamente sessenta anos, estava numa cadeira de 
rodas, perdida no meio da multido. A minha mulher ofereceu-se para ajud-la: ela aceitou,
pedindo que a levssemos at  Rua Santa Clara.
Alguns sacos de plstico pendiam da cadeira de rodas. No
caminho, contou-nos que aqueles eram todos os seus pertences;
dormia debaixo de varandas, e vivia da caridade alheia.
Chegmos ao lugar indicado; ali estavam reunidos outros
mendigos. A mulher tirou de um dos sacos de plstico dois pacotes de leite, que distribuiu pelo grupo.
- Fazem caridade comigo, tenho de fazer caridade com os
outros - foi o seu comentrio.
        
                         
Viver a sua prpria lenda
que cada pgina deste livro  lida em aproximadamente
trs minutos. Pois bem, segundo as estatsticas, nesse espao de
tempo morrem 300 pessoas e nascem 620.
Talvez eu demore meia hora para a escrever: estou concentrado no meu computador, com livros ao meu lado, ideias na cabea, carros a passar l fora. 
Tudo parece absolutamente normal 
minha volta; contudo, durante esses trinta minutos, 3000 pessoas morreram e 6200 acabam de ver, pela primeira vez, a luz
do mundo.
Onde estaro esses milhares de famlias que comearam neste
momento a chorar a perda de algum, ou a rir com a chegada de
um filho, neto, irmo?
Paro e reflicto um pouco: talvez muitas destas mortes estejam a chegar no final de uma longa e dolorosa enfermidade, e
certas pessoas estejam aliviadas com o Anjo que as veio buscar.
Mas alm disso, com toda a certeza, centenas destas crianas
que acabam de nascer vo ser abandonadas no prximo minuto,
e passam a fazer parte da estatstica da morte antes que eu acabe
este texto.
Que coisa. Uma simples estatstica que vi por acaso e, de repente, estou a sentir estas perdas e estes encontros, estes sorrisos e estas lgrimas. Quantos 
esto a deixar esta vida sozinhos,
nos seus quartos, sem que ningum se d conta do que est a
acontecer? Quantos nascero escondidos e sero abandonados
 porta de instituies ou conventos?
Reflicto: j fiz parte da estatstica dos nascimentos, e um dia
serei includo no nmero de mortos. Que bom: eu tenho plena
conscincia de que vou morrer. Desde que fiz o caminho de
Santiago, percebi que - embora a vida continue, e sejamos todos
eternos - esta existncia vai acabar um dia.
As pessoas pensam muito pouco na morte. Passam a vida preocupadas com coisas absurdas, adiam projectos, pem de parte
momentos importantes. No arriscam, porque acham que  perigoso. Protestam muito, mas acobardam-se na hora de tomar
providncias. Querem que mude tudo, mas elas prprias se recusam a mudar.
Se pensassem um pouco mais na morte, no deixariam de
lazer o telefonema que est em falta. Seriam um pouco mais
loucas. No teriam medo do fim desta encarnao - porque no
se pode temer algo que vai acontecer de qualquer forma.
Os ndios dizem: Hoje  um dia to bom quanto qualquer
outro para deixar este mundo. E um bruxo comentou certa
vez: Que a morte esteja sempre sentada ao teu lado. Assim,
quando precisares de fazer coisas importantes, ela dar-te- a fora
e a coragem necessrias.
Espero que voc, leitor, tenha chegado at aqui. Seria uma
parvoce assustar-se com o ttulo, porque todos ns, mais cedo
ou mais tarde, vamos morrer. E s quem aceita isto est preparado para a vida.



A importncia do gato
na meditao
Tendo escrito Vernika Decide Morrer, um livro sobre a loucura, vi-me obrigado a perguntar quantas das coisas que fazemos
nos foram impostas por necessidade, ou por absurdo. Porque 
que usamos gravata? Porque  que o relgio gira no sentido
horrio? Se vivemos num sistema decimal, porque  que o dia
tem 24 horas de 60 minutos cada?
O facto  que muitas das regras, a que obedecemos hoje em dia,
no tm fundamento nenhum. Mesmo assim, se desejamos agir de
forma diferente, somos considerados doidos ou imaturos.
Enquanto isso, a sociedade vai criando alguns sistemas que,
no decorrer do tempo, perdem a razo de ser, mas que continuam
a impor as suas regras. Uma interessante histria japonesa ilustra o que quero dizer:
Um grande mestre zen budista, responsvel pelo mosteiro de
Mayu Kagi, tinha um gato, que era a grande paixo da sua vida.
Assim, durante as aulas de meditao, tinha o gato ao seu lado -
para desfrutar o mais possvel da sua companhia.
Uma manh, o mestre - que j estava bastante velho - apareceu morto. O discpulo mais habilitado ocupou o seu lugar.
- O que  que vamos fazer com o gato? - perguntaram os
outros monges.
Numa homenagem em memria do seu antigo instrutor, o
novo mestre decidiu permitir que o gato continuasse a frequentar as aulas de zen-budismo.
Alguns discpulos de mosteiros vizinhos, que viajavam muito
pela regio, descobriram que, num dos mais afamados templos
do local, um gato participava nas meditaes. A histria comeou a circular.
Passaram-se muitos anos. O gato morreu, mas os alunos do
mosteiro estavam to acostumados com a sua presena, que arranjaram outro gato. Enquanto isso, os outros templos comearam a introduzir gatos nas 
suas meditaes: acreditavam que o
gato era o verdadeiro responsvel pela fama e pela qualidade do
ensino de Mayu Kagi, e esqueciam-se de que o antigo mestre era
um excelente instrutor.
Passou-se uma gerao, e comearam a surgir tratados tcnicos sobre a importncia do gato na meditao zen. Um professor universitrio desenvolveu 
uma tese - aceite pela comunidade acadmica - sobre a capacidade do felino para aumentar a
concentrao humana e eliminar as energias negativas.
E assim, durante um sculo, o gato foi considerado essencial
no estudo do zen-budismo daquela regio.
At ao dia em que apareceu um mestre que tinha alergia a
plos de animais domsticos, e resolveu tirar o gato das suas
prticas dirias com os alunos.
A reaco foi extremamente negativa - mas o mestre insistiu.
Como era um excelente instrutor, os alunos continuavam com o
mesmo rendimento escolar, apesar da ausncia do gato.
Pouco a pouco, os mosteiros - sempre em busca de novas ideias,
e j cansados de ter que alimentar tantos gatos - foram eliminando
os animais das aulas. Ao fim de vinte anos, comearam a surgir
novas teses revolucionrias - com ttulos convincentes como A
Importncia da meditao sem o gato, ou Equilibrando o universo zen apenas pelo poder da mente, sem a ajuda de animais.
Mais um sculo se passou, e o gato saiu por completo do
ritual de meditao zen daquela regio. Mas foram precisos duzentos anos para que tudo voltasse ao normal - j que ningum
se perguntou, durante todo esse tempo, porque  que o gato ali
estava.
E quantos de ns, nas nossas vidas, ousam perguntar: porque
 que tenho de agir desta maneira? At que ponto, naquilo que
fazemos, estamos a usar gatos inteis, que no temos coragem
de eliminar, porque nos disseram que os gatos eram importantes para que tudo funcionasse bem?
Porque  que, neste ltimo ano do milnio, no procuramos
uma maneira diferente de agir?
 
No posso entrar
Perto de Olite, em Espanha, existe um castelo em runas. Decido visit-lo e, quando j estou diante dele, um senhor que se
encontra  porta diz-me:
- No pode entrar.
A minha intuio garante-me que ele me est a proibir pelo
prazer de proibir. Explico que venho de longe, tento dar uma
gorjeta, ser simptico, digo que aquilo  um castelo em runas -
de repente, entrar naquele castelo tornou-se muito importante
para mim.
- No pode entrar - repete o senhor.
Resta apenas uma alternativa: seguir em frente, e esperar que
me impea fisicamente. Dirijo-me para a porta. Ele olha para
mim, mas no faz nada.
Quando saio, duas turistas aproximam-se e entram. O velho
no tenta impedi-las. Sinto que, graas  minha resistncia, ele
resolveu parar de criar regras absurdas. s vezes, o mundo pede-
nos para lutar por coisas que no conhecemos, por razes que
nunca iremos descobrir.


Estatutos do novo
milnio
 Todos os homens so diferentes. E devem fazer o possvel
para continuar a ser.
A todos os seres humanos foram concedidas duas maneiras
de agir: a aco e a contemplao. Ambas levam ao mesmo lugar.
A todos os seres humanos foram concedidas duas qualidades: o poder e o dom. O poder conduz o homem ao encontro
com o seu destino; o dom obriga-o a dividir com os outros o
que h de melhor em si prprio.
A todos os seres humanos foi dada uma virtude: a capacidade de escolher. Aquele que no utiliza essa virtude transforma-o
numa maldio e outros escolhero por ele.
Todos os seres humanos tm direito a duas bnos, a saber: a bno de acertar e a bno de errar. No segundo caso,
existe sempre uma aprendizagem que o conduzir ao caminho certo.

Todos os seres humanos tm um perfil sexual prprio, e
devem exerc-lo sem culpa desde que no obriguem os outros a
exerc-lo com eles.
Todos os seres humanos tm uma lenda pessoal a ser cumprida e essa  a sua razo de estar neste mundo. A lenda pessoal
manifesta-se por meio do entusiasmo com a sua tarefa.
Pargrafo nico: pode-se abandonar por algum tempo a lenda pessoal, desde que no se esquea dela, voltando assim que
for possvel.
Todos os homens tm o seu lado feminino e todas as mulheres tm o seu lado masculino.  necessrio usar a disciplina
com intuio e usar a intuio com objectividade.
Todos os seres humanos precisam de conhecer duas linguagens: a linguagem da sociedade e a linguagem dos sinais. Uma
serve para a comunicao com os outros. A outra serve para
compreender as mensagens de Deus.

Todos os seres humanos tm direito  busca da alegria, e
entende-se por alegria algo que nos deixa contentes - no necessariamente aquilo que deixa os outros contentes.
Todos os seres humanos devem manter viva dentro de si
a sagrada chama da loucura. E devem comportar-se como pessoas normais.
So considerados faltas graves apenas os seguintes itens:
no respeitar o direito do prximo, deixar-se paralisar pelo medo,
sentir-se culpado, achar que no se merece o bem e o mal que
acontece na vida e ser-se cobarde.
Pargrafo 1: amaremos os nossos inimigos, mas no faremos
alianas com eles. Foram colocados no nosso caminho para testar a nossa espada, e merecem o respeito da nossa luta.
Pargrafo 2: escolheremos os nossos inimigos.
Todas as religies levam ao mesmo Deus, e todas merecem o mesmo respeito.
Pargrafo nico: um homem que escolhe uma religio, tambm est a escolher uma maneira colectiva de adorar e de compartilhar os mistrios. Contudo, ele 
 o nico responsvel pelas
suas  aces nesse caminho, e no tem o direito de transferir
para a religio a responsabilidade das suas decises.
14)        Fica decretado o fim do muro que separa o sagrado do
do humano apartir de agora, tudo  sagrado.
e qe Tudo o que  feito no presente afecta o futuro como
consequncia, e o passado como redeno,
 Revogam-se as disposies em contrrio.
 
O guerreiro e a f
Destruindo e
reconstruindo
Sou convidado a ir a Guncan-Gima, onde existe um templo
budismo zen. Quando l chego, fico admirado: a belssima estrutura estava situada no meio de uma imensa floresta, mas tinha um gigantesco terreno baldio 
ao lado.
Pergunto qual a razo daquele terreno, e -me explicado:
- o local da prxima construo. A cada vinte anos, 
destrumos este templo que est a ver, e reconstrumo-lo ao lado
Desta forma, os monges carpinteiros, pedreiros, arquitectos, tm a possibilidade de estar sempre a exercer as suas
profisses, ensinando-as - na prtica - aos seus aprendizes. 
Lembrou-me tambm que nada na vida  eterno - e at mesmo os exemplos 
esto num constante processo de aperfeioamento.
James compara a experincia a uma imensa teia de aranha espalhada  nossa volta - que  capaz de agarrar no s
aquilo que  necessrio, mas tambm na poeira que anda no ar.
s vezes aquilo a que chamamos experincia nada mais
 que a soma das nossas derrotas. Ento, olhamos para a frente
de quem j cometeu bastantes equvocos na
e no temos coragem de dar o prximo passo.
No momento   bom relembrar as palavras de Lord Salis-
Se voc acreditar totalmente nos mdicos, vai achar que
no h mal  sade.   Se acreditar totalmente nos telogos, vai
pensar que tudo  pecado. Se acreditar totalmente nos
leigos concluir que nada  absolutamente seguro.
Devemos aceitar as paixes, e no renunciar ao entusiasmo
delas. fazem parte da vida, e alegram todos os que
acreditam. Mas  o guerreiro da luz nunca perde de vista as
amarras e os laos criados com solidez ao longo dos
tempos. distinguir o que  passageiro do que  definitivo.
h um momento, contudo, em que as paixes desaparecem
e em qe Apesar de toda a sua sabedoria, ele deixa-se dominar
e de um   momento para o outro, a f j no  a mesma. as coisas  no correm como sonhava, as tragdias
surgem de maneira injusta e inesperada, e ele passa a acreditar
que as suas preces j no so ouvidas.
Continua a rezar e a frequentar os cultos da sua religio, mas
no se consegue enganar; o corao no responde como antes, e
as palavras parecem no ter sentido.
Nesse momento, s existe um caminho possvel: continuar a
praticar. Fazer as preces por obrigao, ou por medo, ou seja l
por que motivo for - mas continuar a rezar. Insistir, mesmo que
tudo parea intil.
O anjo encarregado de recolher as suas palavras - e que 
tambm responsvel pela alegria da f - est a dar um passeio.
Mas volta depressa, e s vai conseguir localiz-lo se ouvir uma
prece ou um pedido nos seus lbios.
Diz a lenda que, aps uma exaustiva sesso matinal de oraes no Monasterio de Piedra, o novio perguntou ao abade se
as oraes faziam com que Deus se aproximasse dos homens.
Vou responder-lhe com outra pergunta - disse o abade. -
Todas essas oraes que voc faz vo fazer com que o Sol nasa
amanh?
Claro que no! O Sol nasce porque obedece a uma lei universal!
Ento, esta  a resposta  sua pergunta. Deus est perto de
ns, independentemente das preces que fazemos.
O novio revoltou-se:
-        O senhor quer dizer que as nossas oraes so inteis?
-        De todo. Se voc no acordar cedo, nunca conseguir ver o
Sol a nascer. Se no reza, embora Deus esteja sempre por perto,
nunca conseguir notar a Sua presena.
Orar e vigiar: esse deve ser o lema do guerreiro da luz. Se
apenas vigia, vai comear a ver fantasmas onde eles no existem. Se apenas orar, no ter tempo de executar as obras de que
o mundo tanto necessita. Conta outra lenda, desta vez do Verba
Seniorum, que o abade Pastor costumava dizer que o abade Joo
havia rezado tanto, que j no precisava de se preocupar mais -
as suas paixes tinham sido vencidas.
As palavras do abade Pastor acabaram por chegar aos ouvidos de um dos sbios do mosteiro de Sceta. Este chamou os novios depois da ceia.
- Tm ouvido dizer que o abade Joo j no tem tentaes a
vencer - disse ele. - A falta de luta enfraquece a alma. Vamos
pedir ao Senhor que envie uma tentao muito poderosa ao abade Joo; e se ele vencer essa tentao, vamos pedir outra e mais
outra. E quando ele estiver novamente a lutar contra as tentaes, vamos rezar para que ele nunca mais diga: Senhor, afasta
de mim este demnio. Vamos rezar para que ele pea: Senhor,
dai-me foras para enfrentar o mal.
 

No porto de Miami
Agindo impulsivamente
-As vezes, acostumamo-nos com o que vemos nos filmes, e
acabamos por nos esquecer da verdadeira histria - diz um amigo meu, enquanto olhamos ambos para o porto de Miami.
- Lembras-te dos Dez Mandamentos?
Claro que me lembro. Moiss - Charlton Heston - a certa
altura levanta o seu basto, as guas dividem-se, e o povo hebreu
atravessa por entre a gua imensa.
- Na Bblia  diferente - comenta o meu amigo. - A, Deus
ordena a Moiss: Diz aos filhos de Israel que marchem. E s
depois de comearem a andar  que Moiss levanta o basto, e < o
Mar Vermelho se abre.
S a coragem no caminho faz com que o caminho se manifeste.
O / padre Zeca, da Igreja da Ressurreio, em Copacabana, conta
que estava num autocarro quando, de repente, ouviu uma voz
dizer que ele tinha de se levantar e pregar a palavra de Cristo ali
mesmo.
Zeca comeou a conversar com a voz: Vo achar-me ridculo,
Aqui no  lugar para sermes, disse. Mas algo dentro dele insistia
Que era preciso falar. Sou tmido, por favor, no me pea isso,
implorou.
() impulso interior persistia.
Ento, lembrou-se da sua promessa - abandonar-se a todos
os desgnios de Cristo. Levantou-se - a morrer de vergonha - e
comeou a falar do Evangelho. Todos ouviram em silncio. Ele
olhava para todos os passageiros, e eram raros os que desviavam
" olhar. Disse tudo o que sentia, acabou o sermo e sentou-se
novamente.
Ele hoje no sabe que tarefa cumpriu naquele momento. Mas
tem acerteza absoluta de que cumpriu uma tarefa.


Da glria transitria
Dic Transit Gloria Mundi.  desta maneira que So Paulo define
a condio humana numa das suas epstolas: a glria do mundo
 transitria. E, mesmo sabendo disso, o homem parte sempre
em busca do reconhecimento pelo seu trabalho. Porqu? Um
dos maiores poetas brasileiros, Vincius de Moraes, diz numa
das suas letras musicais:
E, no entanto,  preciso cantar
mais que nunca  preciso cantar.
Vincius de Moraes  brilhante nestas frases. Faz lembrar
Gertrud Stein, no poema Uma rosa  uma rosa,  uma rosa;
apenas diz que  preciso cantar. No d explicaes, no justifica,
no usa metforas. Quando me candidatei  Academia Brasileira
de Letras, ao cumprir o ritual de entrar em contacto com os seus
membros, ouvi do acadmico Josu Montello algo semelhante.
Disse-me: Todos os homens tm o dever de seguir a estrada que
passa pela sua aldeia.
Porqu? O que  que existe nessa estrada?
Que fora  essa que nos empurra para longe do conforto
daquilo que  familiar, e nos faz enfrentar desafios, mesmo sabendo que a glria do mundo  transitria?
Creio que esse impulso se chama: a busca do sentido da vida.
Por muitos anos procurei nos livros, na arte, na cincia, nos
perigosos ou confortveis caminhos que percorri uma resposta
definitiva para essa pergunta. Encontrei muitas, algumas que me
convenceram durante anos, outras que no resistiram a um s
dia de anlise; contudo, nenhuma delas foi suficientemente forte para que eu pudesse dizer agora: o sentido da vida  este.
Hoje estou convencido de que tal resposta nunca nos ser
confiada nesta existncia, embora, no final, no momento em que
estivermos de novo diante do Criador, possamos perceber todas
as oportunidades que nos foram oferecidas - e ento aceites ou
rejeitadas.
Num sermo de 1890, o pastor Henry Drummond fala desse
encontro com o Criador. Diz:
Nesse momento, a grande pergunta do ser humano no ser:
"Como  que eu vivi?" Ser, isso sim: "Como  que eu amei?"
O teste final de todas as buscas  a dimenso do nosso Amor.
No ser levado em conta o que fizemos, no que acreditamos, o
que conseguimos.
Nada disso nos ser cobrado, mas sim a nossa maneira de
amar o prximo. Os erros que cometemos nem sequer sero
lembrados. No seremos julgados pelo mal que fizemos, mas
pelo bem que deixmos de fazer. Pois manter o Amor trancado
dentro de si  ir contra o esprito de Deus,  a prova de que
nunca O conhecemos, de que Ele nos amou em vo (...).
A glria do mundo  transitria, e no  ela que nos d a
dimenso da nossa vida - mas a escolha que fazemos de seguir
a nossa lenda pessoal, de acreditar nas nossas utopias e de lutar
por elas. Somos todos protagonistas da nossa existncia e, muitas vezes, so os heris annimos que deixam as marcas mais
duradouras.
Conta uma lenda japonesa que um monge, entusiasmado com
a beleza do livro chins Tao Te King, resolveu recolher fundos
para traduzir e publicar aqueles versos na sua lngua materna.
Demorou dez anos at conseguir o suficiente.
Contudo, uma peste assolou o pas, e o monge resolveu usar
o dinheiro para aliviar o sofrimento dos doentes. Mas assim que
a situao se normalizou, partiu novamente para recolher a quantia necessria  publicao do Tao; passaram-se mais dez anos, e
quando j se preparava para imprimir o livro, um maremoto
deixa centenas de pessoas desabrigadas.
O monge gastou novamente o dinheiro na reconstruo das
casas dos que tinham perdido tudo. Mais dez anos se passaram,
ele voltou a recolher o dinheiro e, finalmente, o povo japons
pde ler o Tao Te King.
Dizem os sbios que, na verdade, este monge fez trs edies
do Tao: duas invisveis e uma impressa. Ele acreditou na sua
utopia, combateu o bom combate, manteve a f no seu objectivo, mas no deixou de prestar ateno ao seu semelhante. Que
seja assim com todos ns: s vezes os livros invisveis, nascidos
da generosidade para com o prximo, so to importantes quanto
aqueles que enchem as nossas bibliotecas.
 

Da caridade ameaada
H algum tempo, a minha mulher ajudou um turista suo em
Ipanema, que se dizia vtima de um bando de rapazes. Com um
sotaque carregado, num portugus pssimo, afirmou estar sem
passaporte, dinheiro, stio para dormir.
A minha mulher pagou-lhe um almoo, deu-lhe a quantia
necessria para que pudesse passar a noite num hotel enquanto
tentava contactar a sua embaixada, e foi-se embora. Dias depois,
um jornal carioca noticiava que o tal turista suo era, na verdade, mais um malandro criativo, que fingia um sotaque
inexistente, abusava da boa-f das pessoas que amam o Rio, e
desejam desfazer a imagem negativa que - justa ou injustamente
se tornou o nosso carto postal.
Ao ler a notcia, a minha mulher fez apenas um comentrio:
<No  isso que me ir impedir de ajudar algum.
O seu comentrio fez-me lembrar a histria do sbio que, uma
tarde, chegou  cidade de Akbar. As pessoas no deram muita
importncia  sua presena, nem se interessaram pelos seus
ensinamentos. Aps algum tempo, ele tornou-se motivo de riso e
ironia por parte dos habitantes da cidade.
Um dia, enquanto passeava pela rua principal de Akbar, um
grupo de homens e mulheres comeou a insult-lo. Em vez de fingir que ignorava o que estava a acontecer, o sbio foi ter com eles e abenoou-os.
 Um dos homens comentou: ser que, para alm de tudo, estamos diante de um homem surdo? Gritamos coisas horrveis, e o senhor 
respondeu-nos com belas palavras! Cada um de ns s pode oferecer o que tem  foi a resposta do sbio.


As bruxas e o perdo
No dia 31 de Outubro de 2004, aproveitando-se de uma lei
feudal que foi abolida no ms seguinte, a cidade de Prestopans,
na Esccia, concedeu o perdo oficial a oitenta e uma pessoas -
e aos seus gatos -, executadas por prtica de bruxaria entre os
sculos XVI e XVII.
Segundo a porta-voz oficial dos Bares de Prestoungrange e
I )olphinstoun: A maioria tinha sido condenada sem nenhuma
evidncia concreta - apenas com base nas testemunhas de acusao, que declaravam sentir a presena de espritos malignos.
No vale a pena relembrar todos os excessos da Inquisio,
com os seus instrumentos de tortura e as suas fogueiras em chamas de dio e vingana. Mas h algo nesta notcia que me intriga bastante.
A cidade e o 14. Baro de Prestoungrange &c Dolphinstoun
esto a conceder perdo s pessoas executadas brutalmente. Estamos em pleno sculo XXI, e os descendentes dos verdadeiros criminosos, aqueles que 
mataram inocentes, ainda se julgam no direito de perdoar.
Enquanto isso, uma nova caa s bruxas comea a ganhar
terreno. Desta vez, a arma j no  o ferro em brasa, mas a ironia ou a represso. Todos aqueles que, ao sesenvolver um dom (geralmente descoberto por 
acaso), ousam falar da sua capacidade, so na maior parte das vezes olhados com desconfiana, ou proibidos pelos seus pais, maridos, esposas de dizer 
alguma coisa a respeito.
 
  Por me ter interessado desde jovem por aquilo a que chamam (cincias ocultas), acabei por entrar em contacto com muitas destas pessoas. 
Acreditei em charlates, claro. Dediquei o meu tempo e entusiasmo a (mestres) que mais tarde deixaram cair a mscara, demonstrando o total vazio em que 
se encontravam. Fiz-me fazerem pagar um preo alto. Tudo isto em nome de uma busca absolutamente natural no homem: a resposta ao mistrio da vida. 
Mas tambm encontrei muita gente que era, de facto, capaz de lidar com foras que estavam para alm da minha compreenso. Vi o tempo a ser alterado, 
por exemplo. Vi operaes sem anestesia, e numa destas ocasies (precisamente num dia em que tinha acordado com muitas dvidas a respeito do poder 
desconhecido do homem) pus o dedo dentro da inciso feita com um canivete enferrujado. Acreditem se quiser  ou ridicularizem se esta for a nica maneira 
de ler o que estou a escrever -, j vi metal a ser transformado, talheres entortados, luzes a brilhar no ar  minha volta, porque algum disse que isso ia 
acontecer (e aconteceu). Estava quase sempre com testemunhas, geralmente descrentes. Na maior parte das vezes, essas testemunhas continuaram 
descrentes, achavam sempre que tudo no passava de um (truque) bem elaborado. Outros diziam que era (coisa do diabo). Finanlmente, umas quantas 
acreditaram que estavam a presenciar fenmenos que iam para alm da compreenso humana. Puude ver tudo isto em pases como o Brasil, a Frana, a 
Inglaterra, a Sua, Marrocos e o Japo. E o que  que acontece  maioria das pessoas que conseguem, digamos, interferir nas leis (imutvies) da natureza? 
A sociedade considera-as sempre um fenmeno marginal: se no conseguem explicar ento eles no existem. A grande maioria destas pessoas to-pouco 
compreende por que razo  capaz de fazer coisas surpreendentes. E com medo de serem rotuladas de charlats, acabam por ficar sufocadas pelos 
prprios dons. Nenhuma delas  feliz. Todas esperam pelo dia em que possam ser levadas a srio. Todas esperam por uma resposta cientfica para os seus 
prprios poderes (e, na minha opinio, no penso que o caminho seja por a). Muitos escondem o seu potencial, e acabam por sofrer  porque podiam ajudar 
o mundo, e no conseguem. No fundo, acho que tambm aguardam o (perdo oficial) por serem diferentes. Separando o trigo do joio, no nos deixando 
deixando desmotivar pela gigantesca quantidade de charlatanice, acho que devemos perguntar-nos novamente: do que  que somos capazes? E, com 
serenidade, ir em busca do nosso imenso potencial.


Sobre o ritmo e o Caminho
Viajando de maneira diferente

- Faltou algo na sua palestra sobre o Caminho de Santiago -diz-me uma peregrina, assim que samos da Casa de Galicia, em
Madrid, onde minutos antes eu acabara de dar uma conferncia.
Deve ter faltado muita coisa, pois a minha inteno ali era
apenas compartilhar um pouco a minha experincia. Mesmo
assim, convido-a para tomar um caf, curioso em saber o que 
que ela considera uma omisso importante.
E Begona - este  o seu nome - diz-me:
- Tenho notado que a maioria dos peregrinos, seja no Caminho de Santiago, seja nos caminhos da vida, procuram sempre
seguir o ritmo dos outros.
No incio da minha peregrinao, tentava ir juntamente com
o meu grupo. Cansava-me, exigia do meu corpo mais do que
podia dar, vivia tensa, e acabei por ter problemas nos tendes
do p esquerdo. Impossibilitada de andar durante dois dias, percebi que s conseguiria chegar a Santiago se obedecesse ao meu
prprio ritmo.
Demorei mais que os outros, tive de andar sozinha por muitos trechos - mas foi s porque respeitei o meu prprio ritmo
que consegui concluir o caminho. Desde ento aplico isto a tudo
o que preciso de fazer na vida: respeito o meu tempo.
Desde muito jovem que descobri que a viagem era, para mim, a
melhor maneira de aprender. Continuo com esta alma de peregrino at hoje, e decidi relatar nesta crnica algumas das lies
que aprendi, na esperana de que possam ser teis a outros peregrinos como eu.
Evite os museus. O conselho pode parecer absurdo, mas
vamos reflectir um pouco: se voc est numa cidade estrangeira,
no  muito mais interessante ir em busca do presente que do
passado? O que acontece  que as pessoas se sentem obrigadas a
ir a museus, porque aprenderam desde pequeninas que viajar 
ir em busca deste tipo de cultura.  claro que os museus so
importantes, mas exigem tempo e objectividade - voc precisa
de saber o que  que deseja ver, para no sair com a impresso de
que viu uma srie de coisas fundamentais para a sua vida, mas
que no se lembra quais so.
Frequente os bares. Aqui, ao contrrio dos museus, a vida
da cidade manifesta-se. Os bares no so discotecas, mas lugares
onde toda a gente vai, bebe alguma coisa, pensa no tempo, e est
sempre disposto a uma conversa. Compre um jornal e deixe-se
ficar a contemplar o entra e sai. Se algum puxar conversa, por
menos importante que seja, continue a conversar: no se pode
julgar a beleza de um caminho olhando apenas para a sua porta.
Esteja disponvel. O melhor guia turstico  aquele que
mora no local, que conhece tudo, que tem orgulho da sua cidade, mas no trabalha numa agncia. Saia pelas ruas, escolha uma
pessoa com quem deseje conversar, e pea informaes (onde 
que fica tal catedral? Onde  que so os correios?) Se no der
resultado, tente outra - garanto-lhe que no final do dia vai encontrar uma excelente companhia.
Procure viajar sozinho, ou - se for casado - com o seu
cnjuge. Vai ter mais trabalho, ningum vai estar a cuidar de si,
mas s desta maneira poder realmente sair do seu pas. As viagens em grupo so uma maneira disfarada de estar numa terra
estrangeira, mas a falar a sua lngua materna, obedecendo ao
que ordena o chefe do rebanho, preocupando-se mais com as
fofocas do grupo do que com o lugar que se est a visitar.
No compare. No compare nada - nem preos, nem limpeza, nem qualidade de vida, nem meios de transporte, nada!
Voc no est a viajar para provar que vive melhor que os outros
- a sua procura, na verdade,  saber como os outros vivem, o
que podem ensinar, como se confrontam com a realidade e com
o extraordinrio da vida.
Entenda que toda a gente o entende. Mesmo que no fale
a lngua, no tenha medo: j estive em muitos stios onde no
havia maneira de comunicar atravs de palavras, e acabei sempre por encontrar apoio, orientao, sugestes importantes, e
at mesmo namoradas. Algumas pessoas acham que, se viajarem
sozinhas, vo sair  rua e perder-se para sempre. Basta ter o carto do hotel no bolso, e - numa situao extrema - apanhar um
txi e mostr-lo ao motorista.
No compre muitas coisas. Gaste o seu dinheiro em coisas
que no vai ter de transportar: boas peas de teatro, restaurantes, passeios. Hoje em dia, com a globalizao e a Internet, pode
comprar tudo sem ter de pagar excesso de bagagem.

No tente ver o mundo num ms. Mais vale ficar numa
cidade quatro a cinco dias, que visitar cinco cidades numa semana. Uma cidade  uma mulher caprichosa,  preciso tempo para
ser seduzida e se mostrar completamente.
Uma viagem  uma aventura. Henry Miller dizia que 
muito mais importante descobrir uma igreja de que nunca ningum ouviu falar, que ir a Roma e sentir-se obrigado a visitar a
Capela Sistina, com duzentos mil turistas a gritar aos seus ouvidos. V  Capela Sistina, mas deixe-se perder pelas ruas, andar
pelos becos, sentir a liberdade de estar a procurar algo que no
sabe o que , mas que - com toda a certeza - vai encontrar e que
mudar a sua vida.

 
Um conto de fadas
Maria Emilia Voss, uma peregrina de Santiago, conta a seguinte histria:
Por volta do ano 250 a.C, na China Antiga, um prncipe da
regio de Thing-Zda estava s vsperas de ser coroado imperador; antes, porm, de acordo com a lei, ele deveria casar-se.
Como se tratava de escolher a futura imperatriz, o prncipe
precisava de encontrar uma moa em quem pudesse confiar
cegamente. Aconselhado por um sbio, resolveu convocar todas as jovens da regio, para encontrar aquela que fosse mais
digna.
Uma velha senhora, serva do palcio h muitos anos, ao ouvir os comentrios sobre os preparativos para a audincia, sentiu
uma grande tristeza - pois a sua filha alimentava um amor secreto pelo prncipe.
Ao chegar a casa e relatar o facto  jovem, espantou-se ao
ouvir que ela tambm pretendia comparecer.
A senhora ficou desesperada:
-  filha, o que  que vais l fazer? Vo estar presentes apenas as mais belas e ricas moas da corte. Tira essa ideia insensata
da cabea! Eu sei que deves estar a sofrer, mas no transformes o
sofrimento em loucura!
E a filha respondeu:
-        Querida me, no estou a sofrer e muito menos fiquei doida; sei que nunca poderei ser a escolhida, mas  a minha oportunidade de ficar pelo menos 
alguns momentos perto do prncipe,
isso j me faz feliz - mesmo sabendo que o meu destino  outro.
A noite, quando a jovem chegou ao palcio, l estavam efectivamente todas as mais belas moas, com as mais belas roupas,
as mais belas jias, e dispostas a lutar de qualquer forma pela
oportunidade que lhes era oferecida.
Rodeado da sua corte, o prncipe anunciou o desafio:
-        Darei a cada uma de vocs uma semente. Aquela que, dentro de seis meses, me trouxer a flor mais bela, ser a futura imperatriz da China.
A moa pegou na sua semente, plantou-a num vaso e, embora
no tivesse muita habilidade nas artes da jardinagem, cuidava da
terra com muita pacincia e ternura - pois pensava que se a beleza das flores surgisse na mesma proporo do seu amor, ela
no precisava de se preocupar com o resultado.
Passaram-se trs meses e no brotou nada. A jovem tentou de tudo um pouco, falou com lavradores e camponeses, que lhe
ensinaram os mais variados mtodos de cultivo, mas no conseguiu que nenhum desse resultado. Sentia-se cada dia mais longe
do seu sonho, embora o seu amor continuasse to vivo como
dantes.
Por fim, os seis meses esgotaram-se, e nada nasceu no seu
vaso. Mesmo sabendo que nada tinha para mostrar, estava consciente do seu esforo e dedicao durante todo aquele tempo,
de modo que comunicou  sua me que voltaria ao palcio, na
data e hora combinadas. Secretamente, sabia que este seria o seu
ltimo encontro com o bem-amado, e no queria perd-lo por
nada deste mundo.
Chegou o dia da nova audincia. A jovem apareceu com o
seu vaso sem planta, e viu que todas as outras pretendentes tinham conseguido bons resultados: cada uma tinha uma flor mais
bela do que a outra, das mais variadas formas e cores.
Finalmente, chega o to esperado momento: o prncipe entra
e observa cada uma das pretendentes com muito cuidado e ateno. Aps passar por todas, ele anuncia o resultado - e indica a
filha da sua serva como a sua nova esposa.
Todos os presentes comeam a protestar, dizendo que ele escolheu precisamente aquela que no tinha conseguido cultivar planta nenhuma.
Foi ento que, calmamente, o prncipe esclareceu a razo do
seu desafio:
- Esta foi a nica que cultivou a flor que a tornou digna de
se tornar uma imperatriz: a flor da honestidade. Todas as sementes que entreguei eram estreis, e no podiam nascer de forma
alguma.
 
Ao maior dos escritores
brasileiros
Eu tinha editado, com os meus prprios recursos, um livro
chamado Os Arquivos do Inferno (do qual muito me orgulho, e
se no est actualmente nas livrarias  to-somente porque ainda no me atrevi a fazer uma reviso completa do mesmo).
Todos ns sabemos como  difcil publicar um trabalho, mas
existe algo ainda mais complicado: fazer com que ele seja colocado nas livrarias. Todas as semanas a minha mulher ia visitar
os livreiros num lado da cidade, e eu ia para outra regio fazer
o mesmo.
Foi assim que, com exemplares do meu livro debaixo do brao,
ela ia a atravessar a Avenida Copacabana, e eis que Jorge Amado
e Zlia Gattar esto do outro lado da calada! Sem pensar muito, ela abordou-os e disse que o marido era escritor. Jorge e
Zlia (que provavelmente deviam ouvir isso todos os dias) trataram-na com muito carinho, convidaram-na para um caf, pediram-lhe um exemplar, e 
acabaram por desejar que tudo corresse
bem com a minha carreira literria.
Tu s doida!, disse eu, quando ela voltou para casa. No
vs que ele  o escritor brasileiro mais importante?
Precisamente por isso, respondeu ela. Quem chega onde
ele chegou, tem de ter o corao puro.
As palavras de Christina no podiam ser mais acertadas: o
corao puro. E Jorge, o escritor brasileiro mais conhecido internacionalmente, era (e ) a grande referncia do que acontecia
na nossa literatura.
Um belo dia, porm, O Alquimista, escrito por outro brasileiro, entra na lista dos mais vendidos de Frana e, em poucas
semanas, chega ao primeiro lugar.
Dias depois, recebo pelo correio um recorte da lista, juntamente com uma carta sua, afectuosa, cumprimentando-me pelo
feito. Nunca entrariam no corao puro de Jorge Amado sentimentos como o cime.
Alguns jornalistas - brasileiros e estrangeiros - comeam a
provoc-lo, fazendo perguntas mal-intencionadas. Jorge, em instante algum se deixa levar pelo lado fcil da crtica destrutiva, e
passa a ser o meu defensor num momento particularmente difcil, j que a maior parte dos comentrios sobre o meu trabalho
eram muito duros.
Recebo finalmente o meu primeiro prmio literrio no estrangeiro - mais precisamente, em Frana. Mas acontece que, no dia
da entrega, terei de estar em Los Angeles por causa de compromissos assumidos anteriormente. Anne Carrire, a minha editora, fica desesperada. Fala 
com os editores americanos, que por
sua vez se recusam a abrir mo das minhas conferncias j programadas.
A data do prmio est a chegar, e o premiado no pode ir; o
que fazer? Anne, sem me consultar, liga para o Jorge Amado e
explica-lhe a situao. Nesse mesmo momento, Jorge oferece-se
para me representar na entrega do prmio.
E no se limita a isso: telefona ao embaixador brasileiro e
convida-o, faz um belssimo discurso, deixando todos os presentes emocionados.
O mais curioso de tudo isto,  que eu s vim a conhecer,
pessoalmente, o Jorge Amado quase um ano depois da entrega
do prmio. Mas a sua alma, ah, essa eu aprendera a admirar
como admiro os seus livros: um escritor famoso que nunca desprezou os principiantes, um brasileiro que fica contente com o
sucesso dos seus conterrneos, um ser humano sempre pronto a
ajudar quando lhe pedem algo.

Do encontro que no
aconteceu
Creio que, pelo menos uma vez por semana, estamos diante de
um estranho com quem gostaramos de conversar, mas no temos coragem. H alguns dias recebi uma carta a respeito deste
assunto, enviada por um leitor a quem chamarei Antnio. Transcrevo alguns trechos do que lhe aconteceu:
Eu caminhava pela Gran Via quando avistei uma senhora,
baixinha, de pele clara, bem vestida, a pedir esmola a todos os
que passavam. Assim que me aproximei, implorou-me algumas
moedas para uma sanduche. Como no Brasil as pessoas que
pedem algo esto sempre com roupas velhas e sujas, resolvi no
lhe dar nada e segui adiante. O seu olhar, porm, deixou-me
com uma sensao estranha.
Fui para o hotel e, de repente, senti uma vontade incompreensvel de voltar e dar-lhe uma esmola - eu estava de frias,
tinha acabado de almoar, tinha dinheiro no bolso, e deve ser
muito humilhante ficar numa rua, exposta aos olhares de todos,
a pedir alguma coisa.
Voltei ao stio onde a tinha visto. Ela j l no estava, andei
pelas ruas circundantes, e nada. No dia seguinte, repeti a peregrinao, mas no a consegui encontrar.
A partir desse dia, deixei de conseguir dormir bem. Voltei
para Fortaleza, falei com uma amiga, ela disse-me que uma conexo importante no tinha acontecido, que eu devia pedir a ajuda
de Deus; rezei, e no sei como ouvi uma voz a dizer que tinha de
encontrar a mendiga novamente. Acordava todas as noites a chorar compulsivamente; decidi que no podia continuar assim, juntei dinheiro, comprei um 
novo bilhete de avio, e voltei a Madrid
em busca da mulher.
Comecei uma busca sem fim, no fazia outra coisa a no ser
procur-la, mas o tempo ia passando e o dinheiro acabava. Tive
de ir a uma agncia de viagens para remarcar o meu bilhete - j
que s estava decidido a voltar ao Brasil quando lhe pudesse dar
a esmola que tinha deixado de dar.
Quando ia a sair da agncia, tropeo num degrau e sou atirado em direco a algum: a mulher que procurava.
Num gesto automtico levei a mo ao bolso, tirei o que tinha
e estendi-lho; senti uma profunda paz, agradeci a Deus pelo reencontro sem palavras, pela segunda oportunidade.
Depois disso, j voltei a Espanha vrias vezes, sei que no
voltarei a encontr-la, mas cumpri o que o meu corao pedia.

 
O casal que sorria
(Londres, 1977)
Pus um cartaz na janela que dizia Chamem novamente. Tudo
o que consegui foi que um bando de bbedos, uma noite, comeasse a gritar todos os palavres possveis, e a vizinha - com
quem eu tanto me preocupara - acabasse por fazer queixa ao
proprietrio.
Nunca mais os vi. Era casado com uma rapariga chamada Ceclia, e - num
perodo em que tinha decidido abandonar tudo o que no me
entusiasmava - fomos morar para Londres. Vivamos no segundo andar de um pequeno apartamento em Palace Street, e tnhamos muita dificuldade em 
fazer amigos. Todas as noites,
porm, um jovem casal, ao sair do pub ao lado, passava em
frente  nossa janela e acenava, gritando, para que descssemos.
Eu ficava preocupadssimo com os vizinhos; nunca descia,
fingindo que no era comigo. Mas o casal repetia sempre a gritaria, mesmo quando ningum estava  janela.
Uma noite, desci e protestei por causa do barulho. Nesse
momento, o sorriso dos dois transformou-se em tristeza; pediram desculpa, e foram-se embora. Ento, naquela noite, dei-me
conta de que, embora procurasse amigos, estava mais preocupado com o que os vizinhos iam dizer.
Decidi que da vez seguinte os convidaria para subir e beber
alguma coisa connosco. Durante uma semana inteira, pus-me 
janela,  hora a que costumavam passar, mas no apareceram.
Passei a frequentar o pub, na esperana de v-los, mas o dono
no os conhecia.


A segunda oportunidade
Sempre me fascinou a histria dos livros sibilinos - comentava eu com a Mnica, minha amiga e agente literria, enquanto
viajvamos de carro para Portugal. -  preciso aproveitar as oportunidades, ou elas perdem-se para sempre.
As sibilas, feiticeiras capazes de prever o futuro, viviam na
Antiga Roma. Um belo dia, uma delas apareceu no palcio do
imperador Tibrio com nove livros; disse que ali estava o futuro
do Imprio, e pediu dez talentos4 de ouro pelos textos. Tibrio
achou muito caro e no quis comprar.
A sibila saiu, queimou trs livros e voltou com os seis restantes.
So dez talentos de ouro, disse. Tibrio riu-se e mandou-a embora; como  que tinha coragem de vender seis livros pelo mesmo preo de nove?
A sibila queimou mais trs livros e apresentou-se a Tibrio
com os trs volumes que restavam: Custam os mesmos dez talentos de ouro. Intrigado, Tibrio acabou por comprar os trs
volumes, apenas conseguindo ler uma pequena parte do futuro.

. Moeda da Antiga Grcia e Roma que variava entre vinte e vinte e
sete quilos de ouro ou prata.

Quando acabei de contar a histria, dei-me conta de que estvamos a passar por Ciudad Rodrigo, na fronteira de Espanha
com Portugal. Ali, h quatro anos, tinham-me tentado vender
um livro, e eu no o comprei.
-        Vamos parar. Creio que o facto de me ter lembrado dos
livros sibilinos foi um sinal para corrigir um erro do passado.
Na primeira viagem de divulgao dos meus livros pela Europa, resolvera almoar naquela cidade. Depois, fui visitar a catedral, e encontrei um padre. Veja 
como o sol da tarde torna tudo
mais bonito aqui dentro, disse ele. Gostei do comentrio, conversmos um bocado, e ele guiou-me pelos altares, claustros e
jardins interiores do templo. No fim, ofereceu-me um livro que
tinha escrito sobre a igreja; mas eu no o quis comprar. Quando
sa, senti-me culpado; sou escritor, e estava na Europa a tentar
vender o meu trabalho - porque no comprar o livro do padre,
por solidariedade? Mas esqueci-me do episdio. At quele momento.
Parei o carro; eu e a Mnica encaminhmo-nos para a praa
em frente  igreja, onde uma mulher olhava para o cu.
Boa tarde. - Vim aqui para encontrar um padre que escreveu um livro sobre esta igreja.
O padre, que se chamava Stanislau, morreu faz agora um
ano - respondeu ela.
Senti uma imensa tristeza. Porque  que eu no tinha dado ao
padre Stanislau a mesma alegria que eu sentia quando via al-
gum com um dos meus livros?
-        Foi um dos homens mais bondosos que conheci - continuou a mulher. - Vinha de uma famlia humilde, mas conseguiu
tornar-se um especialista em arqueologia; ajudou-me a conseguir uma bolsa no colgio para o meu filho.
Contei-lhe o que fazia ali.
-        No se culpe  toa, meu filho - disse. - V outra vez visitar
a catedral.
Achei que era um sinal, e fiz o que ela me mandava. S havia
um padre num confessionrio,  espera dos fiis que no vinham. Encaminhei-me para ele; o padre fez sinal para que me
ajoelhasse, mas eu interrompi-o.
-        No me quero confessar. Vim apenas comprar um livro
sobre esta igreja, escrito por um homem chamado Stanislau.
Os olhos do padre brilharam. Saiu do confessionrio e voltou minutos depois com um exemplar.
-        Que alegria ter vindo s por isto! - disse. - Sou irmo do
padre Stanislau, e isso enche-me de orgulho! Ele deve estar no
cu, contente por ver que o seu trabalho tem importncia!
Com tantos padres ali, e eu tinha precisamente encontrado o
irmo de Stanislau. Paguei o livro, agradeci, ele abraou-me.
Quando j ia a sair, ouvi a sua voz.
-        Veja como o sol da tarde torna tudo mais bonito aqui dentro! - disse.
Eram as mesmas palavras que o padre Stanislau me dissera h
quatro anos. Existe sempre uma segunda oportunidade na vida.


O australiano e
o anncio de jornal
Estou no porto de Sydney, a olhar para a bela ponte que une as
duas partes da cidade, quando um australiano se aproxima e me
pede para ler um anncio de jornal.
-        So letras muito pequenas - diz ele. - No consigo l-las.
Eu tento, mas estou sem os meus culos de leitura. Peo desculpa ao homem.
-        No tem a mnima importncia - diz ele. - Quer saber uma
coisa? Eu acho que Deus tambm tem a vista cansada. No porque esteja velho, mas porque assim escolheu. Desse modo, quando
algum faz alguma coisa errada, Ele no consegue ver bem, e
acaba por perdoar a pessoa, pois no quer cometer uma injustia.
-        E quanto s coisas boas? - pergunto.
-        Bem, Deus nunca se esquece dos culos em casa - riu-se o
australiano, afastando-se.


 
O pranto do deserto
Um amigo meu volta de Marrocos com uma bela histria sobre
um missionrio que, assim que chegou a Marraquexe, decidiu
que passearia todas as manhs pelo deserto, que ficava nos limites da cidade. Na sua primeira caminhada, observou um homem
deitado na areia, com a mo a acariciar o solo e o ouvido colado
 terra.
 um doido, disse para si prprio.
Mas a cena repetiu-se todos os dias e, passado um ms, intrigado com aquele comportamento inslito, decidiu dirigir-se
ao estranho. Com muita dificuldade - j que ainda no falava fluentemente rabe - ajoelhou-se ao seu lado.
-        O que  que est a fazer?
-        Fao companhia ao deserto, e consolo-o pela sua solido i
pelas suas lgrimas.
-        No sabia que o deserto era capaz de chorar.
Ele chora todos os dias, porque tem o sonho de se tornar
til ao homem, e de se transformar num imenso jardim, onde
se possa cultivar cereais, flores e carneiros.
Ento diga ao deserto que ele cumpre bem a sua misso
comentou o missionrio. - Cada vez que caminho por aqui, percebo a verdadeira dimenso do ser humano, pois este espao
aberto permite-me ver como somos pequenos diante de Deus.
Quando olho para esta extenso de areia, imagino os milhes de pessoas no mundo que foram criadas de forma igual,
embora o mundo nem sempre seja justo para todas. As suas montanhas ajudam-me a meditar. Ao ver o Sol a nascer no horizonte,
a minha alma enche-se de alegria, e aproximo-me do Criador.
O missionrio deixou o homem, e regressou aos seus afazeres
dirios. Qual no foi a sua surpresa, na manh seguinte, ao encontr-lo no mesmo lugar e na mesma posio.
-        Comentou com o deserto tudo o que eu lhe disse? - perguntou.
O homem acenou afirmativamente com a cabea.
-        E mesmo assim ele continua a chorar?
-        Consigo ouvir cada um dos seus soluos. Agora chora porque passou milhares de anos a pensar que era completamente
intil, e desperdiou esse tempo todo a blasfemar contra Deus
pelo seu destino.
-        Pois diga-lhe que embora o ser humano tenha uma vida
muito mais curta, tambm passa muitos dos seus dias a pensar
que  intil. Raramente descobre a razo do seu destino, e acha
que Deus foi injusto com ele. Quando, finalmente, acontece algo
que lhe mostra o porqu de ter nascido, acha que  muito tarde
para mudar de vida, e continua a sofrer. E, tal como o deserto, culpa-se pelo tempo que perdeu.
No sei se o deserto ouvir - disse o homem. - Ele j est
acostumado com a dor, e no consegue ver as coisas de outra
mameira.
Ento vamos fazer aquilo que eu fao sempre que sinto que
!as pessoas perderam a esperana. Vamos rezar.
Os dois ajoelharam-se e rezaram: um virou-se em direco a
sul, porque era muulmano; o outro colocou as mos juntas
em prece, porque era catlico. Rezaram, cada um ao seu Deus,
que  sempre o mesmo, embora as pessoas insistam em cham-
-lo por nomes diferentes.
No dia seguinte, quando o missionrio retomou a sua
caminhada matinal, o homem j l no estava. No lugar onde
costumava abraar a areia, o solo parecia molhado, j que uma
pequena fonte tinha nascido. Nos meses que se seguiram, esta
fonte cresceu, e os habitantes da cidade construram um poo
em volta dela.
Os bedunos chamam ao lugar Poo das lgrimas do deserto.
Dizem que todo aquele que beber da sua gua conseguir transformar o motivo do seu sofrimento na razo da sua alegria; e
acabar por encontrar o seu verdadeiro destino.
 
Roma: Isabella volta
do Nepal
Encontro-me com Isabella num restaurante que costumamos
frequentar porque est sempre vazio, embora a comida seja excelente. Ela conta-me que, durante a sua viagem ao Nepal, passou algumas semanas num 
mosteiro. Uma tarde, quando passeava nas redondezas com um monge, ele abriu a mochila que trazia
consigo, e ficou durante algum tempo a olhar para o seu contedo. Logo de seguida, comentou com a minha amiga:
-        Sabe que as bananas podem ensinar-lhe o significado da
existncia?
Tirou uma banana podre de dentro da mochila, e deitou-a
fora.
-        Esta  a vida que passou, no foi aproveitada no momento
certo, e agora  tarde de mais.
De seguida, tirou da mochila uma banana ainda verde, mostrou-a, e voltou a guard-la.
-        Esta  a vida que ainda no aconteceu,  preciso esperar
pelo momento certo.
Finalmente, tirou uma banana madura, descascou-a e dividiu-a com Isabella.
-        Este  o momento presente. Saiba devor-lo sem medo ou
culpa.
        

Da arte da espada
H muitos sculos, na poca dos samurais, foi escrito no Japo
um texto sobre a arte espiritual de manejar a espada: A Compreenso Impassvel - tambm conhecido como O Tratado de
Tahlan, o nome do seu autor (que era, simultaneamente, mestre
de esgrima e monge zen). Adaptei alguns trechos:
Manter a calma: Quem compreende o sentido da vida sabe
que nada tem incio e nada tem fim e, portanto, no fica angustiado. Luta pelo que acredita sem tentar provar nada a ningum,
guardando a calma silenciosa de quem teve a coragem de escolher o seu destino.
Isto vale para o amor e para a guerra.
Deixar o corao estar presente: Quem confia no seu poder
de seduo, na capacidade de dizer as coisas no momento certo,
no uso correcto do corpo, fica surdo para a voz do corao.
Esta s pode ser ouvida quando estamos em perfeita sintonia
com o mundo  nossa volta, e nunca quando nos julgamos o
centro do Universo.
Isto vale para o amor e para a guerra.
Aprender a ser o outro: Estamos to concentrados naquilo
que julgamos ser a melhor atitude que nos esquecemos de algo
muito importante: para atingir os nossos objectivos, precisamos
de outras pessoas. Portanto, no  apenas necessrio observar o
mundo, mas imaginar-se na pele dos outros, e saber como acompanhar os seus pensamentos.
Isto vale para o amor e para a guerra.
Encontrar o mestre correcto: O nosso caminho vai sempre
cruzar-se com muita gente que, por amor ou por soberba, nos
quer ensinar algo. Como distinguir o amigo do manipulador?
A resposta  simples: o verdadeiro mestre no  aquele que ensina um caminho ideal, mas o que mostra ao seu aluno as muitas
vias de acesso at  estrada que ele precisar de percorrer para
se encontrar com o seu destino. A partir do momento em que
encontra esta estrada, o mestre j no o pode ajudar mais, porque os seus desafios so nicos.
Isto no vale nem para o amor, nem para a guerra - mas sem
compreender este item, no chegaremos a lugar algum.
Escapar das ameaas: Pensamos muitas vezes que a atitude
ideal  dar a vida por um sonho: nada mais errado que isto. Para
atingir um sonho, precisamos de conservar a nossa vida e, portanto,  obrigatrio saber como evitar aquilo que nos ameaa.
Quanto mais premeditarmos os nossos passos, mais hipteses
temos de errar - porque no estamos a levar em considerao os
outros, os ensinamentos da vida, a paixo e a calma. Quanto
mais acharmos que temos o controlo, mais distantes estaremos
de controlar qualquer coisa. Uma ameaa no d avisos, e uma
reaco rpida no pode ser programada como um passeio durante a tarde de domingo.
Portanto, se quiser entrar em harmonia com o seu amor ou
com o seu combate, aprenda a reagir rapidamente. Atravs da
observao educada, no deixe que a sua suposta experincia de
vida o transforme numa mquina: use essa experincia para ouvir sempre a voz do corao. Mesmo que no esteja de acordo
com o que esta voz est a dizer, respeite-a e siga os seus conselhos: ela sabe qual  o melhor momento para agir, e o melhor
momento para evitar a aco.
Isso tambm vale para o amor e para a guerra.
        

O sabor de ganhar
Nas montanhas azuis
.Logo no dia a seguir  minha chegada  Austrlia, o meu editor
leva-me para uma reserva natural perto da cidade de Sydney.
Ali, no meio das florestas que cobrem um local conhecido como
Montanhas Azuis, existem trs formaes rochosas em forma de
obelisco.
- So as Trs Irms - diz o meu editor, e conta-me a seguinte
lenda:
Um feiticeiro passeava com as suas trs irms quando se aproximou o mais famoso guerreiro daqueles tempos.
Quero casar-me com uma destas belas moas, disse.
Se uma delas se casar, as outras duas vo achar-se feias. Estou  procura de uma tribo onde os guerreiros possam ter trs
mulheres, respondeu o feiticeiro, afastando-se.
E, durante anos, caminhou pelo continente australiano, sem
conseguir encontrar essa tribo.
Pelo menos uma de ns podia ter sido feliz, disse uma das
irms, quando j estavam velhas e cansadas de tanto andar.
Eu estava errado, respondeu o feiticeiro. Mas agora  tarde.
E transformou as trs irms em blocos de pedra, para qui-
quem por ali passasse pudesse compreender que a felicidade de
um no significa a tristeza de outros.
ash Hejazi, o meu editor iraniano, contou-me a histria de
um homem que, em busca da santidade, resolveu subir a uma
alta montanha, levando apenas a roupa do corpo e ali permanecendo a meditar o resto da sua vida.
Rapidamente percebeu que uma roupa no era suficiente,
porque depressa ficava suja. Desceu a montanha, foi at  aldeia
mais prxima e pediu outras vestimentas. Como todos sabiam
que o homem estava em busca da santidade, entregaram-lhe um
novo par de calas e uma camisa.
O homem agradeceu e voltou a subir at  ermida que estava
a construir no alto do monte. Passava a noite a fazer as paredes,
os dias entregues  meditao, comia os frutos das rvores e
bebia a gua de uma nascente prxima.
Um ms depois, descobriu que um rato costumava roer a
roupa extra que deixava a secar. Como queria estar concentrado apenas no seu dever espiritual, desceu novamente at ao
vilarejo, e pediu que lhe arranjassem um gato. Os moradores,
por respeitarem a sua busca, atenderam o pedido.
Passados sete dias, o gato estava quase morto de inanio,
porque no conseguia alimentar-se de frutas, e no havia mais
ratos naquele local. Voltou  aldeia em busca de leite; como os
camponeses sabiam que no era para ele - que, afinal de contas,
resistia sem comer nada alm do que a natureza lhe oferecia -,
voltaram a dar-lhe ajuda.
O gato acabou rapidamente com o leite, de modo que o homem pediu que lhe emprestassem uma vaca. Como a vaca dava
mais leite que o suficiente, ele passou tambm a beb-lo, para
no o desperdiar. Em pouco tempo - a respirar o ar da montanha, a comer fruta, a meditar, a beber o leite e a fazer exerccio
- transformou-se num modelo de beleza. Uma jovem que subira
a montanha para procurar um cordeiro acabou por se apaixonar, e convenceu-o de que precisava de uma esposa para cuidar
das tarefas da casa, enquanto meditava em paz.
Trs anos depois, o homem estava casado, com dois filhos,
trs vacas e um pomar de rvores frutferas, gerindo um lugar de
meditao, com uma gigantesca lista de espera de pessoas que
queriam conhecer o milagroso templo da eterna juventude.
Quando algum lhe perguntava como tinha comeado aquilo
tudo, ele dizia:
- Duas semanas aps ter aqui chegado, tinha apenas duas
peas de roupa. Um rato comeou a roer uma delas, e...
Mas ningum se interessava pelo final da histria; tinham a
certeza de que era um sagaz homem de negcios, a tentar inventar uma lenda para poder aumentar ainda mais o preo da estada
no templo.
 
A cerimnia do ch
No Japo, participei na conhecida cerimnia do ch. Entra-se num pequeno quarto, o ch  servido, e nada mais. S que 
tudo feito com tanto ritual e protocolo, que uma prtica quotidiana se transforma num momento de comunho com o Universo.
O Mestre do ch, Oskakusa Kasuko, explica em que  que
consiste:
A cerimnia  a adorao do belo e do simples. Todo o seu
esforo se concentra na tentativa de atingir a Perfeio atravs
dos gestos imperfeitos da vida quotidiana. Toda a sua beleza consiste no respeito com que  realizada.
Se um mero encontro para beber ch nos pode transportar
at Deus,  bom ficarmos atentos s outras dezenas de oportunidades que um simples dia nos oferece.


A nuvem e a duna
 Toda a gente sabe que a vida das nuvens  muito movimentada,
mas tambm muito curta, escreve Bruno Ferrero. E vamos a
mais uma histria:
Uma jovem nuvem nasceu no meio de uma grande tempestade no Mar Mediterrneo. Mas nem sequer teve tempo de ali
crescer; um vento forte empurrou todas as nuvens em direco a
frica.
Assim que chegaram ao continente, o clima mudou: um sol
generoso brilhava no cu, e em baixo estendia-se a areia dourada do deserto do Sahara. O vento continuou a empurr-las em
direco s florestas do Sul, j que no deserto quase no chove.
Contudo, tal como acontece com os jovens humanos, tam-
Tambm acontece com as jovens nuvens: ela resolveu desgarrar-se
dos seus pais e amigos mais velhos para conhecer o mundo.
- O que  que ests a fazer? - protestou o vento. - O deserto
 todo igual! Volta para a formao, e vamos at ao centro de
frica, onde existem montanhas e rvores deslumbrantes!
Mas a jovem nuvem, rebelde por natureza, no obedeceu; pouco
a pouco, foi baixando de altitude, at conseguir planar numa brisa suave, generosa, perto das areias douradas. Depois de muito
passear, reparou que uma das dunas estava a sorrir para ela.
Viu que ela tambm era jovem, recm-formada pelo vento
que acabara de passar. Nesse mesmo instante, apaixonou-se pela
sua cabeleira dourada.
-        Bom dia - disse. - Como  viver a em baixo?
Tenho a companhia das outras dunas, do sol, do vento, e
das caravanas que de vez em quando passam por aqui. s vezes
est muito calor, mas d para aguentar. E como  viver a em
cima?
Tambm existe o vento e o sol, mas a vantagem  que posso
passear pelo cu, e conhecer muitas coisas.
Para mim a vida  curta - disse a duna. - Quando o vento
voltar das florestas, vou desaparecer.

E isso entristece-te?
D-me a impresso de que no sirvo para nada.
-        Eu tambm sinto o mesmo. Assim que um novo vento passar, vou para sul e transformar-me-ei em chuva; contudo, esse 
o meu destino.
A duna hesitou um bocado, mas acabou por dizer:
-        Sabes que, aqui no deserto, ns chamamos Paraso  chuva?
Eu no sabia que me podia transformar em algo to importante - disse a nuvem, orgulhosa.
J ouvi vrias lendas contadas por velhas dunas. Elas dizem
que, depois de chover, ns ficamos cobertas de ervas e de flores.
Mas eu nunca saberei o que isso , porque no deserto muito
raramente chove.
Foi a vez da nuvem ficar hesitante. Mas, logo de seguida,
voltou a abrir o seu largo sorriso:
Se quiseres, eu posso cobrir-te de chuva. Embora tenha
acabado de chegar, estou apaixonada por ti, e gostava de ficar
aqui para sempre.
Quando te vi pela primeira vez no cu, tambm me apaixonei - disse a duna. - Mas se tu transformares a tua linda cabeleira branca em chuva, acabars por 
morrer.
- O amor nunca morre - disse a nuvem. - Ele transforma-se;
e eu quero mostrar-te o Paraso.
E comeou a acariciar a duna com pequenas gotas; assim permaneceram juntas por muito tempo, at que um arco-ris apareceu.
No dia seguinte, a pequena duna estava coberta de flores.
Outras nuvens que passavam em direco a frica, achavam que
ali estava parte da floresta de que andavam  procura, e despejavam mais chuva. Vinte anos depois, a duna tinha-se transformado num osis, que 
refrescava os viajantes com a sombra das suas
rvores.
Tudo porque, um dia, uma nuvem apaixonada no tivera medo
de dar a sua vida por amor.
 

Norma e as coisas boas
Em Madrid vive Norma, uma brasileira muito especial. Os espanhis chamam-lhe a av roqueira: tem mais de sessenta anos,
trabalha em vrios stios ao mesmo tempo, est sempre a inventar promoes, festas, concertos musicais.
Uma vez, l pelas quatro da manh - quando eu j no aguentava de cansao -, perguntei a Norma onde  que ela arranjava
tanta energia.
-        Eu tenho um calendrio mgico. Se quiseres, posso mostrar-to.
Na tarde seguinte, fui a casa dela. Ela pegou numa antiga
folhinha, toda rabiscada.
-        Bem, hoje  a descoberta da vacina contra a poliomielite -
disse. - Vamos comemorar, porque a vida  bela.
Norma tinha copiado, para cada um dos dias do ano, alguma
coisa boa que tinha acontecido naquela data. Para ela, a vida era
sempre um motivo de alegria.

21 de Junho de 2003,
Jordnia, Mar Morto
Na mesa exactamente ao lado estavam o rei e a rainha da Jordnia, o secretrio de Estado Colin Powell, o representante da
Liga rabe, o ministro dos Negcios Estrangeiros de Israel, o
Presidente da Repblica alemo, o Presidente do Afeganisto Ha-
mid Karzai, e outros nomes importantes envolvidos no processo
de guerra e paz que estamos a presenciar. Embora a temperatura
rondasse os 40 graus centgrados, uma suave brisa soprava no
deserto, um pianista tocava sonatas, o cu estava claro, as tochas
espalhadas pelo jardim iluminavam o local. Do outro lado do
Mar Morto podamos ver Israel e, no horizonte, o claro das
luzes de Jerusalm. Ou seja, tudo parecia estar em harmonia e
paz - e, de repente, apercebi-me de que aquele momento, longe
de ser uma aberrao da realidade, era na verdade um sonho de
todos ns. Embora o meu pessimismo tenha aumentado muito
no decorrer destes meses, se as pessoas ainda conseguem conversar, nem tudo est perdido. Mais tarde, a Rainha Rania comentou que o stio do encontro 
tinha sido escolhido pelo seu
carcter simblico: o Mar Morto  o lugar mais profundo da
superfcie da Terra (com efeito, 401 metros abaixo do nvel do
mar). Para ir mais fundo ainda, temos de mergulhar - mas neste
caso especfico, a salinidade da gua fora o corpo a voltar 
superfcie. E  assim com o longo e doloroso processo de paz no
Mdio Oriente: no  possvel ir mais fundo do que o estado
actual. Se eu tivesse ligado a TV naquele dia, teria ficado a saber
da morte de um colono judeu e de um jovem palestino. Mas eu
estava ali, naquele jantar, com a estranha sensao de que a calma
daquela noite se podia estender por toda a regio, que as pessoas
voltariam a conversar como conversavam naquele momento; a
utopia  possvel, os homens no podem descer mais fundo.
Se algum dia tiverem oportunidade de ir ao Mdio Oriente,
no deixem de visitar a Jordnia (um pas maravilhoso, acolhedor), de ir ao Mar Morto, de observar Israel da outra margem:
compreendero que a paz  necessria e possvel. A seguir, parte
do texto que escrevi e que li durante o evento, acompanhado
pelo improviso do genial violinista judeu Ivry Gitlis:
Paz no quer dizer o contrrio de Guerra.
Podemos ter paz no corao mesmo no meio das batalhas
mais ferozes, porque estamos a lutar pelos nossos sonhos. Quando todos os nossos amigos j perderam a esperana, a paz do
Bom Combate ajuda-nos a seguir em frente.
Uma me que pode alimentar o seu filho tem paz nos seus
olhos, embora as suas mos estejam a tremer, porque a diplomacia falhou, as bombas caem, os soldados morrem.
Um arqueiro que abre o seu arco tem paz na sua mente, mesmo que todos os msculos estejam tensos por causa do esforo
fsico.
Portanto, para os guerreiros da luz, paz no  o oposto de
guerra - porque eles so capazes de:
 Distinguir o que  passageiro do que  duradouro. Podem
lutar pelos seus sonhos e pela sua sobrevivncia, mas respeitam
os laos que foram desenvolvidos atravs do tempo, da cultura e
da religio.
Saber que os seus adversrios no so necessariamente os
seus inimigos.
Ter conscincia de que as suas aces afectaro cinco geraes futuras, e que sero os seus filhos e netos a beneficiar disso
ou a sofrer as consequncias.
Recordar o que diz o I Ching: a perseverana  favorvel.
Mas sem confundir perseverana com insistncia - as batalhas
que duram mais que o devido acabam por destruir o entusiasmo
necessrio para a reconstruo.
Para o guerreiro da luz, no existem abstraces; cada oportunidade de se transformar a si prprio  uma oportunidade de
transformar o mundo.
Para o guerreiro da luz, to-pouco existe pessimismo. Ele rema
contra a mar se for necessrio; pois, quando estiver velho e
cansado, poder dizer aos seus netos que veio a este mundo para
compreender melhor o seu vizinho, e no para condenar o seu
irmo.
 
No porto de San Diego,
Califrnia
.E/U estava a conversar com uma mulher sobre a Tradio da Lua
- um tipo de aprendizado feminino que trabalha em harmonia
com as foras da natureza.
-        Quer tocar numa gaivota? -, perguntou ela, ao olhar para
as aves na amurada do pier.
Claro que sim. Tentei algumas vezes, mas sempre que me aproximava, elas voavam.
-        Tente sentir amor por ela. Depois, faa esse amor jorrar do
seu peito como um feixe de luz, que atinge o peito da gaivota.
E aproxime-se com calma.
Fiz o que ela mandou. Por duas vezes no consegui nada, mas
 terceira - como se tivesse entrado em transe - consegui tocar
na gaivota. Repeti o transe, com o mesmo resultado positivo.
O amor cria pontes onde isso parece impossvel, diz a minha amiga feiticeira.
Conto aqui esta experincia, para quem quiser tentar.
 

A arte da retirada
Um guerreiro da luz que confia de mais na sua inteligncia
acaba por subestimar o poder do adversrio.
 preciso no esquecer: h momentos em que a fora  mais
eficaz que a sagacidade. E quando estamos diante de um certo
tipo de violncia, no h brilho, argumentos, inteligncia ou
charme que possam evitar a tragdia.
Por isso, o guerreiro nunca subestima a fora bruta: quando
ela  irracionalmente agressiva, retira-se do campo de batalha -
at que o inimigo desgaste a sua energia.
Contudo,  bom deixar bem claro: um guerreiro da luz nunca se acobarda. A fuga pode ser uma excelente arte de defesa,
mas no pode ser usada quando o medo  grande.
Na dvida, o guerreiro prefere enfrentar a derrota e depois
curar as suas feridas - porque sabe que, se fugir, est a conferir
ao agressor um poder maior do que ele merece.
Ele pode curar o sofrimento fsico, mas ser eternamente perseguido pela sua fraqueza espiritual. Perante alguns momentos
difceis e dolorosos, o guerreiro encara a situao desvantajosa
com herosmo, resignao e coragem.
Para atingir o estado de esprito necessrio (j que est a entrar numa luta com desvantagem, e pode sofrer muito), o guerreiro precisa de perceber 
exactamente aquilo que lhe poder fazer mal. Okakura Kakuso comenta no seu livro o ritual japons
do ch:
Ns vemos a maldade nos outros, porque conhecemos a maldade atravs do nosso comportamento. Ns nunca perdoamos
aqueles que nos ferem, porque achamos que jamais seramos perdoados. Ns dizemos a verdade dolorosa ao prximo, porque a
queremos esconder de ns prprios. Ns mostramos a nossa fora, para que ningum possa ver a nossa fragilidade. Por isso,
sempre que estiver a julgar o seu irmo, tenha conscincia de
que  voc quem est no tribunal.
s vezes, esta conscincia pode evitar uma luta que s trar
desvantagens. Outras vezes, porm, no existe sada, resta apenas o combate desigual.
Sabemos que vamos perder, mas o inimigo, a violncia, no
nos deixou outra alternativa - excepto a cobardia, e isso no nos
interessa. Nesse momento,  preciso aceitar o destino, procurando ter em mente um texto do fabuloso Bhagavad Gita (Captulo II, 16-26):
O homem no nasce, e tambm nunca morre. Tendo vindo a
existir, nunca deixar de o fazer, porque  eterno e permanente.
Assim como um homem descarta as roupas usadas e passa a
usar roupas novas, a alma descarta o corpo velho e assume o
corpo novo.
Mas ela  indestrutvel; as espadas no a podem cortar, o
fogo no a queima, a gua no a molha, o vento nunca a resseca.
F est alm do poder de todas estas coisas.
Como o homem  indestrutvel,  sempre vitorioso (mesmo
nas suas derrotas), e por isso no deve nunca lamentar-se.
                       
 
 No meio da guerra
O militar na floresta
O cineasta Rui Guerra contou-me que - uma noite - conversava
com amigos numa casa do interior de Moambique. O pas estava em guerra, de modo que faltava tudo - desde a gasolina at 
electricidade.
Para passar o tempo, comearam a falar sobre o que gostariam de comer. Cada um foi dizendo o seu prato preferido, at
que chegou a vez do Rui.
Eu gostava de comer uma ma, disse, sabendo que era
impossvel encontrar fruta, por causa do racionamento.
Nesse exacto momento, ouviram um barulho. E uma reluzente, bela, suculenta ma entrou a rolar na sala - e parou  sua
frente!
Mais tarde, Rui descobriu que uma das moas que ali vivia
tinha sado para ir buscar fruta ao mercado negro. Ao subir as
escadas, no regresso, tropeou e caiu; o saco das mas que tinha comprado abriu-se, e uma delas rolou sala adentro.
Coincidncia? Bem, seria um termo muito pobre para explicar esta histria.
Ao subir uma trilha nos Pirenus, em busca de um lugar onde
pudesse praticar o arco e flecha, deparei com um pequeno acampamento do exrcito francs. Os soldados olharam para mim,
eu fingi que no estava a ver nada (todos ns temos um bocado
esta parania de sermos considerados espies...) e segui adiante.
Encontrei o lugar ideal, fiz os exerccios preparatrios de respirao, e eis que vejo um veculo blindado a aproximar-se.
Nesse instante, coloquei-me na defensiva, e preparei todas as
possveis respostas para as perguntas que me seriam feitas: tenho
permisso de usar o arco, o local  seguro, qualquer palavra em
contrrio cabe aos guardas florestais e no ao exrcito, etc... Mas
eis que salta do veculo um coronel, que me pergunta se eu sou o
escritor e relata alguns factos interessantssimos sobre a regio.
At que, vencendo a timidez quase visvel, diz que tambm
escreveu um livro: e conta-me a curiosa gnese do seu trabalho.
Ele e a mulher faziam doaes a uma criana leprosa que inicialmente vivia na ndia, mas que depois foi transferida para
Frana. Um belo dia, curiosos por conhecer a menina, foram at
ao convento onde as freiras se encarregavam de tomar conta
dela. Foi uma tarde linda, e, no final, uma freira pediu-lhe que
ajudasse na educao espiritual do grupo de crianas que ali vivia. Jean Paul Stau (este  o nome do militar) disse que no
tinha experincia nenhuma em aulas de catecismo, mas que ia
meditar, e perguntar a Deus o que fazer.
Naquela noite, depois das suas oraes, ouviu a resposta: Em
vez de dar respostas, tenta saber o que  que as crianas querem
perguntar.
A partir da, Stau teve a ideia de visitar vrias escolas e de
pedir aos alunos que escrevessem tudo o que gostariam de saber
a respeito da vida. Pediu que as perguntas fossem feitas por escrito, evitando dessa maneira que os mais tmidos tivessem medo
de se manifestar. O resultado do seu trabalho foi reunido num
livro - UEnfant qui posait toujours des questions5 (Ed. Altess,
Paris).
Aqui ficam algumas das perguntas:
Para onde vamos depois de morrer?
Porque  que ns temos medo dos estrangeiros?
Existem ovnis e extraterrestres?
Porque  que acontecem acidentes at com pessoas que acreditam em Deus?
O que  que significa Deus?
Porque  que nascemos, se acabamos por morrer?
Quantas estrelas h no cu?
Quem  que inventou a guerra e a felicidade?
O Senhor tambm ouve aqueles que no acreditam no mesmo Deus (catlico)?
Porque  que existem pobres e doentes?
Porque  que Deus criou os mosquitos e as moscas?
Porque  que o anjo da guarda no est por perto quando
estamos tristes?
Porque  que amamos certas pessoas e detestamos outras?
Quem  que deu o nome s cores?
Se Deus est no cu, e a minha me tambm l est porque
morreu, como  que Ele pode estar vivo?
Oxal alguns professores ou pais, ao lerem esta crnica, se
sintam estimulados a fazer o mesmo. Desta forma, em vez de
tentar impor a nossa compreenso adulta do Universo, acabaremos por recordar algumas das nossas perguntas de infncia -
que, na verdade, nunca foram respondidas.

Traduo do autor: A Criana Que Quer Saber Tudo.
 
 
 Numa cidade da
Alemanha
Encontro na Galeria
Dentsu

- Vejo-me  monumento interessante -, diz Robert.
O Sol do fim de Outono comea a descer. Estamos numa
cidade da Alemanha.
No vejo nada - respondo. - S uma praa vazia.
O monumento est debaixo dos teus ps -, insiste Robert.
Olho para o cho: o pavimento  feito de lajes iguais, sem
nenhuma decorao especial. No quero decepcionar o meu
amigo, mas no consigo ver nada de especial naquela praa.
Robert explica-me:
-        Chama-se O Monumento Invisvel. Gravado na parte de
baixo de cada uma destas pedras, est o nome de um local onde
foram mortos judeus. Artistas annimos criaram esta praa durante a Segunda Guerra Mundial, e iam acrescentando as lajes 
medida que novos locais de extermnio eram denunciados.
Mesmo que ningum visse, aqui ficava o testemunho, e o
futuro acabaria por descobrir a verdade sobre o passado.
trs homens, muito bem vestidos, apareceram no meu hotel
em Tquio.
- Ontem, o senhor deu uma conferncia na Galeria Dentsu -
disse um deles. - Eu entrei casualmente. Nesse momento, o senhor estava a dizer que nenhum encontro acontece por acaso.
Talvez fosse o momento de nos apresentarmos.
No perguntei como tinham descoberto o hotel em que estava hospedado, no perguntei nada; se as pessoas so capazes de
superar estas dificuldades, merecem todo o respeito. Um dos
trs homens entregou-me alguns livros de caligrafia japonesa.
A minha intrprete ficou excitada: o tal senhor era Kazuhito
Aida, filho de um grande poeta japons, de quem eu nunca tinha
ouvido falar.
E foi precisamente o mistrio da sincronicidade dos encontros que me permitiu conhecer, ler e partilhar com os leitores
desta crnica uma pequena parte do magnfico trabalho de Mit-
suo Aida (1924-1998), calgrafo e poeta, cujos textos nos trazem de volta a importncia da inocncia:
Porque viveu intensamente a sua vida,
a relva seca ainda chama a ateno de quem passa.
As flores apenas florescem,
e fazem isso da melhor maneira que podem.
O lrio branco no vale, que ningum v,
no precisa de se explicar a ningum;
vive apenas para a beleza.
Os homens, porm, no podem conviver com o apenas.
Se os tomates quiserem ser meles,
eles transformar-se-o numa farsa.
Muito me surpreende
que tanta gente esteja ocupada
com querer ser quem no ;
qual a graa de se transformar numa farsa?
Voc no precisa de fingir que  forte,
no tem de provar sempre que tudo est a correr bem,
no pode preocupar-se com o que os outros esto a pensar.
Chore se tiver necessidade,
 bom chorar at no restar nenhuma lgrima
(pois s ento poder voltar a sorrir).
Quero ser sempre uma pessoa capaz de ver as faces que no
so vistas - daqueles que no procuram a fama nem a glria, que
silenciosamente cumprem o papel que lhes  destinado pela vida.
Eu quero ser capaz disso, porque as coisas mais importantes da
existncia, as que nos constroem, nunca mostram as suas faces.
s vezes, vejo na TV as inauguraes de tneis e pontes. Eis o
que normalmente acontece: muitas celebridades e polticos locais pem-se em fila e, no centro, est o ministro ou o governador local. Depois,  cortada uma 
fita, e quando os directores de
obra voltam aos seus escritrios, encontram vrias cartas de reconhecimento e de admirao.
As pessoas que suaram e trabalharam por aquilo, que pegaram na picareta e na p, que se exauriram de trabalho no Vero,
ou que ficaram ao relento no Inverno para terminar a obra, nunca
so vistas; parece que a melhor parte fica para aqueles que no
derramaram o suor dos seus rostos.

Reflexes sobre o 11
de Setembro de 2001
s agora, passados alguns anos do que aconteceu, decido escrever sobre o assunto. Evitei tocar no tema muito cedo, de modo
que cada um de ns pudesse reflectir,  sua maneira, sobre as
consequncias dos atentados.
 sempre muito difcil aceitar que uma tragdia possa, de
alguma maneira, trazer resultados positivos. Quando vimos, horrorizados, o que mais parecia ser um filme de fico cientfica
as torres a desmoronarem-se e a levarem consigo na queda milhares de pessoas -, tivemos duas sensaes imediatas: a primeira, um sentimento de 
impotncia e de terror diante do que estava a acontecer. A segunda: o mundo nunca mais seria o mesmo.
O mundo nunca mais ser o mesmo,  verdade - mas, depois
deste tempo todo a reflectir sobre o assunto, ser que ainda resta a sensao de que todas aquelas pessoas morreram em vo.''
Ou que alguma coisa alm da morte, da poeira e do ao retorcido pode ser encontrada debaixo dos escombros do World Trailc
Center?
Creio que todos os seres humanos, em algum momento, acabam por ver uma tragdia a cruzar a sua vida; pode ser a destruio
de uma cidade, a morte de um filho, uma acusao sem provas,
uma doena que aparece sem avisar e traz a invalidez permanente.
A vida  um risco constante, e quem se esquece disso nunca estar
preparado para os desafios do destino. Quando estamos diante da
inevitvel dor que cruza o nosso caminho, ento somos obrigados a
procurar um sentido para o que est a acontecer, a superar o medo
e a dar incio ao processo de reconstruo.
A primeira coisa que devemos fazer, quando estamos diante
do sofrimento e da insegurana,  aceit-los como tal. No podemos trat-los como algo que no nos diz respeito, nem
transform-los numa punio que satisfaa o nosso eterno sentimento de culpa. Nos escombros do World Trade Center estavam
pessoas como ns, que se sentiam seguras ou infelizes, realizadas
ou a lutar para crescer, com famlia que as esperava em casa ou
desesperadas devido  solido da grande cidade. Eram americanos, ingleses, alemes, brasileiros, japoneses, pessoas de todos
os cantos do mundo unidas pelo destino comum - e misterioso -
de se encontrarem por volta das nove horas da manh num mesmo lugar, que era bonito para alguns, e opressivo para outros.
Quando as duas torres se desmoronaram, no foram apenas estas pessoas que morreram: todos ns morremos um pouco, e o
mundo inteiro ficou mais pequeno.
Quando estamos diante de uma enorme perda, seja ela material, espiritual ou psicolgica, precisamos de nos lembrar de uma
grande lio dos sbios: a pacincia, a certeza de que tudo 
provisrio nesta vida. Partindo da, ento vamos rever os nossos
valores. Se, por muitos anos, o mundo no voltar a ser um lugar
seguro, porque no usar esta sbita mudana e arriscar os nossos
dias com coisas que sempre desejmos fazer, mas que no tnhamos coragem? Quantas pessoas, naquela manh do dia 11 de
Setembro, estavam no World Trade Center contra a sua prpria
vontade, a tentar seguir uma carreira que no era a delas, a fazer
um trabalho de que no gostavam, apenas porque ali era um
lugar seguro, onde podiam garantir dinheiro suficiente para a
reforma e para a velhice?
                        
Essa foi a grande mudana do mundo, e os que foram enterrados sob os escombros dos dois edifcios, fazem-nos agora pensar nos nossos prprios valores. 
Quando as torres caram, levaram consigo sonhos e esperanas, mas tambm abriram um
espao no horizonte, obrigando-nos a reflectir sobre o sentido
das nossas vidas. E, precisamente a, a nossa atitude far toda a
diferena.
Conta uma velha histria que, logo a seguir aos bombardeios
em Dresden, um homem passou por um terreno cheio de escombros e viu trs operrios a trabalhar.
O que  que esto a fazer? - perguntou.
O primeiro operrio virou-se:
No est a ver? Eu estou a remover estas pedras!

No est a ver? Eu estou a ganhar o meu salrio! - disse o
segundo operrio.
No est a ver? - disse o terceiro operrio. - Eu estou a
reconstruir uma catedral!
Embora estas trs pessoas estivessem a fazer a mesma coisa,
apenas uma tinha a verdadeira dimenso do sentido da sua obra.
Esperemos que, no mundo que vir depois do dia 11 de Setembro de 2001, cada um de ns seja capaz de se levantar dos seus
prprios escombros emocionais, e construir a catedral com que
sempre sonhou, mas que nunca ousou criar.
Os sinais de Deus
lsabelita conta-me a seguinte lenda:
Um velho rabe analfabeto orava com tanto fervor, todas as
noites, que o rico chefe da grande caravana resolveu cham-lo:
Porque oras com tanta f? Como sabes que Deus existe,
quando nem sequer sabes ler?
Sei ler, sim senhor. Leio tudo o que o Grande Pai Celeste
escreve.
-        Como assim?
O humilde servo explicou-se:
-        Quando o senhor recebe uma carta de uma pessoa ausente,
como  que reconhece quem a escreveu?
-        Pela letra.
-        Quando o senhor recebe uma jia, como  que sabe quem a
fez?
-        Pela marca do ourives.
Quando ouve passos de animais,  volta da tenda, como 
que sabe se foi um carneiro, um cavalo ou um boi?
Pelos rastos - respondeu o chefe, surpreendido com aquele
questionrio.
 O velho crente convidou-o para fora da barraca e mostrou-
-lhe o cu.
- Senhor, aquelas coisas escritas l em cima, este deserto aqui
em baixo, nada disso pode ter sido desenhado ou escrito pelas
mos dos homens.


Solitrio no caminho
A vida  como uma grande corrida de bicicleta, cuja meta 
cumprir a Lenda Pessoal - aquilo que, segundo os antigos alquimistas,  a nossa verdadeira misso na Terra.
Na largada, estamos juntos - compartilhando camaradagem
e o entusiasmo. Mas,  medida que a corrida se desenvolve, a
alegria inicial cede lugar aos verdadeiros desafios: ao cansao, 
monotonia, s dvidas sobre a prpria capacidade. Reparamos
que alguns amigos j desistiram no fundo dos seus coraes -
ainda esto a correr, mas apenas porque no podem parar no
meio de uma estrada. Este grupo vai ficando cada vez mais numeroso, com todos a pedalar ao lado do carro de apoio - tambm
chamado Rotina -, onde conversam entre si, cumprem as suas
obrigaes, mas esquecem-se da beleza e dos desafios da estrada.
Ns acabamos por nos distanciar deles; e ento somos obrigados a enfrentar a solido, as surpresas com as curvas desconhecidas, os problemas com a 
bicicleta. Num dado momento,
depois de alguns tombos, sem ningum por perto para nos ajudar, acabamos por nos perguntar se vale a pena tanto esforo.
Sim, vale;  s no desistir. O padre Alan Jones diz que, para
que a nossa alma tenha condies de superar estes obstculos,
precisamos de Quatro Foras Invisveis: amor, morte, poder e
tempo.
 necessrio amar, porque somos amados por Deus.
 necessria a conscincia da morte, para entender bem a
vida.
 necessrio lutar para crescer - mas no se deixar iludir
pelo poder que chega com o crescimento, porque sabemos que
ele no vale nada.
Finalmente,  necessrio aceitar que a nossa alma - embora
seja eterna - est neste momento presa na teia do tempo, com as
suas oportunidades e limitaes; assim, na nossa solitria corrida de bicicleta, temos de agir como se o tempo existisse, fazer o
possvel para valorizar cada segundo, descansar quando necessrio, mas continuar sempre em direco  luz Divina, sem nos
deixarmos perturbar pelos momentos de angstia.
Estas Quatro Foras no podem ser tratadas como problemas a serem resolvidos, j que esto para alm de qualquer controlo. Precisamos de as aceitar, e 
de deixar que nos ensinem o
que precisamos de aprender.
Ns vivemos num Universo que , ao mesmo tempo, suficientemente gigantesco para nos envolver, e bastante pequeno para
caber no nosso corao. Na alma do homem est a alma do
mundo, o silncio da sabedoria. Enquanto pedalamos em direco  nossa meta,  sempre importante perguntarmo-nos: O que
 que h de bonito no dia de hoje? O Sol pode estar a brilhar,
mas se a chuva estiver a cair,  importante recordar-se de que
isso tambm significa que as nuvens negras, em breve, se vo
dissipar. As nuvens dissipam-se, mas o Sol permanece o mesmo,
e nunca desaparece - nos momentos de solido,  importante
lembrar-se disso.
Quando as coisas estiverem muito ms, no nos podemos
esquecer de que toda a gente j experimentou isso, independentemente da raa, da cor, da situao social, das crenas ou da
cultura. Uma bonita prece do mestre sufi Dhu'1-Nun (egpcio,
falecido em 861 a.C.) resume bem a atitude positiva que  necessria nestes momentos:
O Deus, quando presto ateno s vozes dos animais, ao
rudo das rvores, ao murmrio das guas, ao gorjeio dos pssaros, ao zunido do vento ou ao estrondo do trovo, percebo neles
um testemunho da Tua unidade; sinto que Tu s o supremo poder, a omniscincia, a suprema sabedoria, a suprema justia.
 Deus, reconheo-Te nas provaes por que estou a passar.
Permite,  Deus, que a Tua satisfao seja a minha satisfao.
Que eu seja a Tua alegria, aquela alegria que um pai sente por
um filho. E que eu me lembre de Ti com tranquilidade e determinao, mesmo quando  difcil dizer que Te amo.
 

O que  divertido
no homem
A volta ao mundo
depois de morta
Um homem perguntou ao meu amigo Jaime Cohen:
-        Quero saber o que  mais divertido nos seres humanos.
Cohen comentou:
-        Pensam sempre ao contrrio: tm pressa de crescer, e de-
pois suspiram pela infncia perdida. Perdem a sade para ter
dinheiro, e logo de seguida perdem o dinheiro para ter sade.
Pensam to ansiosamente no futuro que descuram o presente
e, assim, nem vivem o presente nem o futuro.
Vivem como se nunca fossem morrer, e morrem como se
nunca tivessem vivido.
Sempre pensei no que acontece enquanto espalhamos um pouco de ns prprios pela Terra. J cortei o cabelo em Tquio, as
unhas na Noruega, vi o meu sangue escorrer de uma ferida ao
subir uma montanha em Frana. No meu primeiro livro, Os Arquivos do Inferno (que nunca foi reeditado), especulava um bocado
sobre o tema, como se fosse necessrio semear um pouco do
prprio corpo em diversas partes do mundo, de modo que, numa
vida futura, algo nos parecesse familiar. Recentemente, li no jornal francs Le Figaro um artigo assinado por Guy Barret, sobre
um caso real ocorrido em Junho de 2001, quando algum levou
at s ltimas consequncias esta ideia.
Trata-se da americana Vera Anderson, que passou toda a sua
vida na cidade de Medford, Oregon. J avanada na idade, foi
vtima de um acidente cardiovascular, agravado por um enfisema
pulmonar, o que a obrigou a passar anos inteiros dentro do quarto,
sempre ligada a uma botija de oxignio. O facto em si j  um
suplcio, mas no caso de Vera a situao ainda era mais grave,
porque tinha sonhado percorrer o mundo e guardara as suas
economias para o fazer quando j estivesse reformada.
Vera conseguiu ser transferida para o Colorado, de modo a
poder passar o resto dos seus dias na companhia do filho, Ross.
Ali, antes que fizesse a sua ltima viagem - aquela da qual nunca
mais voltamos -, tomou uma deciso. J que nunca conseguira
sequer conhecer o seu pas, iria ento viajar depois de morta.
Ross foi at ao notrio local e registou o testamento da me:
quando morresse, gostaria de ser cremada. At a, nada de mais.
Mas o testamento continuava: as suas cinzas deviam ser colocadas em 241 sacos pequenos, que seriam enviados aos chefes das
estaes de correios dos 50 estados americanos e de cada um
dos 191 pases do mundo - de forma que pelo menos uma parte
do seu corpo acabasse por visitar os lugares com que sempre
sonhou.
Assim que Vera partiu, Ross cumpriu o seu ltimo desejo
com a dignidade que se espera de um filho. A cada remessa,
juntava uma pequena carta, onde pedia que dessem uma sepultura digna  sua me.
Todas as pessoas que receberam as cinzas de Vera Anderson
trataram o pedido de Ross com respeito. Nos quatro cantos da
Terra, criou-se uma silenciosa cadeia de solidariedade, onde simpatizantes desconhecidos organizaram cerimnias, os mais diversos ritos, levando sempre 
em conta o lugar que a falecida
senhora gostaria de conhecer.
Desta maneira, as cinzas de Vera foram aspergidas no lago
Titicaca, na Bolvia, seguindo as antigas tradies dos ndios
Aymara; no rio em frente ao palcio real de Estocolmo; na margem do Choo Praya na Tailndia; num templo xintosta no Japo; nos glaciares da Antrtida; 
no deserto do Sahara. As irms
de um orfanato na Amrica do Sul (a notcia no cita em que
pas) rezaram durante uma semana, antes de espalhar as cinzas
no jardim - e depois decidiram que Vera Anderson deveria ser
considerada uma espcie de anjo da guarda do local.
Ross Anderson recebeu fotografias dos cinco continentes, de
todas as raas, de todas as culturas, que mostravam homens e
mulheres a honrar o ltimo desejo da sua me. Quando vemos
um mundo to dividido como hoje, onde acreditamos que ningum se preocupa com o outro, esta ltima viagem de Vera
Anderson enche-nos de esperana ao saber que ainda existe respeito, amor e generosidade na alma do nosso prximo, por mais
distante que ele esteja.
 

As duas jias
Quem ainda quer
esta nota?
assan Said Amer conta a histria de um conferencista que
comeou um seminrio a segurar numa nota de 20 dlares e a
perguntar:
-        Quem quer esta nota de 20 dlares?
Vrias mos se levantaram, mas o conferencista pediu:
Antes de a entregar, preciso de fazer algo.
Amachucou-a com toda a fria, e insistiu:
Quem  que ainda quer esta nota?
As mos continuaram levantadas.
E se eu fizer isto?
Atirou-a contra a parede, deixou-a cair no cho, ofendeu-a,
pisou-a, e mais uma vez mostrou a nota - agora imunda e amachucada. Repetiu a pergunta, e as mos continuaram levantadas.
-        Vocs nunca se podem esquecer desta cena - comentou o
conferencista. - No interessa o que eu faa com este dinheiro,
ele continua a ser uma nota de 20 dlares. Muitas vezes na nossa
vida somos amachucados, pisados, maltratados, ofendidos; contudo, apesar disso, ainda valemos a mesma coisa.
Do padre cisterciense Marcos Garcia, em Burgos, Espanha: s
vezes, Deus retira uma determinada bno para que a pessoa
consiga compreend-Lo para alm dos favores e dos pedidos.
Ele sabe at que ponto pode pr  prova uma alma - e nunca vai
alm desse ponto.
Nesses momentos, nunca digamos "Deus abandonou-me".
Ele nunca faz isso; ns  que podemos, s vezes, abandon-Lo.
Se o Senhor nos coloca perante uma grande prova, tambm nos
d sempre as graas suficientes - eu diria, mais que suficientes
- para a ultrapassar.
A esse respeito, a leitora Camila Galvo Piva envia-me uma
histria interessante, intitulada As duas jias:
Um rabino muito religioso vivia feliz com a sua famlia -
uma esposa admirvel e dois filhos queridos. Uma vez, por causa
do trabalho, teve de se ausentar de casa por vrios dias. Precisamente quando estava fora, um grave acidente de carro matou os
dois rapazes.
Sozinha, a me sofreu em silncio. Mas sendo uma mulher
forte, sustentada pela f e pela confiana em Deus, suportou o
choque com dignidade e coragem. Contudo, como dar ao esposo a triste notcia? Embora sendo tambm um homem de f
j tinha sido internado devido a problemas cardacos, e a mulher temia que saber da tragdia o levasse  morte.
Restava apenas rezar para que Deus lhe aconselhasse
a melhor maneira de agir. Na vspera da chegada do marido
orou muito - e recebeu a graa de uma resposta.
No dia seguinte, o rabino voltou ao lar, abraou 
a esposa e perguntou pelos filhos. A mulher disse <|        
preocupasse com isso, que tomasse o seu banho e
Horas depois, os dois sentaram-se para almoar. Pediu-lhe 
pormenores sobre a viagem, ele contou tudo o que tinha 
vivido, falou sobre a misericrdia de Deus  mas perguntou-lhe
pelos rapazes.
A esposa, numa atitude um tanto embaraada
disse-lhe:
-        Deixa os filhos, depois preocupamo-nos com eles.
Eu quero que me ajudes a resolver um problema
grave.
O marido, j preocupado, perguntou:
-        O que  que aconteceu? Achei-te abatida! <         
Diz-me o que te passa pela alma, e tenho a certeza de q
resolveremos qualquer problema, com a ajuda de Deus
-        Enquanto estiveste ausente, um amigo nos        
deixou duas jias de valor incalculvel.
So jias muito preciosas! Nunca vi algo to belo.
eu no estou disposta a devolv-las, pois
quero ficar elas. O que  que me dizes?
-        Ora, mulher! No estou a perceber-te.
Tu nunca cultivaste vaidades!
-         que nunca tinha visto jias assim! No
suporto a ideia de as perder para sempre!
E o rabino respondeu com firmeza:
Ningum perde o que no possui. Vamos devolv-las, eu ajudar-te-ei a superar a falta delas.
Faremos isso juntos, ainda hoje.
Pois bem, meu querdo, seja feita a sua vontade. O tesouro
devolvido. Na verdade, isso j foi feito.
As jias preciosas eram os nossos filhos. Deus confiou-os 
nossa guarda, e durante a tua viagem veio busc-los. Eles foram-
O rabino compreendeu nesse preciso momento. Abraou a
e juntos verteram muitas lgrimas - mas tinha compreendido a mensagem, e a partir desse dia lutaram para superar
aquela perda.
 
Porqu achar que as coisas mudaram, s porque elas no
seguem o mesmo ritmo de sempre?, dizia para si prprio. No
sou homem nem anjo, mas apenas um cavalo com fome.
Enganando-se a
si prprio
        
Faz parte da natureza humana julgar sempre os outros com
muita severidade e, quando o vento sopra contra os nossos
anseios, encontramos sempre uma desculpa para o mal que fizemos ou culpamos o outro pelas nossas falhas. A histria que se
segue ilustra o que quero dizer.
Um mensageiro foi enviado numa misso urgente, para uma
cidade distante. Ps a sela no seu cavalo, e partiu a todo o galope. Depois de ver passar vrias hospedarias, onde se alimentavam sempre os animais, o 
cavalo pensou:
J no paramos para comer nas estrebarias, e isso significa
que j no sou tratado como um cavalo, mas sim como um ser
humano. Como todos os homens, creio que comerei na prxima cidade grande.
Mas as cidades grandes passavam, uma aps a outra, e o seu
condutor continuava a viagem. O cavalo ento comeou a pensar: Talvez eu no me tenha transformado num ser humano,
mas num anjo, pois os anjos no precisam de comida.
Finalmente, chegaram ao destino, e o animal foi conduzido
at ao estbulo, onde devorou o feno ali encontrado com um
apetite voraz.


A arte de tentar
A frase  de Pablo Picasso: Deus , sobretudo, um artista. Ele
inventou a girafa, o elefante, a formiga. Na verdade, Ele nunca
procurou seguir um estilo - simplesmente foi fazendo tudo aquilo
que tinha vontade de fazer.
 a nossa vontade de andar que cria o nosso caminho - contudo, quando comeamos a jornada em direco ao sonho, sentimos muito medo, como se 
fssemos obrigados a fazer tudo certinho. Afinal, se vivemos vidas diferentes, quem  que inventou
o padro do tudo certinho? Se Deus fez a girafa, o elefante e a
formiga, e ns tentamos viver  Sua imagem e semelhana, por-
que  que temos de seguir um modelo? O modelo, s vezes, serve-nos para evitar repetir erros estpidos que outros j cometeram, mas normalmente  uma 
priso que nos obriga sempre a
repetir o que todos fazem.
Ser coerente  ter de usar sempre a gravata a combinar com
as meias.  ser obrigado a manter, amanh, as mesmas opinies
de hoje. E o movimento do mundo, onde  que fica?
Desde que no prejudique ningum, mude de opinio de vez
em quando, e caia em contradio sem se envergonhar disso.
Voc tem esse direito; no interessa o que os outros vo pensar -
porque eles vo pensar de qualquer maneira.
Quando decidimos agir, alguns excessos acontecem. Diz um
velho ditado culinrio: Para fazer uma omelete  preciso, primeiro, partir um ovo. Tambm  natural que surjam conflitos
inesperados.  natural que surjam feridas no decorrer desses
conflitos. As feridas passam: permanecem apenas as cicatrizes.
Isso  uma bno. Essas cicatrizes ficam connosco o resto da
vida, e vo ajudar-nos muito. Se, em algum momento - por comodismo ou qualquer outra razo -, a vontade de voltar ao passado for grande, basta olhar 
para elas.
As cicatrizes vo mostrar-nos a marca das algemas, vo lembrar-nos dos horrores da priso - e continuaremos a caminhar
para a frente.
Por isso, relaxe. Deixe o Universo movimentar-se  sua volta,
e descubra a alegria de ser uma surpresa para si prprio. Deus
escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sbios,
diz So Paulo.
Um Guerreiro da Luz repara que certos momentos se repetem; com frequncia, ele v-se diante dos mesmos problemas, e
enfrenta situaes que j havia enfrentado anteriormente.
Ento fica deprimido. Comea a achar que  incapaz de progredir na vida, j que as mesmas coisas que viveu no passado
esto novamente a acontecer.
J passei por isto, protesta ele com o seu corao.
Realmente, j passaste, responde o corao. Mas nunca
ultrapassaste.
O Guerreiro passa ento a ter conscincia de que as experincias repetidas tm uma finalidade: ensinar-lhe o que ainda no
aprendeu. Ele tem sempre uma soluo diferente para cada luta
repetida - e no considera as suas falhas como erros, mas como
passos em direco ao encontro consigo prprio.
                        
Das armadilhas
da busca
Ao mesmo tempo que as pessoas passam a prestar mais ateno
s coisas do esprito, um outro fenmeno ocorre: a intolerncia
em relao  busca espiritual dos outros. Todos os dias recebo
revistas, e-mails, cartas, panfletos que tentam provar que tal caminho  melhor que o outro, e que contm uma srie de regras
para atingir a iluminao. Em virtude do volume crescente
deste tipo de correspondncia, decidi escrever um pouco sobre
aquilo que considero perigoso nesta busca.
Mito 1: a mente pode curar tudo. Isso no  verdade, e
prefiro ilustrar este mito com uma histria. H alguns anos,
uma amiga minha - profundamente envolvida na busca espiritual - comeou a ter febre, a passar muito mal, e durante
toda a noite procurou mentalizar o seu corpo, usando todas
as tcnicas que conhecia, de modo a curar-se apenas com o
poder do pensamento. No dia seguinte, os seus filhos, preocupados, pediram-lhe que fosse a um mdico - mas ela recusava-se, alegando que estava a 
purificar o seu esprito. S quando a situao ficou insustentvel  que ela aceitou ir ao
hospital, onde teve de ser operada imediatamente - diagnosticaram-lhe apendicite. Portanto, muito cuidado:  melhor, s
vezes, pedir a Deus que guie as mos de um mdico do que
tentar curar-se sozinho.
Mito 2: a carne vermelha afasta a luz divina.  evidente que,
se voc pertence a uma determinada religio, ter de respeitar as
regras estabelecidas - judeus e muulmanos, por exemplo, no
comem carne de porco, e neste caso trata-se de uma prtica que
faz parte da f. Contudo, o mundo est a ser inundado por uma
onda de purificao atravs da comida: os vegetarianos radicais olham as pessoas que comem carne como se fossem responsveis pelo assassnio de 
animais. Ora, as plantas tambm no
so seres vivos? A natureza  um constante ciclo de vida e de
morte, e algum dia seremos ns que iremos alimentar a terra -
portanto, se voc no pertence a uma religio que proba um
determinado alimento, coma aquilo que o seu organismo pedir.
Quero recordar aqui a histria do mago russo Gurdjieff: quando jovem, foi visitar um grande mestre, e para o impressionar
comia apenas vegetais.
Uma noite, o mestre quis saber porque  que tinha uma dieta
to rgida, e Gurdjieff comentou: Para manter limpo o meu
corpo. O mestre riu-se, aconselhando-o imediatamente a parar
com essa prtica: se continuasse assim, ia acabar como uma flor
numa estufa - muito pura, mas incapaz de resistir aos desafios
das viagens e da vida. Como dizia Jesus: O mal no  o que
entra, mas o que sai da boca do homem.
Mito 3: Deus  sacrifcio. Muita gente busca o caminho do
sacrifcio e da auto-imolao, afirmando que devemos sofrer neste
mundo, para ter felicidade no prximo. Ora, se este mundo 
uma bno de Deus, porque no saber aproveitar ao mximo as
alegrias que a vida d? Habitumo-nos  imagem de Cristo pregado na cruz, mas esquecemo-nos que a sua paixo durou apenas trs dias: o resto do 
tempo passou-o a viajar, a encontrar-se
com as pessoas, a comer, a beber, a levar a sua mensagem de
tolerncia. E tanto foi assim que o seu primeiro milagre foi politicamente incorrecto: como faltou bebida nas bodas de Cana,
ele transformou a gua em vinho. Fez isto, no meu entender,
para mostrar a todos ns que no existe mal nenhum em ser
feliz, alegrar-se, participar de uma festa - porque Deus est muito
mais presente quando estamos perto dos outros. Maom dizia:
Se estamos infelizes, tambm trazemos infelicidade aos nossos
amigos. Buda, depois de um longo perodo de provao e renncia, estava to fraco que quase se afogou; quando foi salvo por
um pastor, compreendeu que o isolamento e o sacrifcio nos afastam do milagre da vida.
Mito 4: existe um nico caminho at Deus. Este  o mais
perigoso de todos os mitos: a partir da comeam as explicaes
do Grande Mistrio, as lutas religiosas, o julgamento do nosso
prximo. Podemos escolher uma religio (eu, por exemplo, sou
catlico), mas devemos compreender que se o nosso irmo escolheu uma religio diferente, ir chegar ao mesmo ponto de luz
que ns procuramos com as nossas prticas espirituais. Finalmente, vale a pena lembrar que no  possvel transferir de maneira nenhuma para o padre, o 
rabino, o im, as responsabilidades das nossas decises. Somos ns que construmos, atravs de
cada um dos nossos actos, a estrada at ao Paraso.


O meu sogro,
Christiano Oiticica
Pouco antes de morrer, o meu sogro chamou a famlia:
-        Sei que a morte  apenas uma passagem, e quero poder
fazer essa travessia sem tristeza. Para que vocs no fiquem inquietos, mandarei um sinal de que valeu a pena ajudar os outros
nesta vida.
Pediu para ser cremado, as cinzas atiradas no Arpoador, enquanto um rdio tocava as suas msicas preferidas.
Faleceu dois dias depois. Um amigo facilitou a cremao em
So Paulo e, de volta ao Rio, fomos todos para o Arpoador com
o rdio, as cassetes, o embrulho com a pequena urna das cinzas.
Ao chegarmos em frente ao mar, descobrimos que a tampa estava presa com parafusos. Tentmos abrir, inutilmente.
No havia ningum por perto, s um mendigo, que se aproximou.
-        O que  que querem?
O meu cunhado respondeu:
-        Uma chave de parafusos, porque esto aqui as cinzas do
meu pai.
- Ele deve ter sido um homem muito bom, porque acabei de
encontrar isto - disse o mendigo.
E estendeu uma chave de parafusos.


* O Arpoador localiza-se entre as praias de Copacabana e Ipanema.




Obrigado,
Presidente Bush
Este texto foi publicado num portal ingls no dia 8 de Maro
de 2003, duas semanas antes da invaso do Iraque - e, nesse
mesmo ms, foi o artigo mais difundido sobre a guerra, com
aproximadamente 500 milhes de leitores.)
Obrigado, grande lder George W Bush.
Obrigado por mostrar a todos o perigo que Saddam Hussein
representa. Talvez muitos de ns se tivessem esquecido que ele
utilizou armas qumicas contra o seu povo, contra os curdos,
contra os iranianos. Hussein  um ditador sanguinrio, uma das
mais claras expresses do mal nos dias de hoje.
Contudo, esta no  a nica razo pela qual lhe estou a agradecer. Nos dois primeiros meses do ano de 2003, o senhor foi
capaz de mostrar muitas coisas importantes ao mundo, e por
isso merece a minha gratido.
Assim, recordando um poema que aprendi na infncia, quero
dizer-lhe obrigado.
Obrigado por mostrar a todos que o povo turco e o seu parlamento no esto  venda, nem por 26 mil milhes de dlares.
Obrigado por revelar ao mundo o gigantesco abismo que existe
entre a deciso dos governantes e a vontade do povo. Por deixar
claro que tanto Jos Maria Aznar como Tony Blair no do a
mnima importncia, nem tm respeito nenhum pelos votos que
receberam. Aznar  capaz de ignorar que 90 por cento dos espanhis esto contra a guerra, e Blair no se importa com a maior
manifestao pblica inglesa dos ltimos trinta anos.
Obrigado por a sua perseverana ter forado Tony Blair a ir
ao Parlamento Ingls com um dossi escrito h dez anos por um
estudante, e a apresentar isso como provas contundentes recolhidas pelo servio secreto britnico.
Obrigado por enviar Colin Powell ao Conselho de Segurana
da ONU com provas e fotografias, permitindo que, uma semana
depois, as mesmas fossem publicamente contestadas por Hans
Blix, o inspector responsvel pelo desarmamento do Iraque.
Obrigado por a sua posio ter feito com que o ministro dos
Negcios Estrangeiros de Frana, o Sr. Dominique de Villepin,
no seu discurso contra a guerra, tivesse a honra de ser aplaudido
no plenrio - honra esta que, pelo que eu sei, s tinha acontecido uma vez na histria da ONU, por ocasio de um discurso de
Nelson Mandela.
Obrigado porque, graas aos seus esforos pela guerra, pela
primeira vez as naes rabes - geralmente divididas - foram
unnimes em condenar uma invaso, durante o encontro no
Cairo, na ltima semana de Fevereiro.
Obrigado porque, graas  sua retrica em que afirma que a
ONU tem uma oportunidade de mostrar a sua relevncia, mesmo os pases mais relutantes acabaram por tomar uma posio
contra um ataque ao Iraque.
Obrigado por a sua poltica externa ter feito o ministro dos
Negcios Estrangeiros de Inglaterra, Jack Straw, declarar em pleno sculo XXI que uma guerra pode ter justificativas morais -
e, ao declarar isso, perder toda a sua credibilidade.
Obrigado por tentar dividir uma Europa que luta pela sua
unificao; esse foi um alerta que no ser ignorado.
Obrigado por ter conseguido o que poucos conseguiram neste sculo: unir milhes de pessoas, em todos os continentes, a
lutar pela mesma ideia - embora esta ideia seja oposta  sua.
Obrigado por nos fazer de novo sentir que, mesmo que as
nossas palavras no sejam ouvidas, elas so pelo menos pronunciadas - e isso dar-nos- mais fora no futuro.
Obrigado por nos ignorar, por marginalizar todos aqueles que
tomaram uma atitude contra a sua deciso, pois  dos excludos
o futuro da Terra.
Obrigado porque, sem o senhor, no teramos conhecido a
nossa capacidade de mobilizao. Talvez ela no sirva para nada
no presente, mas seguramente ser til mais adiante.
Agora que os tambores da guerra parecem soar de maneira
irreversvel, quero fazer minhas as palavras de um antigo rei europeu para um invasor: Que a sua manh seja linda, que o Sol
brilhe nas armaduras dos seus soldados - porque durante a tarde
eu derrot-lo-ei.
Obrigado por permitir que todos ns, um exrcito de annimos que passeiam pelas ruas a tentar parar um processo j em
marcha, tomemos conhecimento do que  a sensao de impotncia, aprendamos a lidar com ela e a transform-la.
Portanto, aproveite a sua manh e o que ela ainda pode trazer
de glria.
Obrigado porque no nos ouviu e no nos levou a srio. Pois
saiba que foi ouvido por ns e que no nos esqueceremos das
suas palavras.
Obrigado, grande lder George W. Bush.
Muito obrigado.
        
 
A terceira paixo
O empregado
inteligente
Na poca, numa base area em frica, o escritor Saint-Exupry
fez uma recolha de donativos junto dos seus amigos, porque um
empregado marroquino queria voltar  cidade natal. Conseguiu
juntar mil francos.
Um dos pilotos transportou o empregado at Casablanca,
voltou e contou o que aconteceu:
Assim que chegou, foi jantar ao melhor restaurante, distribuiu generosas gorjetas, pagou bebidas a todos, comprou bonecas para as crianas da aldeia. Este 
homem no tinha o mnimo
sentido de economia.
Pelo contrrio - respondeu Saint-Exupry. - Ele sabia que
o melhor investimento do mundo so as pessoas. Gastando assim, conseguiu ganhar novamente o respeito dos seus conterrneos, que acabaram por lhe 
dar emprego. Afinal de contas, s
um vencedor pode ser to generoso.
Nestes ltimos quinze anos, lembro-me de viver apenas trs
paixes avassaladoras - daquelas que nos fazem ler tudo a esse
respeito, conversar compulsivamente sobre o assunto, procurar
pessoas com a mesma afinidade, dormir e acordar a pensar no
tema. A primeira foi quando comprei um computador, abandonando para sempre a mquina de escrever e descobrindo a liberdade que isso me permitia 
(estou agora a escrever numa pequena cidade francesa, a usar algo que pesa menos de 1,5 quilos,
que contm dez anos da minha vida profissional, e em que posso
encontrar o que preciso em menos de cinco segundos). A segunda foi quando entrei pela primeira vez na Internet - j naquela
poca uma biblioteca maior que a maior de todas as bibliotecas.
A terceira paixo, porm, nada tem a ver com avanos tecnolgicos. Trata-se do... arco e flecha. Na minha juventude, li um
livro fascinante,  e a Arte do Tiro com Arco7, em que o autor,
E. Herrigel, contava o seu percurso espiritual atravs deste desporto. A ideia ficou no meu subconsciente at que um dia, nas
montanhas dos Pirenus, conheci um arqueiro. Conversa puxa
conversa, ele emprestou-me o seu material, e a partir da j no
consegui viver sem praticar o tiro ao alvo quase todos os dias.
No Brasil, fiz um campo de tiro no meu apartamento (daqueles que se pode desmontar em cinco minutos, quando as visitas
chegam). Nas montanhas francesas, saio todos os dias para praticar, e isso j me atirou duas vezes para a cama - com hipotermia -,
j que fiquei mais de duas horas exposto a uma temperatura de
seis graus negativos. Este ano, em Davos, apenas consegui participar no Frum Econmico Mundial graas aos analgsicos
fortssimos que tomei; dois dias antes, por causa de uma posio
errada do brao, tive uma dolorosa inflamao muscular.
E onde est o fascnio de tudo isto? No existe nada de prtico no tiro ao alvo com arco e flecha, armas que remontam a
30 000 anos antes de Cristo. Mas Herrigel, que me despertou a
paixo, sabia do que estava a falar. A seguir, trechos de Zen e a
Arte do Tiro com Arco (que podem ser aplicados a vrias actividades da vida diria):
No momento de manter a tenso, ela deve ser concentrada
apenas naquilo que precisa de usar; de resto, economize as suas
energias, aprenda (com o arco) que para se atingir algo no 
necessrio fazer um movimento gigantesco, mas focalizar o seu
objectivo.
O meu mestre deu-me um arco muito rgido. Perguntei porque  que estava a comear a ensinar-me como se eu j fosse um
profissional. Ele respondeu: "Aquele que comea com coisas fceis, fica despreparado para os grandes desafios.  melhor saber
logo que tipo de dificuldades vai encontrar no caminho."
Durante muito tempo, eu atirava sem conseguir abrir bem o
arco, at que um dia o mestre me ensinou um exerccio de respirao, e tudo se tornou mais fcil. Perguntei porque demorara
tanto para me corrigir. Ele respondeu: "Se desde o incio eu te
tivesse ensinado os exerccios respiratrios, acharias que eram
desnecessrios. Agora vais acreditar naquilo que eu te disser, e
vais praticar como se fosse realmente importante. Quem sabe
educar, age assim."
O momento de soltar a flecha acontece de maneira instintiva,
mas primeiro  preciso conhecer bem o arco, a flecha e o alvo.
Nos desafios da vida, o golpe perfeito tambm usa a intuio;
contudo, s nos podemos esquecer da tcnica depois de a dominarmos completamente.
Passados quatro anos, quando eu j era capaz de dominar o
arco, o mestre deu-me os parabns. Eu fiquei contente e disse
que j tinha chegado a metade do caminho. "No", respondeu o
mestre. "Para no cares em armadilhas traioeiras, o melhor 
considerares como metade do caminho o ponto que atinges depois de percorrer 90 por cento da estrada."
ATENO! O uso do arco e flecha  perigoso; em alguns pases
(como a Frana)  classificado como arma, s pode ser praticado depois de recebida uma carteira de habilitao, e apenas em lugares expressamente 
autorizados.
 
 

A Lei de Jante
O catlico e
o muulmano
Eu conversava com um sacerdote catlico e um rapaz muulmano durante um almoo. Quando o empregado passava com
uma bandeja, todos se serviam menos o muulmano, que fazia o
jejum anual prescrito no Alcoro.
Quando o almoo acabou e as pessoas saram, um dos convidados no deixou de alfinetar:
Repare como os muulmanos so fanticos! Ainda bem que
vocs no tm nada em comum com eles.
Temos, sim - disse o padre. - Ele tenta servir Deus tanto quanto
eu. Apenas seguimos leis diferentes.
E concluiu:
-         pena que as pessoas s vejam as diferenas que as separam. Se olhassem com mais amor, veriam principalmente o que
h de comum entre elas - e metade dos problemas do mundo
seriam resolvidos.
-O que  que acha da princesa Martha-Louise?
O jornalista noruegus entrevistava-me  beira do lago de
Genebra. Geralmente, recuso-me a responder a perguntas que
fogem ao contexto do meu trabalho, mas neste caso a sua curiosidade tinha um motivo: a princesa, no vestido que usou ao fazer trinta anos, mandara bordar 
o nome de vrias pessoas que
tinham sido importantes na sua vida - e entre esses nomes estava
o meu (a minha mulher achou a ideia to boa que resolveu fazer
o mesmo no seu aniversrio dos cinquenta, pondo o crdito inspirado pela princesa da Noruega num dos cantos da roupa).
-        Acho-a uma pessoa sensvel, delicada, inteligente - respondi.
- Tive a oportunidade de a conhecer em Oslo, quando me apresentou ao seu marido, escritor como eu.
Parei um pouco, mas precisava de continuar:
-        E h uma coisa que eu realmente no percebo: porque 
que a imprensa norueguesa passou a atacar o trabalho literrio
dele depois do casamento com a princesa? Antes as crticas eram
positivas.
No era propriamente uma pergunta, mas uma provocao,
pois eu j imaginava a resposta: a crtica mudou porque as pessoas sentem inveja, o mais amargo dos sentimentos humanos.
        
O jornalista, contudo, foi mais sofisticado do que isso:
- Porque ele transgrediu a Lei de Jante.
 evidente que eu nunca ouvira falar disso, e ele explicou-me
o que era. Continuando a viagem, percebi que em todos os pases da Escandinvia  difcil encontrar algum que no conhea
esta lei. Embora ela j exista desde o incio da civilizao, foi
enunciada oficialmente apenas em 1933 pelo escritor Aksel
Sandemose na novela Um Refugiado Ultrapassa os Seus Limites.
A triste constatao  que a Lei de Jante no se limita 
Escandinvia:  uma regra aplicada em todos os pases do mundo, embora os brasileiros digam s aqui  que acontecem essas
coisas, ou os franceses afirmem no nosso pas, infelizmente, 
assim. Como o leitor j deve estar irritado porque leu mais de
metade da crnica sem saber exactamente do que trata a Lei de
Jante, vou tentar resumi-la aqui, com as minhas prprias palavras:
Voc no vale nada, ningum est interessado no que voc
pensa, a mediocridade e o anonimato so a melhor escolha. Se
agir assim, nunca ter grandes problemas na sua vida.
A Lei de Jante enfoca, no seu contexto, o sentimento de cime e de inveja que s vezes d muita dor de cabea a pessoas
como Ari Behn, o marido da princesa Martha-Louise. Este  um
dos seus aspectos negativos, mas existe algo muito mais perigoso.
 graas a ela que o mundo tem sido manipulado de todas as
maneiras, por gente que no teme o comentrio dos outros e
que acaba por fazer o mal que deseja. Acabamos de assistir a
uma guerra intil no Iraque, que continua a custar muitas vidas;
vemos um grande abismo entre os pases ricos e os pases pobres, injustias sociais por todo o lado, violncia descontrolada,
pessoas que so obrigadas a renunciar aos seus sonhos por causa
de ataques injustos e cobardes. Antes de iniciar a Segunda Guerra mundial, Hitler deu vrios sinais das suas intenes, e o que o
fez ir adiante foi saber que ningum ousaria desafi-lo por causa
da Lei de Jante.
A mediocridade pode ser confortvel, at ao dia em que a
tragdia bate  porta, e as pessoas se interrogam: Mas porque 
que ningum disse nada, quando toda a gente estava a ver que
isso ia acontecer?
 simples: ningum disse nada porque elas tambm no disseram nada.
Portanto, para evitar que as coisas fiquem cada vez piores,
talvez fosse o momento de escrever a antilei de Jante:
Voc vale muito mais do que pensa. O seu trabalho e a sua
presena nesta Terra so importantes, mesmo que no acredite.
Claro que, ao pensar assim, poder ter muitos problemas por
estar a transgredir a Lei de Jante - mas no se deixe intimidar
por eles, continue a viver sem medo, e vencer no final.
 
 
A velha em
Copacabana
Permanecendo
abertos ao amor
Lla estava no passeio da Avenida Atlntica, com uma viola e
uma placa escrita  mo: Vamos cantar juntos.
Comeou a tocar sozinha. Depois chegou um bbedo, uma
outra velhinha, e comearam a cantar com ela. Dali a pouco,
uma pequena multido estava a cantar e outra pequena multido servia de plateia, batendo palmas no final de cada nmero.
-        Porque  que faz isto? -- perguntei, entre uma msica e outra.
-        Para no ficar sozinha - disse ela. - A minha vida  muito
solitria, como a vida de quase todos os velhos.
Oxal todos resolvessem os seus problemas desta maneira.
H momentos em que gostaramos muito de ajudar quem muito
amamos, mas no podemos fazer nada. Ou as circunstncias no
permitem que nos aproximemos, ou a pessoa no est permevel a qualquer gesto de solidariedade e de apoio.
Ento, resta-nos apenas o amor. Nos momentos em que tudo
 intil, ainda podemos amar - sem esperar recompensas, mudanas, agradecimentos.
Se conseguirmos agir desta maneira, a energia do amor comea
a transformar o universo  nossa volta. Quando esta energia aparece, consegue sempre realizar o seu trabalho. O tempo no
transforma o homem. O poder da vontade no transforma o
homem. O amor transforma, diz Henry Drummond.
Li no jornal acerca de uma criana que, em Braslia, foi brutalmente espancada pelos pais. Como resultado, perdeu os movimentos do corpo e ficou sem fala.
Internada no Hospital de Base, foi tratada por uma enfermeira
que lhe dizia diariamente: Eu amo-te. Embora os mdicos garantissem que ela no a conseguia ouvir e que os seus esforos
eram inteis, a enfermeira continuava a repetir: Eu amo-te, no
te esqueas.

Trs semanas depois, a criana tinha recuperado os movimentos. Quatro semanas depois, voltava a falar e a sorrir. A enfermeira
nunca deu entrevistas, nem o jornal publicava o seu nome - mas
fica aqui o registo, para que nunca esqueamos: o amor cura.
O amor transforma, o amor cura. Mas, s vezes, o amor constri armadilhas mortais, e acaba por destruir a pessoa que decidiu entregar-se por completo. 
Que sentimento complexo  este
que - no fundo -  a nica razo para continuarmos vivos, a
lutar, a tentar melhorar?
Seria uma irresponsabilidade tentar defini-lo, porque, como
os demais seres humanos, eu apenas consigo senti-lo. Milhares
de livros so escritos, peas de teatro encenadas, filmes produzidos, poesias criadas, esculturas talhadas em madeira ou em mrmore e, mesmo assim, tudo 
o que o artista pode passar  a ideia
de um sentimento - no o sentimento em si.
Mas eu aprendi que este sentimento est presente nas pequenas coisas, manifestando-se na mais insignificante das atitudes
que tomamos, portanto,  preciso ter o amor sempre em mente,
quando agimos ou quando deixamos de agir.
Pegar no telefone e dizer a palavra de carinho que adiamos.
Abrir a porta e deixar entrar quem precisa da nossa ajuda. Aceitar um emprego. Abandonar um emprego. Tomar a deciso que
estvamos a deixar para depois. Pedir perdo por um erro que
cometemos e que no nos deixa em paz. Exigir um direito
que temos. Abrir uma conta na florista, que  mais importante
que o joalheiro. Pr a msica bem alta quando a pessoa amada
est longe, baixar o volume quando ela est perto. Saber dizer
sim e no, porque o amor lida com todas as energias do
homem. Descobrir um desporto que possa ser praticado a dois.
No seguir nenhuma receita, nem mesmo as que esto neste
pargrafo - porque o amor precisa de criatividade.
E quando nada disso for possvel, quando o que restar for
apenas a solido, ento lembre-se da histria que um leitor me
enviou uma vez:
Uma rosa sonhava dia e noite com a companhia das abelhas,
mas nenhuma vinha pousar nas suas ptalas.
A flor, contudo, continuava a sonhar: durante as longas noites, imaginava um cu onde voavam muitas abelhas, que vinham
carinhosamente beij-la. Desta maneira, conseguia resistir at
ao dia seguinte, quando voltava a abrir-se com a luz do Sol.
Uma noite, apercebendo-se da solido da rosa, a Lua perguntou-lhe:
No ests cansada de esperar?
Talvez. Mas preciso de continuar a lutar.
Porqu?
Porque, se no me abrir, murcho.
Nos momentos em que a solido parece esmagar toda a beleza,
a nica maneira de resistir  continuarmos abertos.
 
Acreditando no
impossvel
William Blake diz num dos seus textos: Tudo aquilo que hoje
 uma realidade, antes era apenas parte de um sonho impossvel. E, por causa disso, hoje temos o avio, os voos espaciais, o
computador onde neste momento escrevo esta crnica, etc. Na
famosa obra-prima de Lewis Carroll, Alice do Outro Lado do
Espelho, h um dilogo entre a personagem principal e a rainha
- que acabara de contar algo extraordinrio.
- No posso acreditar - diz Alice.
-        No podes? - repete a rainha com um ar triste. - Tenta
outra vez: respira fundo, fecha os olhos e acredita.
Alice ri-se:
No adianta tentar. S os tolos acham que as coisas impossveis podem acontecer.
Acho que o que te est a faltar  um pouco de prtica -
responde a rainha. - Quando eu tinha a tua idade, treinava pelo
menos meia hora por dia: logo a seguir ao pequeno-almoo, fazia o possvel para imaginar cinco ou seis coisas inacreditveis
que poderiam cruzar o meu caminho, e hoje vejo que a maior
parte das coisas que imaginei se tornaram realidade. Inclusive,
eu tornei-me rainha por causa disso.
A vida pede-nos constantemente: Acredita! Acreditar que
um milagre pode acontecer a qualquer momento  necessrio
para a nossa alegria, mas tambm para a nossa proteco, ou
para justificar a nossa existncia. No mundo de hoje, muita gente julga impossvel acabar com a misria, ter uma sociedade justa, diminuir a tenso religiosa 
que parece crescer a cada dia.
A maior parte das pessoas evita a luta sob os mais diversos
pretextos: conformismo, maturidade, senso do ridculo, sensao de impotncia. Vemos a injustia a ser aplicada ao prximo,
e ficamos calados. Eu no quero meter-me em confuses,  a
explicao.
Esta atitude  muito cobarde. Quem percorre um caminho
espiritual, leva consigo um cdigo de honra que tem de ser
cumprido; a voz que clama contra o que est errado  sempre
ouvida por Deus.
Mesmo assim, de vez em quando ouvimos o seguinte comentrio:
Passo a maior parte do tempo a acreditar em sonhos, muitas
vezes tento combater a injustia, mas acabo sempre por me decepcionar.
Um guerreiro da luz sabe que certas batalhas impossveis merecem ser travadas, e por isso no tem medo de decepes -
visto que conhece o poder da sua espada e a fora do seu amor.
Ele rejeita com veemncia aqueles que so incapazes de tomar
decises e que esto sempre a tentar transferir para os outros a
responsabilidade de tudo o que de mau acontece no mundo.
Se ele no luta contra o que est errado - mesmo que parea
acima das suas foras -, nunca encontrar o caminho certo.
O meu editor iraniano, Arash Hejasi, enviou-me uma vez um
texto que dizia:
Hoje, uma grande chuvada apanhou-me de surpresa, enquanto
eu andava pela rua... graas a Deus, tinha o meu guarda-chuva e a
minha capa. Contudo, ambos estavam no porta-bagagens do meu
carro, estacionado bastante longe. Enquanto estava a correr para
os ir buscar, pensava no estranho sinal que recebia de Deus:
temos sempre os recursos necessrios para enfrentar as tempestades que a vida nos prepara, mas na maior parte das vezes esses
recursos esto trancados no fundo do nosso corao, e isso faz-
-nos perder muito tempo quando tentamos encontr-los. Quando os encontramos, j fomos derrotados pela adversidade.
Estejamos, portanto, sempre preparados: caso contrrio, ou
perdemos a oportunidade ou perdemos a batalha.
 
A tempestade
aproxima-se
Vejo que vem a uma tempestade, porque consigo ver  distncia; ver o que est a acontecer no horizonte. Claro, a luz ajuda
um bocado -  o final do entardecer, o que refora o contorno
das nuvens. Tambm vejo o claro dos raios.
No h barulho. O vento no est a soprar nem mais forte
nem mais fraco do que antes. Mas sei que vem a uma tempestade, porque costumo olhar para o horizonte.
Paro de caminhar - nada mais excitante ou aterrorizante do
que olhar uma tempestade que se aproxima. O primeiro pensamento que me ocorre  procurar um abrigo - mas isso pode ser
perigoso. O abrigo pode ser uma espcie de armadilha - daqui a
pouco, o vento vai comear a soprar, e deve ser suficientemente
forte para arrancar telhados, partir galhos, destruir fios de alta
tenso.
Lembro-me de um velho amigo que, quando criana, vivia
na Normandia e que presenciou o desembarque das tropas aliadas em Frana, aquando da ocupao dos nazis. No me esqueo das suas palavras:
Acordei, e o horizonte estava repleto de navios de guerra.
Na praia ao lado da minha casa, os soldados alemes contemnplavam a mesma cena que eu. Mas a coisa que mais me aterrorizava era o silncio. Um 
silncio total, que precede um combate
de vida ou morte.
 este mesmo silncio que me cerca. E que, pouco a pouco, 
substitudo pelo barulho - muito suave - da brisa nos campos de
milho  minha volta. A presso atmosfrica est a mudar. A tempestade est cada vez mais prxima, e o silncio comea a ser
substitudo pelo farfalhar suave das folhas.
J presenciei muitas tempestades na minha vida. A maior parte
das tormentas apanhou-me de surpresa, de modo que tive de
aprender - e muito depressa - a ver mais longe, a compreender
que no sou capaz de controlar o tempo, a exercitar a arte da
pacincia e a respeitar a fria da natureza. Nem sempre as coisas
acontecem da forma que eu desejava, e  melhor acostumar-me
a isso.
H muitos anos, compus uma msica que dizia Eu perdi o
meu medo da chuva/ pois a chuva, voltando para a terra, traz
coisas do ar.  melhor dominar o medo. Ser digno daquilo que
escrevi, e perceber que, por pior que seja o vendaval, num dado
momento ele passar.
O vento aumentou de velocidade. Estou num campo aberto,
existem rvores no horizonte que, pelo menos teoricamente, vo
atrair os raios. A minha pele  impermevel, mesmo que as minhas roupas fiquem encharcadas. Portanto,  melhor desfrutar
desta viso, em vez de sair a correr em busca de segurana.
Outra meia hora se passa. O meu av, que era engenheiro,
gostava de me ensinar as leis da fsica enquanto nos divertamos: Depois de veres o raio, conta os segundos e multiplica
por 340 metros, que  a velocidade do som. Assim, sabers sempre qual a distncia dos troves.  um bocado complicado,
mas acostumei-me a fazer isto desde criana: neste momento, a
tempestade est a dois quilmetros.
Ainda h claridade suficiente para que eu consiga ver o contorno das nuvens, que os pilotos de avio chamam CB - cumulus
nimbus. O formato  o de uma bigorna, como se um ferreiro
estivesse a martelar os cus, a forjar espadas para deuses enfurecidos, que neste momento devem estar sobre a cidade de Tarbes.
Vejo a tempestade que se aproxima. Como toda e qualquer
tempestade, ela traz destruio - mas ao mesmo tempo molha
os campos, e a sabedoria do cu desce juntamente com a chuva.
Como toda e qualquer tempestade, ela deve passar. Quanto mais
violenta, mais rpida.
Graas a Deus, aprendi a enfrentar tempestades.

 
E terminamos este livro
com preces...
Dhammapada (atribuda a Buda)
Melhor que, em vez de mil palavras,
Houvesse apenas uma, mas que trouxesse a Paz.
Melhor que, em vez de mil versos,
Houvesse apenas um, mas que mostrasse o Belo.
Melhor que, em vez de mil canes,
Houvesse apenas uma, mas que espalhasse a Alegria.
Mevlana Jelaluddin Rumi, sculo XIII
L fora, alm do que est certo e do que est errado, existe
um campo imenso.
Encontrar-nos-emos l.
Profeta Mohammed, sculo VII
O Al! Eu te consulto porque sabes tudo, e conheces at aquilo
que est escondido.
Se o que estou a fazer  bom para mim e para a minha religio, para a minha vida agora e depois, ento que a tarefa seja
fcil e abenoada.
Se o que estou a fazer agora  mau para mim e para a minha
religio, para a minha vida agora e depois, mantenha-me longe
desta tarefa.
Jesus de Nazar, Mateus 7; 7-8
Pede, e recebers.
Procura, e encontrars.
Bate, e a porta abrir-se-.
Porque quem pede, recebe; quem procura, acha; quem bate,
a porta abre-se.
Prece Judaica para a Paz
Vamos  montanha do Senhor, onde poderemos caminhar
com Ele. Transformemos as nossas espadas em arados, e as nossas lanas em colectores de frutos.
Que nenhuma nao levante a sua espada contra outra, e que
nunca aprendamos a arte da guerra.
E ningum deve temer o seu vizinho, porque assim disse o
Senhor.
Lao Ts, China - sculo VI a.C.
Para haver paz no mundo,  necessrio que as naes vivam
em paz.
Para haver paz entre as naes, as cidades no se devem levantar uma contra a outra.
Para haver paz nas cidades, os vizinhos tm de se entender.
Para haver paz entre os vizinhos,  preciso que reine a harmonia no lar.
Para haver paz em casa,  preciso encontr-la no seu prprio
corao.

        
ndice
Prefcio        
Um dia no moinho        
O homem que seguia os seus sonhos        
O mal quer que o bem seja feito        
Preparado para o combate, mas com dvidas        
O caminho do tiro com o arco        
A histria do lpis        
Manual para subir montanhas        
Da importncia do diploma        
Num bar de Tquio        
Da importncia do olhar        
Gengis Khan e o seu falco        
Olhando para o jardim alheio        
A caixa de Pandora        
Como o todo pode estar numa parte        
A msica que vinha da capela        
A piscina do diabo        
O morto que vestia pijama        
A brasa solitria        
Manuel  um homem importante e necessrio        
Manuel  um homem livre        
Manuel vai ao Paraso        
Uma conferncia em Melbourne        
O pianista no centro comercial        
Rumo  feira do livro de Chicago        
Dos bastes e das regras        
O po que caiu com o lado errado        
De livros e bibliotecas        
Praga, 1981        
Para uma mulher que  todas as mulheres        
Algum chega de Marrocos        
O meu funeral        
Restaurando a teia        
Afinal, estes so os meus amigos        
Como sobrevivemos?        
Marcado para morrer                 
O momento da aurora        
Um dia qualquer de Janeiro de 2005         
Um homem deitado no cho        
O tijolo que faltava        
Raj conta-me uma histria        
O outro lado da Torre de Babel        
Antes de uma conferncia        
Sobre a elegncia        
Nh Chica de Baependi        
Reconstruindo a casa        
A orao que eu esqueci        
Copacabana, Rio de Janeiro        
Viver a sua prpria lenda        
A importncia do gato na meditao        
No posso entrar        
Estatutos do novo milnio        
Destruindo e reconstruindo        
O guerreiro e a f        
No porto de Miami        
Agindo impulsivamente        
Da glria transitria        
Da caridade ameaada        
As bruxas e o perdo        
Sobre o ritmo e o Caminho        
Viajando de maneira diferente        
Um conto de fadas        
Ao maior dos escritores brasileiros        
Do encontro que no aconteceu         
O casal que sorria (Londres, 1977
A segunda oportunidade         
O australiano e o anncio de jornal         
O pranto do deserto        
Roma: Isabella volta do Nepal        
Da arte da espada        
Nas montanhas azuis        
O sabor de ganhar        
A cerimnia do ch        
A nuvem e a duna        
Norma e as coisas boas        
21 de Junho de 2003, Jordnia, Mar Morto        
No porto de San Diego, Califrnia        
A arte da retirada        
No meio da guerra        
O militar na floresta        
Numa cidade da Alemanha        
Encontro na Galeria Dentsu        
Reflexes sobre o 11 de Setembro de 2001         
Os sinais de Deus        
Solitrio no caminho        
O que  divertido no homem        
A volta ao mundo depois de morta        
Quem ainda quer esta nota?        
As duas jias        
Enganando-se a si prprio        
A arte de tentar        
Das armadilhas da busca        
O meu sogro, Christiano Oiticica        
Obrigado, Presidente Bush        
O empregado inteligente        
A terceira paixo        
O catlico e o mululmano        
A lei de Jante        
A velha em Copacabana        
Permanecendo abertos ao amor        
Acreditando no impossvel        
A tempestade aproxima-se        
terminamos este livro com preces        
 
 
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